AVC
Um tratamento do AVC, que remove o coágulo do cérebro através de um cateterismo, permite reduzir o número de mortes em 6% e, a metade dos doentes, retomar a sua vida normal, segundo estudos científicos publicados este ano.

Este tratamento já existe há alguns anos e está disponível em vários hospitais públicos, mas a técnica não era usada de forma rotineira, porque a sua eficácia ainda não estava comprovada, explicou à Lusa Joana Graça, organizadora do Congresso Nacional de Neurorradiologia, que decorre de 23 a 25 de outubro, onde este e outros temas relacionados com o AVC (Acidente Vascular Cerebral) vão ser debatidos.

Publicados este ano no The New England Journal of Medicine, estudos científicos sobre o cateterismo arterial, ou trombectomia mecânica, vieram provar a eficácia deste tratamento e demonstrar que é “possível diminuir significativamente o número de mortes (6%) por AVC e permitir que cerca de 50% das pessoas que sofreram um AVC possam retomar a sua vida normal”.

“Os estudos começaram a sair no início do ano e a Sociedade Europeia de Neurorradiologia começou a recomendar o tratamento”, disse a médica, considerando que é necessário desenvolver a urgência da neurorradiologia nos hospitais, porque esta técnica tem de ser feita o mais rapidamente possível após o início dos sintomas.

Este tratamento deve ser realizado idealmente até às seis horas após o início dos sintomas, mas em casos selecionados pode estender-se até às 12 horas após o início do AVC.

Trata-se de uma técnica realizada por médicos neurorradiologistas que consiste no cateterismo cerebral, ou seja, na navegação no interior dos vasos sanguíneos com dispositivos que vão diretamente ao local da oclusão e permitem a remoção do coágulo.

Em Portugal, o Hospital de São José foi pioneiro na utilização desta técnica, que atualmente já é praticada também nas unidades hospitalares de Santo António, São João, Braga, Gaia, Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, bem como, a sul do país, nos hospitais de Santa Maria, Garcia de Orta e Egas Moniz.

Os estudos de análise custo-eficácia revelaram que, apesar do custo inicial desta terapêutica ser elevado para o Estado, a longo prazo é eficaz e sai mais barato - tendo em conta os ganhos em anos de vida com qualidade -, do que tratar as consequências de um AVC que deixe doentes dependentes de onerosos cuidados de saúde, explicou Joana Graça.

O XI Congresso Nacional de Neurorradiologia, organizado pela Sociedade Portuguesa de Neurorradiologia (SPNR), que decorrerá no Campus Universitário de Aveiro, vai também atribuir pela primeira vez o Prémio Egas Moniz em Neurorradiologia.

Este prémio bienal, criado pela SPNR, vai ser formalmente apresentado no dia 22, altura em que decorrerá a assinatura protocolar da constituição do prémio que assinala o 70º Aniversário do Prémio de Oslo (desenvolvimento da Angiografia Cerebral) e do 25º Aniversário da SPNR. A atribuição do prémio terá lugar durante o congresso.

Lusa/Jornal Médico

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A Administração Regional de Saúde do Centro (ARSC) anunciou ontem, dia 3 de setembro, que todos os hospitais da região têm a funcionar desde agosto um projeto que articula, em rede, as unidades de assistência aos Acidentes Vasculares Cerebral (AVC).

Segundo o presidente José Tereso, citado num comunicado da ARSC, "a articulação entre as unidades melhora a comunicação inter-hospitalar, promovendo maior eficácia e eficiência na assistência e tratamento do doente com AVC, que continua a ser a principal causa de morte em Portugal".

"O projeto, que registou uma adesão espontânea dos hospitais, e que conta com a parceria do INEM, cria uma rede de cuidados muito importante que permite, por exemplo, através da teleconsulta, fazer a avaliação do doente, a análise partilhada de exames complementares de diagnóstico e a partilha da decisão na transferência do doente para uma unidade de AVC mais diferenciada, onde é possível a terapêutica cirúrgica", explica a nota.

O presidente da ARSC considera que a rede de hospitais com unidades de AVC na região Centro é "um desafio que, com a dedicação e esforço dos profissionais envolvidos, está a avançar".

