Manuel Pedro Silva: “Há 27 anos que a última sexta-feira de janeiro é o momento de encontro da tribo das Unidades de Dor”
DATA
24/02/2020 12:35:46
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Jornal Médico
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Manuel Pedro Silva: “Há 27 anos que a última sexta-feira de janeiro é o momento de encontro da tribo das Unidades de Dor”

O médico anestesiologista do Centro Multidisciplinar Dor Beatriz Craveiro Lopes do Hospital Garcia de Orta (HGO) e presidente da ASTOR, Manuel Pedro Silva, conversou com o Jornal Médico à margem do 18.º Convénio ASTOR, que decorreu no passado dia 31 de janeiro, em Lisboa, elencando os desafios atuais na abordagem e tratamento da dor crónica a nível nacional.

JORNAL MÉDICO (JM) | O Convénio ASTOR chega na presente edição à maioridade e as Jornadas de Dor do HGO contam já 27 edições. O que nos conta a história destes dois eventos no contexto da abordagem da pessoa com dor crónica?

MANUEL PEDROSA SILVA (MPS) | A Jornadas de Dor do HGO tiveram a sua primeira edição em 1994. A determinado momento, entendemos que seria conveniente criar uma associação científica, formada pelos profissionais e que assumisse toda a organização científica e formativa. E assim nasceu a ASTOR, criada com o objetivo de promover esta reunião e de aplicar algum benefício que dela se obtivesse na formação dos profissionais e no equipamento da Unidade de Dor do HGO.

Desta forma, a ASTOR comparticipa a formação dos profissionais na área da Medicina da Dor (estágios, mestrados, pós-graduações…) – no caso dos enfermeiros a 100% e no caso dos médicos a 75% – bem como a aquisição de equipamentos indispensáveis para o diagnóstico e tratamento do doente com dor crónica (ecógrafos, radiofrequência, estimulação muscular de alta frequência), essenciais na diferenciação da Unidade e na melhoria dos serviços que prestamos aos nossos doentes.

JM | Estamos a falar de uma reunião que acolhe profissionais de saúde médicos e não médicos, bem como profissionais de áreas fora da esfera da Saúde e Medicina. A dor crónica exige esta abordagem multidisciplinar?

MPS | Desde o início que estas jornadas são abertas a várias especialidades médicas e a profissionais não médicos (da área da Saúde ou outras), na medida em que a dor exige uma abordagem multidisciplinar e multiprofissional e essa é a essência da abordagem especializada da dor.

Incontornáveis nas Unidades de Dor são, nomeadamente, os enfermeiros e os psicólogos clínicos. Neste sentido, o programa do 18.º Convénio ASTOR contempla a realização de um workshop sobre Competência em Dor na Carreira de Enfermagem, que conta com a participação de uma representante da Ordem dos Enfermeiros. Enquanto os médicos já têm uma competência nesta área, os enfermeiros estão atualmente a tentar avançar nessa mesma direção.

Realiza-se igualmente um workshop sobre Psicodrama e Musicoterapia e uma sessão dedicada ao humor, técnicas que já provaram ser bastante úteis na abordagem do doente com dor crónica.

Nestas Jornadas, as próprias comunicações livres e trabalhos a concurso não são restritas a médicos, tendo sempre uma procura por diferentes grupos profissionais, que se sentem representados, uma vez que o programa procura responder às diferentes necessidades formativas.

JM | O que espera que os participantes levem para as suas práticas profissionais?

MPS | Não sendo muitas as pessoas que em Portugal trabalham na área da dor, esta reunião tem a grande vantagem de promover o network entre elas. Há 27 anos que a última sexta-feira de janeiro é, por excelência, o momento de encontro da tribo das Unidades de Dor. Todos os anos, há praticamente 80% dos participantes que são os mesmos e 20% que são pessoas novas. Estes encontros são fundamentais, há projetos comuns, há coisas que se combinam e discutem nos almoços e nos coffee-breaks

Depois há a parte científica do evento, que este ano tem como tema-umbrella as lombalgias, havendo sessões sempre muito esclarecedoras de discussão de casos clínicos através de televoto.

JM | Quais são atualmente os desafios na abordagem e no tratamento da dor em Portugal?

MPS | À cabeça, o desafio da formação. O desafio de fazer chegar aos cuidados de saúde primários (CSP) – que veem a maior parte dos doentes (90%) com dor – e aos colegas da Medicina Geral e Familiar (MGF) uma formação mais especializada em Medicina da Dor: quando devem tratar, quando devem referenciar e como deve ser o circuito do doente.

Outro desafio é, sem dúvida, o desenvolvimento das Unidades de Dor em Portugal. Estas Unidades debatem-se com uma enorme dificuldade de recrutamento de profissionais/recursos humanos, na medida em que se tratam de equipas multidisciplinares e os hospitais ainda estão muito organizados por serviços.

Outro problema, transversal a outras áreas, é o da dificuldade em equipas as Unidades de Dor com recursos técnicos e material imprescindível no diagnóstico e tratamento da dor crónica. Embora este ponto não seja o mais importante – fundamental mesmo é termos os recursos humanos adequados e vermos bem os nossos doentes –, ainda assim, hoje em dia, é praticamente impensável tratar dor musculoesquelética sem ecógrafos.

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