Manuel Carrageta faz balanço dos 40 anos da Fundação Portuguesa e Cardiologia
DATA
22/11/2019 10:33:31
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Jornal Médico
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Manuel Carrageta faz balanço dos 40 anos da Fundação Portuguesa e Cardiologia

“Há muito a fazer para reduzir o sofrimento e mortalidade causada por estas doenças”. As palavras são do presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia (FPC), Manuel Carrageta, no âmbito da celebração do 40º aniversário da Fundação. Em entrevista ao Jornal Médico, o especialista em cardiologia reflete sobre o passado e o presente, destacando a necessidade de estratégias futuras para combater as doenças cardiovasculares, a maior causa da mortalidade na população portuguesa.

Jornal Médico (JM) | Na comemoração dos 40 anos da FPC, é natural refletir sobre o trabalho desenvolvido pela fundação até agora. O balanço que faz é positivo?

Manuel Carrageta (MC) | A importância das doenças cardiovasculares é enorme, se tivermos em conta que em Portugal – só no último ano –, de um total de cerca de 110 mil óbitos, 35 mil mortes foram causadas por patologias cardiovasculares. A tendência dos últimos anos mostra uma redução significativa da mortalidade devida a acidentes vasculares cerebrais e, ainda que mais ligeira, dos enfartes do miocárdio. Pelo contrário, tem-se observado um aumento exponencial dos casos de insuficiência cardíaca e de fibrilhação auricular.

No seu conjunto, as doenças cardiovasculares são as patologias dominantes, sendo responsáveis por mais de um terço de toda a mortalidade da população portuguesa. Se temos uma boa posição na União Europeia relativamente aos enfartes do miocárdio, em parte graças às virtudes da Dieta Mediterrânica, em relação aos acidentes vasculares cerebrais estamos ainda mal colocados.

Estes bons resultados da prevenção e da terapêutica cardiológica têm assegurado um aumento da esperança de vida da população e para eles contribuíram os vários agentes no terreno, entre os quais a Fundação.

JM | Como compara a realidade portuguesa de hoje com aquela que esteve por base na origem da FPC, no contexto da cardiologia? 

MC | O panorama demográfico e epidemiológico mudou de maneira profunda. Em média, durante os últimos quarenta anos, a esperança de vida aumentou cerca de dois a três anos por cada década. No início do século XX a esperança de vida era de cerca de 50 anos e atualmente é de 79 para os homens e de 84 para as mulheres. Nós temos hoje dois milhões de portugueses com mais de 65 anos e apenas um milhão e meio com menos de 14 anos.

Estamos perante uma conquista incrível, o aumento da esperança de vida, em que nem tudo é positivo. Do nosso sucesso resultou também uma epidemia de doenças crónicas associadas ao envelhecimento. A população com idades mais avançadas levanta novos desafios, resultantes da elevada prevalência das síndromes e doenças geriátricas, muitas das quais não são ainda completamente compreendidas, mas muitas são, pelo menos, parcialmente preveníveis.

Nos anos setenta um dos maiores problemas era o excessivo consumo de sal, aliás muito superior ao consumo médio europeu – pensa-se que este erro alimentar seja, em grande parte, responsável pelo elevado número de AVCs que atinge a população portuguesa, em contraste com os restantes países europeus, incluindo a vizinha Espanha, que tem uma incidência bastante mais baixa. Podemos dizer que Portugal é o campeão europeu de consumo de sal e é simultaneamente o país com mais acidentes vasculares cerebrais, que constituem ainda a principal causa de morte e incapacidade da nossa população. Sem dúvida que as medidas e programas específicos que ajudaram os portugueses a reduzir o consumo de sal têm tido um impacto enorme numa maior esperança e qualidade de vida da nossa população.

Por outro lado, nos últimos anos tem-se desenvolvido uma nova ameaça para a população portuguesa, em particular para os jovens, em resultado do abandono progressivo da nossa tradicional dieta mediterrânica, que está a ser substituída pela denominada fast food, alimentação rica em calorias, gorduras saturadas, sal e açúcares, e pobre em fibra vegetal e micronutrientes essenciais. Por isso, não admira que estudos recentes mostrem que as crianças portuguesas são as segundas da Europa com mais excesso de peso e obesidade, o que nos leva a prever futuro agravamento da saúde da nossa população. São bem conhecidas as vantagens da atividade física regular, que pode passar por uma simples marcha diária, em passo rápido, e duração de cerca de meia hora.

JM | A dificuldade está a que nível e como se pode ultrapassá-la?

MC | A urbanização crescente da nossa sociedade, com um estilo de vida que leva ao sedentarismo e a uma alimentação demasiado rica em calorias, gordura animal e sal, tem conduzido a verdadeiras epidemias de obesidade, de hipertensão arterial, colesterol elevado e diabetes. São estes os indivíduos com maior risco de doença e morte cardiovascular.