O projeto, adiantou, permite otimizar meios já existentes, exigindo pequenos investimentos a nível da teleconsulta, que serão reforçados com a distribuição de seis webcam pelos hospitais presentes.

No comunicado, a ARSC informa que na quarta-feira decorreu uma reunião que reavaliou a rede regional e que, em outubro, se volta a realizar outra sessão com o mesmo objetivo.

Lusa/Jornal Médico

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AVC 1

A Associação Nacional AVC alertou hoje as entidades governamentais para a urgência de se implementar um novo modelo de intervenção ao nível da reabilitação das vítimas de acidente vascular cerebral em Portugal.

Segundo a associação, “o número de sessões comparticipadas pelo Ministério da Saúde é inegavelmente insuficiente e em grande parte de discutível qualidade. Além disso, à excepção de Alcoitão e do Centro de Reabilitação do Norte, não existem unidades de reabilitação e de promoção da autonomia com condições de excelência e específicas para estes doentes”.

Por outro lado, “existe uma realidade alarmante quando olhamos para as famílias de um doente de AVC, muitas delas com dificuldades em proporcionar um contexto digno e humano ao seu familiar”, considera a presidente desta associação nacional de doentes, Clara Fernandes, que falava a propósito do Dia Nacional do AVC, que se assinala terça-feira (31 de Março).

“Temos cuidadores que acolhem no seu seio doentes dependentes com muitas vulnerabilidades sociais, económicas e psicológicas. Contextos com carência de alimentos e medicação e com um acompanhamento médico altamente deficitário”, sublinhou.

De acordo com dados divulgados pela Associação Nacional AVC, “seis portugueses sofrem um acidente vascular cerebral por hora, resultando em duas a três mortes”.

O estilo de vida actual, os maus hábitos alimentares, o sedentarismo e o tabaco colocam em risco “85% da população portuguesa”.

“Estes números reflectem um cenário preocupante e que necessita de uma actuação urgente por parte do Governo do ponto de vista da prevenção e sensibilização para os factores de risco do AVC. É imperativamente necessário reflectir e operacionalizar uma política eficiente e concertada inclusive com a única associação nacional de doentes para em conjunto diminuirmos esta enfermidade”, afirma Clara Fernandes.

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Lopes_Castro

Tem dedicado a vida à luta contra o maior dos muitos flagelos que atingem a população portuguesa: o acidente vascular cerebral, principal causa de mortalidade em Portugal. Uma batalha que se desenrola em múltiplas frentes, desde a prevenção primária, com acções de sensibilização dirigidas à população, à formação dos muitos parceiros que nela intervêm. E à formação clínica, que com os anos transpôs os bancos da universidade para chegar aos profissionais que no terreno todos os dias têm que lidar com a doença.

Em Março de 2005 fundou a Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral – SPAVC, com o objectivo de prevenir e reduzir a mortalidade, morbilidade e incapacidade associadas à maleita. Em entrevista ao nosso jornal, fixou conceitos, denunciou os efeitos perversos dos erros de nomenclatura que ainda vigoram e apontou os caminhos que defende para uma prevenção eficaz.

JORNAL MÉDICO | Pese o facto de partilharem os mesmos factores de risco, a prevalência de AVC é, entre nós, muito mais acentuada do que a da doença isquémica coronária? O que se passa? Existirá alguma “especificidade lusa” que determine esta diferença?

CASTRO LOPES | Os factores de risco são na sua maioria comuns à patologia vascular cerebral e à patologia cardiovascular, mas é muito diferente a sua repercussão em estruturas tão diversas na sua complexidade como o cérebro e o coração, o que confere uma especificidade diferente às consequências de cada uma.

Com os dados conhecidos da composição etária da população e da sua previsível evolução, o conhecimento dos factores de risco e a sua correcção por parte dos profissionais da saúde e da população assumem a maior importância, dada a prevalência da doença vascular cerebral no envelhecimento e a sua cada vez mais evidente participação na deterioração cognitiva, indo do défice cognitivo ligeiro à demência vascular e mesmo à sua importância no contributo para a deterioração na doença de Alzheimer.

O que se verifica na população portuguesa é um deficiente despiste dos factores de risco vascular e da sua eficaz correcção através da adopção de estilos de vida saudáveis e da intervenção farmacológica, quando indicada.

