Vítor Rodrigues: “O médico deve sempre conciliar as vertentes científica e humanista na prestação de cuidados ao doente oncológico”
DATA
15/02/2019 11:51:18
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Jornal Médico
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Vítor Rodrigues: “O médico deve sempre conciliar as vertentes científica e humanista na prestação de cuidados ao doente oncológico”

O novo presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), Vítor Rodrigues, recebeu o Jornal Médico na sede da estrutura, em Lisboa, para uma das primeiras entrevistas desde que foi eleito. Nos próximos três anos de mandato, o especialista em Saúde Pública e Epidemiologia promete empenhar-se no apoio aos doentes oncológicos em regime de ambulatório, dentro das suas próprias casas, quer seja através do fornecimento de dispositivos – como camas articuladas –, quer seja através da ajuda aos seus cuidadores. Ao nosso jornal, o responsável destacou o aumento “brutal” da sobrevida no plano da doença oncológica e deixou uma mensagem aos colegas médicos: “Continuem sempre a procurar adequar a vertente científica com a vertente humanista!”.

JORNAL MÉDICO (JM) | Com quase 80 anos de história, a LPCC tem acompanhado a evolução na forma como a sociedade portuguesa encara o cancro, uma doença que, na realidade, são várias. Quais foram as mudanças mais relevantes neste percurso?

VÍTOR RODRIGUES (VR) | De facto, não existe propriamente um cancro, mas sim uma entidade com imensas localizações e características de vária ordem.

A forma como a doença oncológica é encarada pela sociedade sofreu uma mudança de paradigma, fruto do aumento brutal da sobrevivência. E sublinho “brutal”! Assim sendo, o cancro tornou-se (na maioria dos casos) numa doença crónica e é cada vez mais visto como tal. Falar-se abertamente sobre o tema é outra das mudanças positivas a destacar, com a utilização da palavra “cancro” a sobrepor-se cada vez mais à da expressão “doença prolongada”, o que traz vantagens inegáveis: que as pessoas recorram precocemente ao médico, em caso de sinais ou sintomas da doença, maior adesão aos tratamentos e um melhor enquadramento da doença (nomeadamente, social e emocional), quer para os doentes, quer para os familiares/cuidadores.

Esta mudança de paradigma tem permitido potenciar a awarness em torno do tema, através da organização das mais variadas campanhas e ações de promoção de estilos de vida saudáveis, ou seja, ações no âmbito da prevenção primária. Por outro lado, fomenta uma maior adesão a atitudes preventivas secundárias, seja em termos de diagnóstico precoce ou de rastreios oncológicos (cancro da mama, colo do útero, colorretal).

Outra conquista ao longo dos anos foi a aceitação crescente da importância do controlo da dor no cancro. Há 40 anos, a maioria dos profissionais de saúde portugueses receberam muito mal um livro da Organização Mundial de Saúde (OMS) intitulado “O controlo da dor em Oncologia”. Talvez por estarem muito focados na questão da sobrevivência… Atualmente, os ganhos em qualidade de vida são encarados como tão ou mais importantes quanto os ganhos em sobrevida.

JM | Sabemos que “informação é poder” e, nesse sentido, a Liga tem tido um papel fundamental…

VR | A Liga e outras instituições. Há muitos anos que trabalhamos naquilo que, até agora, se chamava educação para a saúde e que agora se chama educação por pares. Entrei para a liga em 1975, para fazer educação para a saúde, as chamadas campanhas de prevenção em educação por pares, tinha na altura 17 ou 18 anos. Temos feito uma grande aposta a este nível e grande parte do sucesso tem que ver com o afastamento dos fatores de risco, através da promoção da literacia em saúde. No fundo, dar informação às pessoas der modo a capacitá-las e dar-lhes recursos que permitam a consciencialização. Bem sei que informação não é sabedoria, mas sem informação não há sabedoria. 

 

JM | A informação é o conhecimento, a sabedoria é saber interpretar e aplicar esse conhecimento…

VR | Exatamente… E o papel da Liga tem muito que ver com a ajuda nessa transformação. A LPCC tem quatro pilares fundamentais: o apoio ao doente e à família, que é talvez o mais importante; a prevenção primária, onde entra a educação para a saúde e a literacia em saúde; a prevenção secundária, onde a Liga tem tido um papel crucial, no que concerne ao rastreio de cancro da mama; e a formação e investigação.

Isto é feito com uma estrutura profissional – mas, também com uma forte componente de voluntariado – e através de uma atuação regional. É nos encontros regionais que temos mais noção das necessidades sentidas localmente, no terreno. A partir daí procuramos coordenar e harmonizar a mensagem que a Liga quer comunicar a nível nacional. É o que temos feito desde o início, atualmente com recurso a redes sociais, que nos permitem potenciar essa comunicação.

JM | A presidência da Liga “perde” um oncologista e “ganha” um homem da Saúde Pública e da Epidemiologia. Que mais-valias podem advir daí?