É essencial adotar um estilo de vida saudável (alimentação mediterrânica, atividade física regular e não fumar) e, em caso de necessidade, assegurar o controlo dos fatores de risco cardiovasculares, nomeadamente a hipertensão arterial, o colesterol e a diabetes, com a ajuda médica, se necessário. É ainda necessário tomar medidas urbanísticas que tornem as cidades mais saudáveis, nomeadamente, com mais espaços verdes, e incentivem a atividade física, o que depende em grande medida da iniciativa de políticos e autarcas esclarecidos.

Para além disso, infelizmente, há muito a fazer para reduzir o sofrimento e mortalidade causada por estas doenças. Por exemplo, um aspeto essencial e esquecido é a educação escolar não dar relevo ao ensino de estilos de vida saudáveis para se evitar o problema, verdadeiramente importante, da obesidade infantil e das suas consequências nefastas. Tivemos em atenção que os portugueses são o povo da União Europeia que surge em todos os inquéritos como aquele que menos atividade física pratica, talvez porque ainda não compreendeu que existe uma forte relação que existe entre o exercício, a saúde e o bem-estar.

JM | Qual é a relação da FPC com os cidadãos em geral e com os profissionais de saúde especificamente?  

MC | A Fundação Portuguesa de Cardiologia é uma instituição de utilidade pública, de âmbito nacional, que visa fomentar a prevenção das doenças cardiovasculares e a promoção da saúde. A FPC foi constituída, por escritura notarial, no já distante dia 7 de novembro de 1979, tendo como subscritores o Professor Fernando de Pádua, o Professor Carlos Ribeiro e o Dr. Pena de Carvalho, ilustres cardiologistas.

A FPC vive do trabalho de voluntários e da generosidade de mecenas, quer particulares quer empresas, dado que sempre optou por não ter atividades comerciais, vivendo – numa palavra – de boas vontades.

Hoje a Fundação está estabelecida em todo o país, com delegações e núcleos, implantados não só no continente como nas regiões autónomas, com equipas de profissionais de saúde e personalidades não médicas de relevo da sociedade.

Com o seu trabalho benévolo conseguiu ao longo de mais de três décadas, conquistar o reconhecimento e a generosidade da população portuguesa, o que certamente foi tido em conta, tanto pela Presidência da República, como pelo Ministério da Saúde, ao concederem as mais altas distinções oficiais à Fundação.

JM | O envolvimento a nível internacional pode constituir novas oportunidades para a FPC? O futuro passa por uma resposta mais global?

MC | Sem dúvida que são necessárias respostas globais de acordo com os problemas de saúde de cada país e de cada região. Nos próximos anos vamos ter a grande vantagem de um português e amigo, o Prof. Fausto Pinto ir presidir a World Heart Federation. Além de um orgulho, acredito que a sua presidência empolgará todos os agentes no terreno.

JM | Quais serão os valores a orientar o percurso vindouro?

MC | Continuaremos a procurar identificar os maiores problemas de saúde cardiovascular em Portugal e dar o nosso contributo para uma maior sensibilização dos portugueses para a sua prevenção, quer a nível da população em geral, quer das autoridades.

Organizamos diversas ações de formação destinadas à população, nomeadamente através de cursos de alimentação saudável, de suporte básico de vida, de estilos de vida saudável, entre outros, bem como de cursos de formação para cozinheiros e gestores de refeitórios.

De uma forma reduzida posso dizer que a FPC começa por identificar problemas e de seguida avalia-os, nomeadamente, através de inquéritos. Quando estes mostram claramente que a população portuguesa tem um grande desconhecimento sobre determinado problema, decidimos enfrentá-lo. A partir daí organizamos uma campanha mediática, com spots de radio e televisão, elaboração e distribuição de folhetos, rastreios por todo o país e simpósios científicos destinados não só à população como aos profissionais de saúde.

No ano em que estamos a comemorar o quadragésimo aniversário da Fundação, estabelecemos um protocolo de afiliação com a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, presidida pelo Prof. Vítor Gil, uma medida saudada por ambas as partes. Nesse sentido as áreas de prevenção, de promoção da saúde e hábitos de vida saudáveis, assim como da reabilitação cardíaca, passam a ser objeto de uma estratégia comum que vai certamente combater com mais sucesso as doenças que são ainda a principal causa de morte em Portugal.

A partir de hoje, a FPC vai continuar, agora em conjunto com a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, a luta contra as doenças cardiovasculares que não só afetam como tiram, todos os anos, a vida a milhares de portugueses.

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Editorial | Rui Nogueira
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