A década de Helsinborg (2005-2015) elege como os cinco factores “major” a combater na década: a hipertensão arterial, o tabagismo, a diabetes, a fibrilhação auricular e o sedentarismo.

JM | Quais os principais desafios clínicos na prevenção do AVC?

CL | Em primeiro lugar o empenho dos profissionais da saúde no seu conhecimento, difusão e correcção. Depois uma população consciente de que relativamente ao AVC “o mal não acontece só aos outros”; “que não é uma doença de velhos”... Que é possível prevenir – e também tratar – o AVC.

JM | Cerca de metade dos doentes com AVC ainda vai para o hospital sem chamar o INEM. O que fazer para contrariar os números?

CL | Consciencializar a população para o facto de o AVC ser uma emergência cujos sintomas qualquer pessoa pode e deve saber reconhecer recorrendo à informação difundida pela SPAVC, que definiu três sinais mínimos, qualquer dos quais indicador de que se está a ser vítima de um AVC. Refiro-me aos denominados “3F” que correspondem a: menos força no membro superior de um lado; desvio da parte inferior da face (a denominada boca ao lado); e dificuldade em falar (querer dizer algo e não o conseguir, ou mesmo não entender o que lhe é dito).

A Comunicação Social deverá aqui assumir uma importância fundamental.

JM | As “Vias Verdes” estão suficientemente bem desenhadas para fazer face às necessidades do país?

CL | De acordo com dados disponíveis o sistema de resposta emergente aos doentes com acidente vascular agudo traduziu-se em ganhos em Saúde, com progressivo maior acesso dos doentes a técnicas eficazes de tratamento e uma melhoria progressiva da equidade do sistema, contribuindo para a redução da mortalidade por doença vascular cerebral verificada no país. Os resultados alcançados podem ser favoravelmente comparados com outros internacionais, que corroboram a estratégia adoptada.

Um estudo realizado pelo Dr. Miguel Soares de Oliveira, cujos resultados foram publicados na Revista Portuguesa de Cardiologia, mostra que a implementação, na Região Norte, de um sistema regional de resposta emergente ao acidente vascular cerebral agudo, permitiu uma recuperação funcional aos três meses total ou quase total em 50% dos casos referenciados. Trata-se de um excelente exemplo de que as “Vias-Verde” para o AVC se aperfeiçoam progressivamente.

JM | Em caso de AVC, até que ponto as chamadas “janelas terapêuticas” para o sucesso da fibrinólise são extensíveis?

CL | A janela terapêutica para o AVC agudo situa-se actualmente nas 4,5 horas. Isto não quer dizer que não devam ser feitos todos os esforços para que o doente chegue ainda mais rapidamente a uma unidade hospitalar com unidade de AVC. A penumbra isquémica requer urgência para “salvar” o maior número de neurónios possível. A repermeabilização, ao fim de uma hora, será certamente preferível à realizada às 4,5 horas, janela em que foi demonstrada eficácia e como tal incluída nas Recomendações da European Stroke Organisation (ESO).

JM | Que modelo de intervenção defende na prevenção e tratamento do AVC

CL | Nas prevenções primária e secundária a Medicina Geral e Familiar tem um papel da maior importância, intervindo na correcção dos factores de risco vascular e sensibilizando a população para que o AVC pode ser prevenido.

A fase aguda é essencialmente uma etapa de intervenção hospitalar multidisciplinar sempre com a coordenação do Neurologista, com a intervenção de Medicina Interna e Fisiatria, desde o início e com a Enfermagem, com particular interesse e mesmo diferenciação nesta patologia.

JM | Reabilitação (e reintegração social e profissional) do doente pós AVC. O que tem sido feito… O que ainda falta fazer?

