Carlos Palos: “A resistência aos antimicrobianos tem consequências altamente impactantes a diversos níveis”
DATA
18/11/2019 17:18:08
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Jornal Médico
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Carlos Palos: “A resistência aos antimicrobianos tem consequências altamente impactantes a diversos níveis”

A propósito do Dia Europeu dos Antibióticos, o Jornal Médico falou com o especialista em Medicina Interna e Medicina Intensiva e Membro da Direção Nacional do PPCIRA da DGS, Carlos Palos, sobre o impacto da resistência aos antimicrobianos (RAM) e as principais ações que podem levar à mudança de paradigma quanto ao uso racional de antibióticos.

JORNAL MÉDICO (JM) | Como se caracteriza o impacto da RAM?

CARLOS PALOS (CP) | A resistência dos microrganismos aos antimicrobianos e, em particular, das bactérias aos antibióticos, insere-se no processo de seleção natural das espécies, pelo que a introdução de novos antibióticos não é a única, nem seguramente a mais importante, medida para combater o problema. Aliás, a resistência antibiótica existe desde há pelo menos 30 mil anos, como demonstrado no Permafrost, enquanto que a descoberta dos antibióticos por Fleming e a sua comercialização datam do início do Século XX.

A RAM tem consequências altamente impactantes a diversos níveis. Num panorama de resistências generalizadas, as doenças podem tornar-se intratáveis; as cirurgias, os transplantes e os tratamentos oncológicos podem deixar de se realizar. Os custos associados às infeções causadas por bactérias multirresistentes são enormes, contribuindo para a insustentabilidade dos prestadores, sistemas de saúde e seguradoras. A nível global, ficam seriamente comprometidos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável definidos pela OMS. Por todas estas razões, a resistência aos antimicrobianos está no top das ameaças para a Humanidade, a par das alterações climáticas ou de catástrofes naturais ou decorrentes de intervenções humanas. Segundo uma projeção, se não existir uma intervenção de forma a inverter a tendência atual, em 2050 morrerão cerca de 10 milhões de pessoas em todo o mundo por infeções causadas por bactérias resistentes.

JM | Como classifica a gravidade do problema ao nível nacional e europeu?

CP | Diversos documentos produzidos pela OCDE, nomeadamente o “Health at a Glance 2019” (acabado de publicar) e “Stemming  the Superbug Tide: Just a Few Dollars More” (publicado em novembro de 2018), assim como os dados do “ECDC 2016-17 Point prevalence survey of Healthcare Associated Infections and Antibiotic Consumption”, colocam Portugal numa situação extremamente desfavorável: no primeiro lugar no que concerne à prevalência de infeções associadas aos cuidados de saúde (IACS) – 8,1% versus 4,9%, na média da OCDE – e no sexto lugar no que toca à taxa de bactérias resistentes (37,9% versus 30,4% na média da OCDE). De acordo com o segundo estudo, Portugal é dos países que sofre maior impacto das infeções causadas por bactérias multirresistentes, nomeadamente no que diz respeito à mortalidade associada, custos diretos e prolongamento dos internamentos. Esse mesmo estudo mostra que Portugal é um dos países com maior retorno financeiro por cada euro adicional investido na área do controlo de infeção, nomeadamente nas campanhas para higienização das mãos pelos profissionais de saúde, melhoria da higienização das unidades de saúde e boas práticas de antimicrobial stewardship.

JM | Que ações pode a população adotar de forma a fomentar a utilização racional de antibióticos?

CP | Como cidadãos, todos somos responsáveis pela apropriada utilização dos antibióticos. Utilizar antibióticos sem indicação médica é seguramente uma má prática. As gripes, constipações e algumas queixas urinárias não estão associadas a infeções ou a infeções bacterianas, pelo que os antibióticos não são eficazes. Uma vez em uso, devem ser tomados de acordo com as instruções, não deixando por completar os dias indicados. Quando indicada, a vacinação contra a gripe ou a pneumonia pneumocócica, são igualmente importantes ao diminuir o número de situações que se podem complicar de infeções bacterianas, as quais necessitam tratamento por antibióticos. A lavagem das mãos é uma das medidas mais importantes para combater as infeções bacterianas e, por isso, a utilização de antibióticos. Lembre-se que nós temos tantas bactérias no nosso corpo como células humanas! De cada vez que tomamos um antibiótico as nossas bactérias são selecionadas: ficam as mais resistentes. Da próxima vez, o mesmo antibiótico já não vai atuar!

JM | Que papel têm os profissionais de saúde, em particular os médicos, no combate às RAM?

CP | Os profissionais de saúde envolvidos na prescrição, distribuição e administração dos antibióticos têm um papel fundamental no combate à resistência antimicrobiana: médicos, enfermeiros, farmacêuticos. Todos podem contribuir para a educação dos cidadãos, tornando-os mais conhecedores. Em particular, sendo os únicos com capacidade de prescrição de antibióticos em Portugal, os médicos são determinantes na decisão de iniciar um antibiótico e na adequação da prescrição, em termos da escolha e da duração do tratamento. Estudos internacionais mostram que quase metade dos antibióticos prescritos pelos médicos são inapropriados, contribuindo deste modo para a sua utilização indevida. Os farmacêuticos têm um papel importante, seja a nível das farmácias comunitárias, contribuindo para a não dispensação de antibióticos sem receita médica e para a educação dos cidadãos, seja a nível hospitalar, apoiando os médicos na otimização da antibioterapia. Finalmente, os enfermeiros têm um papel importante não só a nível da comunidade, mas cada vez mais nos hospitais, contribuindo, conjuntamente com os farmacêuticos, para a otimização dos tratamentos

 

JM |E quanto aos decisores políticos e institucionais, qual a sua responsabilidade neste contexto?

CP | Os responsáveis pelas políticas e pelas instituições estão encarregues pela criação de condições propícias à efetiva implementação das medidas preconizadas no âmbito da “One Health-Saúde Única”, que integra saúde humana, veterinária e ambiente.

No que diz respeito à componente humana, nos cuidados de saúde primários podem dotar-se os serviços de atendimento médico de equipamentos de análise/diagnóstico de biomarcadores point of care, que permitam perceber a probabilidade de uma infeção ser bacteriana e não viral e, deste modo, dar maior segurança aos médicos e aos doentes sobre a não necessidade de antibioterapia. Esta estratégia, adotada por vários países europeus, tem demonstrado excelentes resultados.

A nível hospitalar, a adoção de metodologias de diagnóstico rápido, permitindo excluir infeções bacterianas ou direcionar precocemente a antibioterapia, é decisiva na redução da prescrição de antibióticos, em particular os chamados antíbióticos “de reserva”, nos quais se observa em Portugal uma elevada taxa de prescrição. A implementação efetiva dos Programas de Apoio à Prescrição Antibiótica é fundamental neste mesmo sentido. A melhoria do “ratio” de profissionais (nomeadamente enfermeiros), da higienização hospitalar, a implementação de auditorias e inclusão de indicadores nas contratações são importantes. Finalmente, a nível central, a efetiva implementação de uma estrutura nacional de prevenção e controlo de infeção, sustentadora do Programa Nacional de Prevenção e Controlo de Infeção e Resistência aos Antimicrobianos, dito como prioritário, é crucial para que toda uma estrutura “em cascata” seja funcional e efetiva.

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Editorial | Rui Nogueira
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