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Rui Tavares-Bello: Desafios da inteligência artificial aplicada à Dermatologia
DATA
20/05/2019 10:47:29
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Jornal Médico
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Rui Tavares-Bello: Desafios da inteligência artificial aplicada à Dermatologia

Arranca já na próxima sexta-feira, dia 24, a Reunião da Primavera da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV), que este ano decorre na Curia, com um programa essencialmente focado na Venereologia e que procura refletir a complexidade da especialidade. Com o olhar posto no amanhã, o dermatologista do Hospital Lusíadas Lisboa, Rui Tavares-Bello, elenca os principais desafios da Medicina Digital e das novas tecnologias, nomeadamente no que concerne à utilização da inteligência artificial (IA) em Dermatovenereologia.

JORNAL MÉDICO (JM) | Como encara a relação entre Dermatologia e tecnologia, nomeadamente IA?

RUI TAVARES-BELLO (RTB) | A IA constitui apenas uma componente da designada Medicina Digital, que também inclui Big Data, Telemedicina e Robótica. Todas se articulam num novo “ecossistema digital” caracterizado pelas omnipresença, conetividade e partilha constantes, tsunamis de informação, customização, perfilometria e empoderamento do consumidor e superconvergência de dados.

Lembro que a Dermatologia, uma das mais antigas especialidades médicas autonomizadas do tronco comum da ciência médica, tem sido pioneira na inovação tecnológica, quer no domínio diagnóstico, quer terapêutico.

JM | Quais as vantagens no recurso à IA?

RTB | A IA – no contexto da Medicina Digital – tem, inerente, pressupostos que são relevantes: conetividade e atualização permanentes (rede integrada) e capacidade de armazenamento e processamento de dados e capacidade analítica ímpares. A análise e categorização diagnóstica de padrões de imagens médicas digitalizadas vem sendo objeto de análise em várias especialidades, tendo os algoritmos avançados de machine learning revelado também ser úteis, no plano estatístico, na teletriagem de tumores cutâneos. Diversos aspetos da conceção dos estudos e da própria natureza do ato clínico em Dermatologia levantam, no entanto, algumas reservas quanto à sua validade e adequação.

Cumpre esclarecer que no plano do mero exercício clínico dermatológico – diagnosticar, prognosticar e tratar – a IA suscita dúvidas quanto à sua adequação técnica. Em Dermatologia, o diagnóstico não é apenas visual, é plurissensorial; a anamnese é muitas vezes imprecisa e complexa, dependente de aspetos de comunicação não-verbal e de surpreendentes simbolismos verbais; o raciocínio etiopatogénico – ausente na IA, a qual privilegia a associação meramente correlativa – é muitas vezes determinante; o contexto clínico é relevante (fenótipo foto-oncológico, p. ex); a avaliação psicológica é imperativa nos dermopatas para uma efetiva relação médico-doente.

Finalmente e para compor o ramalhete, saliente-se que muitas doenças dermatológicas carecem de critérios diagnósticos bem definidos e que fatores externos de natureza estocástica influem amiúde de forma decisiva na doença e, logo, no diagnóstico final.

JM | O que podemos esperar dos avanços neste domínio?

RTB | As expetativas suscitadas pelas alterações da Medicina Digital devem incluir o aumento e equidade do acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde; humanização efetiva dos cuidados de saúde; racionalização e desburocratização dos serviços; medicina customizada “à medida” do doente e em função do seu genótipo…

A informação de saúde deve ter em conta a nova realidade, deve ser formativa, mas não alarmista, e deve contribuir para um aumento real da literacia da saúde de todos, sem o que inevitavelmente falhará nos seus propósitos.

JM | Como devem os especialistas preparar-se para esta realidade futura?

RTB |  Deverão ter em conta que a Medicina Digital irá inevitavelmente ter repercussões sobre a relação médico-doente; irá trivializar o ato médico; irá empoderar o doente, munido de instrumentos simplificados de diagnóstico “do it yourself”; irá implicar alterações sobre o mercado de trabalho entre as profissões da saúde; irá alterar o panorama da responsabilidade cível médica, agora partilhada com os gigantes informáticos de produtos e serviços digitais de apoio à decisão médica (?); irá impor uma redefinição do patamar do leges artis; irá fazer repensar a formação e treino médicos, eventualmente otimizados pelas plataformas digitais…

 Esta entrevista pode ser lida na íntegra no Jornal da Reunião de Primavera SPDV 2019 e na edição impressa (n.º 98) do Jornal Médico.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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