CL | A reabilitação pós-AVC tem sido uma preocupação da SPAVC, sendo abordada em todos os seus Congressos. No 6º Congresso Português do AVC, realizado em 2012, o Dr. Pedro Cantista, do Serviço de Fisiatria do Centro Hospitalar do Porto, apresentou uma comunicação onde afirmava que “A reabilitação do AVC tem experimentado uma enorme evolução. Desde logo na definição dos seus objectivos mas igualmente nas suas metodologias”. A eficácia dos programas de Medicina Física e Reabilitação (MFR), relatou então, “origina uma crescente procura e obriga a uma estratégia organizativa dos cuidados assistenciais desta área”. E recordou – muito a-propósito, que completados dez anos sobre a criação da Rede Nacional de MFR (em 2001), ainda havia muito caminho a percorrer até à sua completa implementação. Registava-se “Desde o défice de camas de internamento em MFR nos hospitais de agudos”, à dificuldade de acesso aos cuidados de MFR de um grande número de doentes e à injusta assimetria geográfica própria do acesso a esses cuidados.

Acrescentarei que compreendendo estas necessidades o Centro de Medicina Física e Reabilitação do Alcoitão, aumentou consideravelmente o número de camas dedicadas à recuperação de doentes vítimas de AVC e que o Centro de Reabilitação do Norte, recentemente aberto, dedica grande parte das suas camas (110) para igual objectivo.

JM | Investigação sobre AVC em Portugal… Existe e é de qualidade?

CL | A investigação clínica e básica na patologia vascular cerebral é de alta qualidade e numerosa. Seria fastidioso enumerar o quanto se faz. Apenas a título de exemplo, em 2014, o prémio para melhor projecto de Investigação instituído pela SPAVC teve sete candidaturas. A colaboração da SPAVC com a Instituição Universitária tem-se mostrado da maior utilidade neste domínio.

JM | O 9º Congresso Português do AVC está aí à porta… Quais as grandes novidades desta edição?

CL | O 9º Congresso Português do AVC mantendo o modelo instituído desde a sua primeira edição, que permite “que todos aproveitem com tudo”, constitui uma das actividades fundamentais para o progresso Cientifico na área da doença vascular cerebral, sendo o Grande Fórum Nacional da doença vascular cerebral.

Reconhecido a nível Internacional, merece o Patrocínio científico da WSO e da ESO para além da Ordem dos Médicos Portugueses.

Tanto a WSO como a ESO passaram a referir nos acontecimentos científicos para 2015 o Congresso Português do AVC. Esta é uma boa novidade, compensadora do esforço despendido pela sua comissão organizadora na elaboração de um programa científico que revela competência, que se traduz na escolha dos temas de maior actualidade.

Não é fácil distinguir qualquer peça de tão excelente Congresso, citando a Sessão Conjunta com a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, como merecendo referência, à presença de sete convidados estrangeiros da maior craveira científica, que em conjunto com os convidados nacionais contribuem para uma valorização científica do congresso, que assim aborda o estado da arte nos aspectos da prevenção e tratamento da doença vascular cerebral.

JM | Também teremos inovação terapêutica?

CL | Mantém-se vivo o interesse pelos novos anticoagulantes orais, sendo de referir o tratamento da dislipidémia mista como tema em destaque na área da inovação terapêutica.

Terminaria destacando a grande actividade que a SPAVC vem desenvolvendo no combate à principal causa de mortalidade e incapacidade em Portugal, constituindo-se no Grande Referencial Nacional no que diz respeito à doença vascular cerebral, em que o AVC se insere.

Estamos certos da nossa competência científica, mas somos invadidos por uma preocupação que convém ainda salientar para além das referências já feitas.

Se a população, no seu todo, não prestar a devida atenção e não puser em prática o tanto que lhes é proporcionado, teremos grande dificuldade em conseguir o objectivo primeiro e último de todo o nosso trabalho: vencer a batalha contra o AVC.

JM | O que mais destacaria?

CL | Mesmo a terminar, uma excelente notícia: durante um ano (a começar no Congresso Português do AVC), a SPAVC em conjunto com a S-Consulting irá desenvolver uma Campanha denominada “Eu Não Arrisco”, muito bem concebidae destinada à sensibilização da população para o problema do AVC. Depositamos grande esperança nos seus resultados.