VR | Penso que mais importante do que a pessoa que está no lugar de presidente é a direção. Eventualmente, talvez retire um pouco o foco da pessoa/caso, colocando-o mais nas caraterísticas populacionais do grupo, no que à doença oncológica diz respeito. Uma diferença “artificial”, na medida em que não são visões incompatíveis, mas antes complementares.

JM | Afirma ter como bandeira do seu mandato o apoio ao cuidador e o reforço dos cuidados ambulatórios e domiciliários ao doente oncológico. O que está pensado para passar da intenção à ação a este nível?

VR| Esse é, de facto, um dos objetivos da nova direção. É importante ajudar os doentes dentro de suas casas, dando-lhes o que lhes faz falta, como camas articuladas e apoiar o cuidador, para que possa estar livre um dia das suas tarefas, que podem ser estafantes.

Não nos queremos sobrepor a outros contributos existentes, mas sim ir ao encontro do que ainda é necessidade daquele doente em particular e do seu cuidador. Tratar de uma pessoa doente durante 24 horas por dia é esgotante. Quem passa ou já passou por isso, sabe bem.

Tendo em vista esse objetivo, a LPCC tenciona fornecer formação específica a voluntários para que estes possam estar bem preparados. É preciso formar quem auxilie, pois não se pode invadir o espaço privado de alguém doente e vulnerável nessa sua condição.

JM | O médico de família tem aqui um papel crucial…

VR | O médico de família é crucial, na medida em que o doente oncológico é, atualmente, um doente crónico e necessita de um acompanhamento multidisciplinar, que extravasa os cuidados hospitalares.

Os cuidados de saúde primários (CSP) são a base do sistema de saúde e o médico de família pode ter um papel de identificador dessas necessidades específicas e orientador do doente oncológico no sistema de saúde. Os cuidados hospitalares são fundamentais, mas, para mim, a base continua a ser a saúde e não a doença.

JM | Essa é a sua “costela” da Saúde Pública…

VR | Exatamente.

JM | No plano da doença oncológica, como é que a Liga vê o recente retrocesso legislativo face à criação do estatuto do cuidador?

VR | Sobre esse assunto dou-lhe a minha opinião pessoa e não a da Liga: acredito que é uma situação que muito rapidamente se vai consensualizar. Tenho a certeza que toda a sociedade está a olhar para este problema, mas, eventualmente, fá-lo de formas diferentes e é uma questão de tempo até se chegar a um consenso e a um compromisso a este nível. A ser chamada para dar o seu contributo, a Liga responderá de maneira afirmativa e positiva.

JM | Tendo em conta a realidade portuguesa e a sua área de formação específica – Epidemiologia –, como encara a implementação do Registo Oncológico Nacional (RON)?

VR | O RON tem que fornecer informação à sociedade, permitindo uma definição e seguimento de políticas de saúde e estando à disposição – dentro de regras específicas – dos investigadores, para que estes possam continuar a estudar a doença oncológica a nível nacional.

JM | Como especialista em Saúde Pública sabe que a noção de risco compromete muitas vezes a adoção dos comportamentos preventivos. Mesmo no caso do cancro, em que ouvimos as estatísticas falarem de uma incidência de dois em cada três pessoas, a mensagem não passa…

VR| Penso que, a esse nível, estamos “taco a taco” com o resto da Europa. É extremamente difícil mudar, quando o que está em jogo são hábitos de vida, atitudes, comportamentos e crenças. Acredito, porém, que o caminho não passa por uma imposição de comportamentos ou pela proibição. Acho que a informação baseada em evidência deve estar disponível para as pessoas poderem fazer escolhas conscientes e informadas. E mais uma vez, esta é a minha convicção pessoal.

JM | O que pensa, por exemplo, das medidas de aumento dos impostos/taxas sobre o tabaco ou os produtos com açúcar?

VR | Ainda que haja evidência dos ganhos em saúde, pergunto-me, à cabeça, se o objetivo final dessas medidas é diminuir o risco ou encontrar mais dinheiro para o Orçamento de Estado…

Acho que para além da implementação das medidas, temos que avaliá-las. Nós, portugueses, temos pouco o costume de avaliar as medidas que se vão implementando no terreno… Não tenho dúvidas de que aumentar os impostos sobre o tabaco é uma das mais importantes medidas antitabágicas. Mas, deve ser acompanhada por uma série de outras, tais como aumentar o acesso a consultas de cessação tabágica ou comparticipar os fármacos que ajudam os fumadores neste processo de desabituação tabágica.

JM | O diagnóstico precoce continua a ser o santo graal na doença oncológica? Como se chega lá?

VR | A União Europeia (UE) recomenda três tipos de rastreio: cancro da mama, cancro do colo do útero e cancro colorretal. Em Portugal, a situação é completamente diferente nos três, isto é, apresenta níveis distintos de desenvolvimento em cada um deles.

