Pedro Simas: “Subespecialização em Ortopedia é uma realidade da qual ainda estamos muito longe”
DATA
03/07/2019 10:52:15
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS


Pedro Simas: “Subespecialização em Ortopedia é uma realidade da qual ainda estamos muito longe”

O HIP G.I.N. - Hip Global Issue Network, que se realizará nos dias 11 e 12 de outubro, na Clínica CUF Almada, sob organização da CUF Academic and Research Medical Center caracteriza-se por ser um encontro informal de especialistas dedicados ao tratamento da patologia da anca, onde um dos principais objetivos é desafiar os participantes a refletir sobre os novos desafios no tratamento da patologia. O Jornal Médico falou com Pedro Simas, Chairman do evento e especialista em Ortopedia e Traumatologia, sobre os temas em destaque.

JORNAL MÉDICO (JM) | Quais os principais objetivos da realização da HIP G.I.N. - Hip Global Issue Network e como surgiu o conceito?

PEDRO SIMAS (PS) | O conceito surgiu há algum tempo sobretudo a partir de uma insatisfação com o formato geral dos congressos, jornadas e encontros. Cada vez em maior número, cada vez mais impessoais, cada vez mais teóricos e distantes da prática clínica do dia-a-dia e cada vez mais longe das dificuldades, complicações e insucessos que nós consideramos fundamentais para o crescimento de um cirurgião da anca.

O modelo clássico de congresso que nós apelidamos de “anatomia, exame objetivo, radiologia e tratamento” transporta-nos para um universo teórico que facilmente encontramos nos livros de texto e afasta-nos da realidade prática do consultório e hospital. Daí que o objetivo principal deste encontro é aquilo que gostamos de dizer “chamá-lo à primeira pessoa”, “como eu faço”, “como eu decido”, “que dificuldades tenho” e sobretudo colocar as pessoas interessadas na área num ambiente informal e bem-disposto para discutir casos da prática clínica diária e não só os sucessos. É daí que surge também o nome HIP GIN, para dar esse cunho informal na discussão da patologia da anca, criando uma “rede”, com opiniões de vários pontos do planeta centrada também na lusofonia!

JM | O que é que os inscritos podem esperar da sua participação neste evento?

PS | Quem participar, primeiro deve ter interesse na patologia da anca. A Ortopedia mudou nas últimas décadas e o caminho da subespecialização é um caminho sem retorno. Em primeiro lugar porque os doentes assim o exigem e em segundo porque deve ser uma exigência nossa oferecer ao doente nada menos do que a melhor solução possível. E este compromisso não é fácil de manter com a evolução do conhecimento e da complexidade dos meios de tratamento.

Como tal, e tendo em conta o principal objetivo do encontro, os inscritos vão encontrar um ambiente informal onde podem aumentar os seus conhecimentos no diagnóstico e tratamento das doenças da anca e partilhar as decisões, dúvidas e opções de tratamento. Vão encontrar um evento que quer privilegiar a troca de experiências e discussão de casos clínicos da prática clínica diária.

JM | Quais serão os principais temas a ser discutidos? 

PS | Outro dos objetivos que queremos privilegiar neste evento é o tempo que cada palestrante tem para a sua apresentação e o tempo, que para nós é sagrado, dedicado à discussão. 

Como é habitual nos demais encontros procura-se abarcar o máximo de temas possíveis e como tal as apresentações são feitas em contrarrelógio e invariavelmente o tempo de discussão é sacrificado. Sendo assim tentámos elaborar um programa que respeitasse estes princípios e mesmo assim focar os principais temas da área. Nós diríamos que os principais temas e de acordo com o programa serão: os limites da cirurgia conservadora, novas abordagens nas próteses primárias, complicações do trauma pélvico e revisão de próteses - “o que aprendemos nos últimos 20 anos”.

JM | Uma das particularidades deste evento é a elevada componente prática. Qual é a importância para os profissionais de saúde da partilha de experiências e discussão de casos?

PS | Como já foi referido anteriormente os profissionais de saúde estão sedentos de eventos que se aproximem da realidade e que os aproximem de uma ciência que eles possam pôr em prática na sua realidade. Ou seja, a apresentação de uma qualquer técnica francamente dependente de quem a realiza e dependente do ambiente em que é realizada para além do interesse teórico tem pouco ou nenhum interesse para a prática clínica diária e para aquele doente “comum” que nos procura com uma dor na anca.

A discussão de casos permite duas coisas fundamentais na nossa opinião. Primeiro, mais do que a partilha de sucessos que apesar de ser importante não nos deixa evoluir, permite partilhar e discutir dúvidas, incertezas e receios. E segundo dá-nos uma sensação de familiaridade e realidade pois ao ver um caso clínico na maioria das vezes sentimos que “já vimos um doente assim”, ou “já tivemos um caso assim”, “como é que decidi na altura?”, “podia ter feito diferente?”. E é a estas dúvidas e a estas questões, a que estamos expostos no dia-a-dia, que nos interessa encontrar resposta.

JM | O evento conta com a presença de vários especialistas reconhecidos internacionalmente, qual é a importância da junção de especialistas internacionais e portugueses num só local?

PS | A resposta fácil e estereotipada a esta questão é a “partilha de experiências e contacto com outra realidade e outra forma de trabalhar”, mas neste caso particular o motivo é diferente e o serem ou não reconhecidos internacionalmente tem pouco interesse, são cirurgiões da anca! Especialistas da anca! Isso sim é importante para o HIP GIN!

Ao longo do nosso percurso e da nossa formação fomos conhecendo pessoas que de uma forma ou de outra foram importantes nesse percurso e curiosamente graças às novas tecnologias e redes sociais foi possível manter este contacto e de um grupo de discussão online de patologia da anca nasceu um convite para estarmos presentes num evento em São Paulo o ano passado e aí surgiram as primeiras ideias para o nascimento do HIP GIN. 

Mais do que convidados internacionais são responsáveis pela génese deste evento cujo objetivo é manter de 2 em 2 anos em Portugal em alternância com o Brasil. 

Para além da inestimável colaboração científica a importância da junção de especialistas internacionais e portugueses é extremamente benéfica uma vez que a organização e a subespecialização em Ortopedia é uma realidade da qual ainda estamos muito longe em Portugal. 

Temos muito a aprender com os nossos convidados em termos de organização, diferenciação e subespecialização clínica, gestão cirúrgica, gestão de redes sociais e marketing médico cada vez mais importantes na prática clínica diária e que em Portugal ainda são assuntos estranhos e distantes do dia-a-dia.

Por tudo isto aproveitamos para convidar todos os interessados e que se identifiquem com estas preocupações a estarem presentes neste evento e a participar connosco neste primeiro HIP GIN.

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

Mais lidas