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Carlos_Ramalhao

Pesem embora muitos dos factores de risco para ambas as doenças serem os mesmos, a verdade é que de acordo com os últimos dados da OCDE, Portugal apresenta resultados muito maus no que toca à prevalência de acidentes vasculares cerebrais… E a segunda melhor posição no que se refere à doença coronária isquémica, na União Europeia… Como se poderá explicar esta aparente “contradição”? Carlos Ramalhão, Presidente das comissões científica e organizadora das Jornadas de actualização cardiológica do norte para Medicina Geral e Familiar, que decorreram de 21 a 23 de Janeiro, no Porto, aponta algumas razões. Desde logo, afirma, é preciso dizer que “a prevalência de morte por AVC relativamente à doença coronária não se verifica só em Portugal. De facto, embora em menor grau, Grécia e Itália e Luxemburgo apresentam valores também diferentes. Por outro lado, não existem diferenças nas duas situações nos países de Leste”. Segundo o especialista há, no entanto, factores que podem explicar as diferenças registadas entre nós: por exemplo, “existem mais alertas quanto à doença coronária do que relativamente à doença vascular cerebral (AVC); os meios de diagnóstico e tratamento precoce da doença coronária são mais eficazes e sofisticados (nomeadamente os avanços na cardiologia de intervenção precoce). Basta comparar o número de unidades de cuidados intensivos coronários com as unidades para AVC”. Segundo Carlos Ramalhão, os meios usados para prevenir e tratar o AVC – pese o avanço enorme que se tem verificado nesta área – foram durante vários anos “esquecidos” e os factores de risco insuficientemente tratados.

Mas há mais razões que poderão contribuir para uma eventual “distorção” dos números, como o hábito de rotular muitas mortes de causa desconhecida como acidente vascular cerebral. “É natural que nos números do relatório da OCDE ainda tenha influência um facto que se verificou no século passado e que infelizmente ainda hoje se verifica: toda a morte de causa desconhecida era e é em Portugal classificada de AVC. Até porque, explica o professor catedrático, habitualmente se verifica de noite e a maior parte das vezes não tem pródromos ao contrário da doença coronária, que ou já é conhecida ou apresenta sintomas prévios como angina de peito ou enfarte do miocárdio prévio”.

É preciso fazer mais ao nível da prevenção primária

Da análise dos dados resulta evidente que a prevenção primária – pelo menos no caso do AVC revelou-se ineficaz. Carlos Ramalhão concorda.“Infelizmente nós, médicos, temos que fazer um “mea culpa” porque, muitas vezes, somos pressionados (falo em geral) para ver muitos doentes e não temos tempo para fazer uma boa educação e promoção da saúde e prevenção da doença. Dois exemplos muito simples: os alimentos tem a quantidade de sal necessária ao organismo (não ao sal na confecção, não ao saleiro na mesa); a hipertensão arterial, embora muitas vezes medicada com fármacos não está a maior parte das vezes controlada. Como a HTA muitos outros factores de risco não são suficiente e eficazmente tratados, como o consumo de tabaco, diabetes, obesidade, falta de exercício físico, entre outros”, refere.

Quando questionado sobre a necessidade de uma intervenção política (legislativa) mais activa, designadamente no que se refere à promoção e comércio de produtos nocivos, o Professor catedrático não hesita: “concordo a 100%!”. Mesmo quando confrontado com o facto de que desde que entrou em vigor, em 2008, a Lei que proíbe fumar em espaços públicos… Conseguiu-se reduzir em apenas 2% o número de fumadores: “Penso que ainda é cedo para se tirarem conclusões e é sobretudo necessário explicar às pessoas que conviveram com fumadores vários anos que tem 80% dos riscos dos fumadores”, contrapõe.

Para o Director da Clínica do Coração, no Porto, todos os profissionais de saúde devem ser protagonistas da prevenção primária, “cabendo a parte de ‘Leão’ aos colegas de MGF”. Isto se, sublinha, “lhes derem tempo para o fazer”.

São necessárias redes entre níveis de cuidados

As jornadas de Actualização Cardiológica do Norte Para MGF constituem um bom exemplo da cooperação entre especialidades. Ao nosso jornal, o fundador da iniciativa e seu actual presidente explica o porquê da aposta “desde o início que entendemos que o melhor modo de transmitir conhecimento é a partilha de dúvidas de uma forma aberta e sem medo. Precisamos de saber quais as dúvidas dos colegas de MGF e eles precisam de saber as nossas, para melhor interpretar os seus problemas”. É por essa razão que o programa das jornadas inclui a apresentação de casos clínicos e sessões de “Dúvidas de Corredor”, explica, para logo acrescentar: “é claro que para além disto temos que os pôr a par dos novos meios de diagnóstico e terapêuticas, mesmo que não comparticipados pelo Estado.

