Margarida Pinto: “Diagnóstico in vitro e Microbiologia rápida são aliados no combate às RAM”
DATA
18/11/2019 17:27:50
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Jornal Médico
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Margarida Pinto: “Diagnóstico in vitro e Microbiologia rápida são aliados no combate às RAM”

A microbiologista do Centro Hospitalar de Lisboa Central, Margarida Pinto, aborda o importante contributo do diagnóstico in vitro e da Microbiologia rápida na luta contra as resistências antimicrobianas (RAM), no que concerne nomeadamente à celeridade na identificação dos agentes infeciosos. A especialista sublinha, ainda, a utilidade de se obter a Concentração Inibitória Mínima (CIM) na seleção do antibiótico a administrar

JORNAL MÉDICO (JM) | Como é que o diagnóstico in vitro e em particular a Microbiologia Rápida podem contribuir para o combate às RAM?

MARGARIDA PINTO (MP)| A chamada Microbiologia Rápida é um conceito abrangente que vai desde simples testes de aglutinação – ou imunocromatografia para deteção de antigénios – até metodologias mais complexas, como a espectrometria de massa e técnicas de biologia molecular. Técnicas essas que permitem diagnosticar rapidamente – em alguns minutos – o(s) agente(s) etiológico(s) da infeção e, em alguns casos, determinados casos de RAM.

Esta rapidez na obtenção de resultados, para além do seu impacto clínico, contribui inequivocamente para o combate às RAM por várias razões: o conhecimento rápido dos agentes infeciosos em causa e, particularmente, da presença de genes de resistência antes da obtenção do antibiograma clássico, permite iniciar precocemente o tratamento mais adequado e específico, o que leva não só à redução na morbilidade e mortalidade mas, também, reduz a probabilidade da disseminação desses agentes; a deteção rápida e precoce de portadores de bactérias resistentes permite iniciar de imediato as medidas de controlo de infeção mais adequadas, evitando deste modo a disseminação desses microrganismos.

Outra vantagem da Microbiologia Rápida, muitas vezes esquecida, é que pode facilitar a exclusão de agentes infeciosos e, assim, poupar a utilização desnecessária de antimicrobianos – considerado um dos fatores responsáveis pela emergência das RAM.

 

JM | Qual a importância/utilidade de se obter a CIM, nomeadamente na seleção do antibiótico e respetiva toma?

MP | A CIM dá-nos a medida da suscetibilidade do microrganismo ao antibiótico. É esta medida que está na base dos antibiogramas ou testes de suscetibilidade aos antimicrobianos.

A maioria dos Laboratórios de Microbiologia Clínica usam, por rotina, sistemas automatizados para a realização dos antibiogramas. Nestes sistemas o valor da CIM, em muitos casos, não é verdadeiramente “quantificado” porque é testado apenas um número limitado de concentrações de antibiótico, geralmente à volta dos pontos de corte (breakpoints clínicos), de modo a obter as categorias “Sensível” se CIM <=X, “Resistente” se CIM >Y e “Intermédia” se CIM >X e <Y. Assim, quando é preciso obter uma CIM “quantificada”, o Laboratório de Microbiologia terá que recorrer a testes suplementares por métodos mais caros e mais laboriosos como a microdiluição em caldo ou o gradiente de CIM.

O aparecimento crescente de RAM e a escassez de novos antibióticos no mercado conduziram à necessidade de otimizar o uso dos antibióticos que ainda são eficazes. A otimização da terapêutica antibiótica passa não só pela seleção do antibiótico correto, mas também da dose, tipo de administração e duração do tratamento, ou seja, uma personalização ou individualização da terapêutica, particularmente em doentes críticos e/ou infeções com microrganismos multirresistentes.

Para a personalização da terapêutica antibiótica há que ter em conta os índices de farmacodinâmica, todos eles dependentes da CIM (Cmax/CIM, T>CIM, AUC/CIM) pelo que a importância da obtenção do valor “quantificado” da CIM é indiscutível.

O conhecimento da CIM “quantificada” também é importante para a utilização de alguns antibióticos que, embora com CIM já um pouco fora do breakpoint de “Sensibilidade”, ainda podem ser eficazes, se for possível aumentar a dose/tempo de exposição. O EUCAST propôs, recentemente, o conceito «Sensível-dose-dependente» para estes casos.

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