O rastreio do cancro da mama, juntamente com o do colo do útero, é em Portugal um rastreio muito centralizado, bem implementado e controlado, no sentido da sua execução, qualidade e monotorização.

JM | Podemos afirmar que o sucesso nacional no que concerne aos rastreios dos cancros da mama e do colo do útero é, em boa parte, mérito da Liga?

VR | Podemos dizer que sim… Mas, o sucesso advém do facto de ser um processo muito ligado aos CSP, o que considero ser um fator essencial.

JM | Do outro lado, o dos desafios por cumprir, está o rastreio do cancro colorretal…

VR | A implementação do rastreio do cancro colorretal tem sido, efetivamente, um desafio, por falta de recursos e problemas organizativos. Não temos gastrenterologistas suficientes para a realização de colonoscopias, que idealmente devem ser efetuadas imediatamente a seguir à pesquisa de sangue oculto nas fezes.

JM | Esse rastreio falha por este exame ser mais específico? Por ter que ser efetuado por um gastrenterologista?

VR | Sim. E é lamentável que uma sociedade não se consiga organizar em termos de cuidados de saúde para ter recursos que deem resposta àquilo que é o direito das populações: o direito à possibilidade técnica de fazer um diagnóstico mais precoce, que já se provou eficaz. E aqui entramos na questão da iniquidade em Saúde.

JM | Há iniquidade no acesso aos cuidados oncológicos, em Portugal? Prevalecem assimetrias regionais a este nível?

VR | Diria que há e haverá sempre desigualdades geográficas. Porém, em comparação com outros países, Portugal não fica nada atrás no que toca ao diagnóstico e ao tratamento. As eventuais desigualdades têm que ver, novamente, com problemas de organização, capacidade económica e de resposta do próprio Serviço Nacional de Saúde (SNS) na agilização de determinado tipo de processos. Por aquilo que vejo, até pelos próprios estudos de sobrevivência que têm sido feitos, não nos comparamos mal com a maior parte dos países europeus.

Na vertente não menos importante da humanização dos cuidados, temos três excelentes instituições em Portugal – os IPO – com uma ótima tradição de qualidade e humanização do diagnóstico e tratamento do doente oncológico.

 

JM | Qual o apoio que a Liga presta aos profissionais de saúde, nomeadamente médicos, que lidam diariamente com o doente oncológico? Como se reflete esse apoio na prática clínica?

VR | As equipas de saúde têm que identificar as necessidades sentidas no terreno pelos doentes e familiares/cuidadores têm, pedindo-nos a colaboração para as vertentes que não estão dependentes da sua atuação e do setor público. Ninguém melhor que as equipas de saúde para saber quais são as necessidades clínicas e sociais que os doentes apresentam. A Liga não quer substituir o sistema público, apenas quer ser complementar e, sobretudo, supletiva. Onde existirem falhas ou onde o Estado não consegue chegar, é aí que a Liga pode e deve intervir.

JM | O apoio à investigação insere-se neste âmbito?

VR | De uma maneira genérica, 10% do orçamento da Liga é para a área da investigação. Seja a fundamental, translacional ou clínica, o que interessa é que mais tarde ou mais cedo chegue à cabeceira do doente. Temos identificado centros de investigação e dentro das possibilidades e subsidiado alguns projetos de investigação nesses centros. Penso que o dinheiro que a sociedade nos dá deve servir também para esta vertente de investigação. Gostaríamos de aumentar a fatia dedicada à investigação, mas não podemos esquecer que o nosso core business é o apoio ao doente e familiar/cuidador, onde estão aproximadamente 50% dos nossos gastos em termos de orçamento.

JM | Tem-se conseguido dar mais anos à vida. E mais vida aos anos?

VR | O aumento em termos de sobrevida tem sido brutal, como já referi. Não podemos, contudo, ignorar, o facto de Portugal ser um dos países com pior qualidade de vida nos últimos anos de vida. No caso particular da doença oncológica, é imperativo aumentar a qualidade de vida dos doentes, em todas as fases da doença.

JM | Como tem sido a relação da LPCC com o poder político? Sente que a Liga é olhada pelo Estado como uma parceira?

VR | A experiência que temos tido é positiva e, na maior parte das circunstâncias, o poder político é recetivo ao que a LPCC tem para dizer. Sentimos que somos ouvidos e que temos alguma credibilidade e aceitação.

JM | Que mensagem final gostaria de dirigir aos médicos?

VR | Que continuem a desempenhar o papel fundamental, seja no sistema público ou privado, que têm desempenhado até aqui. Às vezes a sociedade não reconhece que o trabalho destes profissionais é absolutamente excecional. Cansam-se, preocupam-se, tentam melhorar o que podem melhorar, tentam ultrapassar determinado tipo de situações... A mensagem é que continuem sempre a procurar adequar a vertente científica com a vertente humanista.

 

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