A interacção entre os especialistas dos cuidados de saúde primários e os serviços de cardiologia é hoje muito “muito melhor que há 26 anos!”, quando foram criadas as jornadas de actualização, reconhece Carlos Ramalhão, que ao nosso jornal salientou a disponibilidade e a cordialidade de relações que hoje marca a ligação entre os dois níveis de cuidados.

Os desafios do futuro

O envelhecimento cada vez mais acentuado da população portuguesa irá, necessariamente, influenciar novos modelos de prestação. São necessárias “mais unidades de cuidados continuados, apoiadas por médicos de todas as especialidades, ainda que nalguns casos tenha que ser sem honorários. Todos temos obrigação de cuidar da nossa 4ª idade”, defende Carlos Ramalhão, que denuncia o facto de os recursos humanos da Saúde, quer em número, quer em especialização, não terem conseguido acompanhar esta tendência demográfica civilizacional, “sobretudo pela concentração no Litoral. O interior está manifestamente em inferioridade, embora se tenham verificado já algumas melhorias”, destaca.

Vão ser necessários mais cardiologistas

Para o presidente da Comissão Organizadora das XXVI Jornadas de Actualização Cardiológica do Norte para MGF, são necessários mais especialistas para fazer face às necessidades crescentes que hoje se verificam. É preciso sangue novo: “é óbvio que não somos eternos e com o tempo perdemos qualidades”. É, pois, necessário, “renovar as especialidades, não só a Cardiologia, com mentes mais frescas, mais sabedoras” e também mais disponíveis e, sobretudo, mais dispersas pelo País”.

Capacidade formativa para um potencial aumento do número de internos não constitui problema: “quando há boa vontade tudo é possível. Lembro-me de em 1975 ter quinhentos alunos”… Sem perder de vista a necessidade de uma selecção criteriosa, de modo a “só deixar entrar em Medicina quem tivesse vocação”, conclui.

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AVC 1

Um projecto inovador de acompanhamento dos doentes com alta hospitalar pós-AVC vai “nascer” no Alentejo, numa iniciativa do Hospital do Espírito Santo de Évora (HESE) e do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Alentejo Central.

O projecto designa-se “Seguimento Integrado do Doente com AVC” e pretende optimizar a comunicação entre os Cuidados de Saúde Primários (CSP) e os hospitais para um melhor acompanhamento de todos os doentes com alta hospitalar após acidente vascular cerebral (AVC).

A directora executiva do ACES do Alentejo Central, Teresa Caldas, explicou à agência Lusa que a iniciativa, “pioneira a nível nacional”, está em preparação e, “se tudo correr bem”, vai ser implementada “a partir de Fevereiro” do próximo ano, numa primeira fase através de um projecto-piloto.

“Vamos arrancar com a Unidade de AVC do HESE e cinco unidades do nosso lado”, disse, referindo-se às Unidades de Saúde Familiar Lusitânia (Évora) e REMO (Reguengos de Monsaraz e Mourão) e às Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados de Estremoz, Mora e Vendas Novas.

A ideia, segundo Teresa Caldas, “é muito simples, mas pode fazer a diferença para o doente”, que “passa a ir aos sítios certos na altura certa”, permitindo atingir um dos objectivos principais do projecto que é “diminuir a recorrência por AVC”.

A directora do ACES explicou que, no Alentejo, “a hipertensão, a diabetes e a obesidade têm uma expressão muito forte” e existem “taxas muito altas de AVC e muitos internamentos” devido a este problema “no Hospital de Évora”.

“E percebemos que, quando tinham alta do hospital, perdíamos os doentes nesta passagem, ou seja, não havia uma comunicação eficaz entre uns cuidados e outros”, disse.

Segundo a clínica, “não era dada uma notícia de alta que permitisse aos cuidados de saúde primários retomarem rapidamente o doente a seu cargo para fazerem o controlo dos factores de risco, das questões ligadas à terapêutica ou das questões de reabilitação” destas situações pós-AVC.

