Eleonora Bunsow: “A sepsis não acontece só aos outros”
DATA
16/09/2019 11:54:29
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Jornal Médico
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Eleonora Bunsow: “A sepsis não acontece só aos outros”
O Jornal Médico assinala o Dia Mundial da Sepsis com uma entrevista à Medical Advisor da bioMérieux Ibéria, Eleonora Bunsow, que lembra que a apresentação variada do doente faz da deteção precoce da sepsis um desafio para o médico.

JORNAL MÉDICO (JM) | Qual o impacto da sepsis a nível mundial e qual o papel da BioMerieux, enquanto empresa com soluções na área da Microbiologia, no sentido de aumentar a awareness em torno deste problema?

ELEONORA BUNSOW (EB) | A incidência global da sepsis é de 27 a 30 milhões de casos ao ano. Entre seis a nove milhões de doentes morrem anualmente, em todo o mundo, devido a sepsis (aproximadamente uma morte a cada quatro segundos). Nos últimos dez anos, o número de doentes duplicou e a evidência mostra que a incidência da sepsis vai continuar a crescer.

A 13 de setembro assinala-se o Dia Mundial da Sepsis, um importante evento mundial que tem como objetivo chamar a atenção para uma doença que pode ser fatal. Na bioMérieux, associamo-nos à Global Sepsis Alliance e, através de ações e iniciativas a nível local, procuramos aumentar o conhecimento das populações sobre este problema e alertar para as consequências graves da sepsis.

JM | Quais são as novidades em termos de diagnóstico microbiológico na área da sepsis?  

EB | A bioMéreiux conta com uma tecnologia de ponta – o FilmArray – que permite fazer uma PCR múltipa no diagnóstico de bactérias, vírus e fungos, bem como das estirpes resistentes que mais frequentemente provocam sepsis, apresentando resultados, a partir de uma cultura positiva, num tempo recorde de uma hora. A vantagem é que o tempo de identificação do microrganismo é reduzido substancialmente (antes demorava de 48 a 72 horas) e, desta forma, o médico pode dirigir a terapêutica de forma mais eficaz e atempada.

JM | Qual a importância de se fazer um diagnóstico microbiológico do foco suspeito? Quais são as ferramentas de diagnóstico disponíveis nos hospitais portugueses para o diagnóstico etiológico de casos de sepsis?

EB | Como empresa líder no diagnóstico microbiológico, a bioMérieux oferece dentro do seu portefólio o sistema BACT/ALERT VIRTUO, que permite realizar culturas de forma automática e em tempo recorde. Este sistema está disponível em mais de 40 hospitais de toda a Península Ibérica, permitindo detetar o microrganismo responsável pela infeção em tempo clinicamente relevante, permitindo ao médico dirigir mais eficaz e adequadamente a terapêutica antimicrobiana e, consequentemente, melhorar o prognóstico do doente.

Além disso, a bioMérieux disponibiliza uma ampla gama de placas de cultura para crescimento e identificação dos microrganismos e, ainda, avaliação da sua sensibilidade antimicrobiana através de sistemas automáticos.

JM | Relativamente à abordagem da sepsis, é da opinião que o conjunto de medidas em caso de suspeita de sepsis deve ser feito na primeira hora ou que é possível levá-las a cabo num período mais alargado de tempo sem risco para o doente?

EB | A meu ver, o conjunto de medidas (bundle) face a um doente com suspeita de sepsis (1: medição dos níveis de lactato; 2: cultura; 3: administração empírica de terapêutica antimicrobiana) deve ser implementado na primeira hora, uma vez que os atrasos na sua aplicação estão associados a um aumento da mortalidade intra-hospitalar.

Obviamente que há casos em que é possível alargar este prazo e esperar mais tempo, mas por uma questão de uniformização de critérios na prestação de cuidados, o bundle deve ser realizado na primeira hora.

JM | Atualmente, já é possível hoje usar técnicas de big data no campo hospitalar na identificação precoce de sepsis?

EB | A apresentação do doente pode ser muito variada, o que torna a deteção precoce da sepsis num desafio para o médico. A utilização de diferentes tipos de algoritmos com base em big data pode conduzir a modelos matemáticos que nos permitam identificar de forma mais precisa um caso de sepsis, em comparação com a utilização apenas dos critérios clínicos.

JM | Qual é, no seu entender, a importância deste tipo de efemérides – Dia Mundial da Sepsis – enquanto chamada de atenção para este problema a nível nacional e global?

EB | Todas as iniciativas que possam de alguma forma aumentar a visibilidade, esclarecer e alertar sobre distintas patologias, quer os profissionais de Saúde, quer a população em geral, são naturalmente muito positivas. No caso concreto da sepsis, digo até que este tipo iniciativas são de extrema importância, uma vez que esta é muitas vezes uma ameaça silenciosa e com um impacto muito alto, tal como já referi anteriormente, mas cujo conhecimento geral é ainda muito baixo. Além disso, a sua incidência tem aumentado de forma preocupante nos últimos anos, ajudada também pelo aumento da resistência antimicrobiana que se tem registado na última década.

JM | Considera que a população conhece os sintomas e está alerta para este tipo de situações? O recente caso do ator português Ângelo Rodrigues pode ajudar em termos de awareness para o problema?

EB | Embora pouco conhecida, a sepsis é uma doença bastante prevalente. A grande maioria da população não está informada sobre os riscos associados à sepsis, nomeadamente a elevada taxa de mortalidade. Por isso mesmo, o caso do ator Ângelo Rodrigues – por ser uma pessoa famosa e, ainda mais, por ser jovem – pode ser uma forma de consciencializar as pessoas para a evidência de que a sepsis não acontece só aos outros, de que todos estamos em risco, independentemente da idade, sexo ou etnia.

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Editorial | Jornal Médico
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