O novo projecto quer eliminar esta “lacuna da referenciação e da comunicação” para contribuir para a existência de “menos recaídas e reinternamentos”, adoptando uma comunicação directa entre HESE e as unidades de saúde de cuidados primários.

“O HESE vai passar a dar, 24 horas antes, a notícia de alta do doente aos cuidados de saúde primários e nós vamos agendar uma primeira consulta pós-AVC logo na primeira quinzena depois da alta, informando o hospital”, afirmou.

Tal como até agora, o doente vai ser reavaliado no HESE, dois meses após a alta, mas a habitual consulta dos seis meses, caso essa avaliação do hospital assim o indique, pode passar a ser feita na unidade do ACES.

E, na área da reabilitação, o projecto prevê que o plano de intervenção proposto pelo Serviço de Fisiatria do HESE, igualmente envolvido na iniciativa, possa ser posto em prática “por fisioterapeutas do ACES”, sendo o doente avaliado numa consulta hospitalar aos três meses.

O projecto vai ser apresentado no IV Workshop de Boas Práticas de Governação, em Lisboa e os seus promotores esperam poder alargá-lo a outras áreas alentejanas e especialidades médicas, à medida que os resultados positivos forem sendo atingidos.

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quarta-feira, 26 novembro 2014 14:12

Risco de sofrer AVC é superior nas mulheres

CardosoDraTeresa

A coordenadora do Núcleo de Estudos da Doença Vascular Cerebral (NEDVC), Maria Teresa Cardoso, afirmou hoje que a mulher tem “um risco de acidente vascular cerebral (AVC) superior ao do homem”, defendendo a implementação de “estratégias preventivas adequadas”.

Essas estratégias, segundo a especialista, passam pelo “controlo da pressão arterial, detecção e tratamento dos casos de fibrilhação auricular e promoção de um estilo de vida saudável”.

Maria Teresa Cardoso falava a propósito do 15º Congresso do Núcleo de Estudos da Doença Vascular Cerebral da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, que decorrerá sexta-feira e sábado, no Porto, e que terá como tema central a prevenção do acidente vascular cerebral (AVC) na mulher.

“O AVC na mulher terá especial destaque devido ao grande impacto negativo na mulher e na sociedade”, sublinhou a especialista.

Ao longo da vida, “a mulher tem um risco de AVC superior ao do homem. O predomínio do acidente vascular cerebral nas mulheres é explicável, em parte, pelo envelhecimento da população e pela maior esperança de vida. As mulheres têm mais probabilidade de enviuvar e viverem sós antes do AVC e, assim, de serem institucionalizadas após a doença, tendo uma pior recuperação relativamente aos homens”, explicou a especialista.

A coordenadora do NEDVC acrescentou que “a mortalidade por AVC na mulher acima dos 75 anos é também superior à do homem. Em suma, as mulheres são as mais afectadas, particularmente em idades avançadas. É fundamental ter consciência desta realidade e implementar estratégias preventivas adequadas, incidindo especialmente no controlo da pressão arterial, na detecção e tratamento dos casos de fibrilhação auricular e na promoção de um estilo de vida saudável”.

Um ponto alto deste congresso será a atribuição do prémio “AVC e Investigação Clínica”, que consiste num estágio de três meses numa instituição em Oxford, Inglaterra, e o prémio “AVC e Investigação Básica”, um estágio de três meses em Santiago de Compostela, Espanha.

A coordenadora do NEDVC considera que “estes incentivos à investigação são fundamentais para um conhecimento aprofundado das especificidades do AVC na população portuguesa para uma uniformização de atitudes diagnósticas terapêuticas e de prevenção adaptadas à nossa realidade, para que possamos prevenir este flagelo, diagnosticar cada vez com maior rapidez e tratar com a máxima eficácia este problema que continua a matar 35 portugueses por dia”.

“A fibrilhação auricular e o seu tratamento com os novos anticoagulantes orais, a craniectomia descompressiva, o controlo da pressão arterial, a dissecção arterial e ateromatose do arco aórtico” serão temas em debate no encontro que reunirá cerca de 500 participantes.

O programa inclui ainda cursos dirigidos a temas específicos como o Tratamento na fase aguda do AVC (trombólise), Treino de Avaliação de Imagem no AVC e Genética no AVC.

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AVC 1

O número de mortes nos hospitais portugueses por enfarte do miocárdio e por AVC registou no ano passado o valor mais baixo dos últimos cinco anos, segundo um relatório hoje apresentado pela Direcção-geral da Saúde.

Em 2013 registaram-se 1.028 mortes por enfarte do miocárdio entre os 12.642 casos nos hospitais, quando no ano anterior tinham morrido 1.129 pessoas em 12.683 casos. Desde 2009, os óbitos ocorridos no ano passado por enfarte foram os mais baixos.

Quanto aos acidentes vasculares cerebrais (AVC) isquémicos e oclusão das artérias cerebrais, 2013 foi também o ano com menos mortes (2.317) dos últimos cinco analisados no relatório “Doenças Cérebro-Cardiovasculares em Números 2014”.

Desde 2009, o número de mortes por AVC isquémico tem-se sempre mantido acima dos 2.300 casos, tendo chegado a registar-se mais de 2.500 mortos num ano.

Relativamente às angioplastias primárias, considerado o tratamento mais adequado para doentes com enfarte do miocárdio, deu-se uma subida de 36% na realização deste procedimento entre 2009 e 2013.

Segundo os especialistas, a quantidade de angioplastia primária é um indicador dos doentes tratados: nos países com uma elevada taxa de angioplastia primária, o número de pacientes não tratados é baixo. Pelo contrário, em países com um baixo uso deste procedimento, o número de pacientes não tratados é alto.

O relatório da DGS analisa ainda a actividade das vias verdes do AVC e coronária (um acesso directo destes doentes aos serviços de saúde para acelerar a prestação de cuidados), considerando que “não houve qualquer alteração na tendência de crescimento dos indicadores”.

Mortalidade precoce por doenças cérebro e cardiovasculares desce em Portugal

A mortalidade prematura em Portugal por doenças do aparelho circulatório desceu cerca de 19% em quatro anos, tendo reduzido igualmente a mortalidade precoce por doenças cerebrovasculares.

A mortalidade precoce é avaliada pelos “anos potenciais de vida perdidos” que corresponde ao número de anos que, teoricamente, uma população deixa de viver por morte prematura, antes dos 70 anos.

Segundo o relatório, entre 2008 e 2012 houve uma redução de 18,91% nos anos potenciais de vida perdidos por doença do aparelho circulatório.

No mesmo período, reduziu-se em 15,17% a mortalidade prematura por doenças cerebrovasculares, passando de 15.707 anos potencialmente perdidos em 2008 para 13.324 em 2012.

A doença isquémica do coração – como o enfarte agudo do miocárdio – surge com maior expressão nesta redução da morte prematura, com uma descida de 20,9% entre 2008 e 2012.

“A notável evolução verificada nos últimos cinco anos, traduzindo um manifesto atraso da ocorrência de eventos fatais para idades mais avançadas, assume uma maior expressão na doença isquémica do coração e no sexo feminino”, realça o relatório da Direcção-geral da Saúde (DGS).

Na lista das doenças com maior número de anos potenciais de vida perdidos, as doenças cerebrovasculares e as doenças isquémicas do coração ocupam os quinto e sexto lugares, numa tabela liderada pelas doenças atribuíveis ao álcool.

De acordo com o documento, a taxa de mortalidade por doença cardiovascular tem descido desde 2008, apresentando uma redução de 19% no intervalo de quatro anos analisado, uma diminuição semelhante à da taxa de mortalidade por doenças isquémicas do coração.

As taxas de mortalidade por enfarte agudo do miocárdio baixaram também 19,38% entre 2008 e 2012.

“Mantiveram-se todas as tendências já referenciadas anteriormente, com um decréscimo progressivo e notório das doenças do aparelho circulatório como causas de morte na população portuguesa, embora mantendo a sua posição de destaque”, refere o relatório.

A DGS indica ainda que, dentro das doenças do aparelho circulatório, a mortalidade por doenças cerebrovasculares continua superior à das doenças isquémicas do coração, “uma proporção inversa da verificada na maioria dos países europeus e mesmo mediterrânicos”.

Esta realidade já tinha sido verificada no relatório do ano passado, com as razões para esta tendência a continuarem a não estar esclarecidas.

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O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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