António Robalo Nunes: "É fundamental que a comunidade médica atribua à ferropénia a importância que merece"

O especialista em Imunohemoterapia e presidente do Anemia Working Group Portugal (AWGP), António Robalo Nunes, foi o palestrante da sessão científica “Anemia e ferropénia – uma epidemia oculta”, que decorreu a 14 de fevereiro, no âmbito do X Congresso Nacional de Patologia Clínica, no Porto. Na sessão, foram apresentados e discutidos os impactos epidemiológico e clínico destes problemas de saúde pública a partir de dados do estudo EMPIRE. Em entrevista ao Jornal Médico , Robalo Nunes destacou a importância de encarar a ferropénia como uma entidade própria e o contributo da Patologia Clínica no seu diagnóstico.

JORNAL MÉDICO (JM) | Qual a prevalência da anemia e ferropénia em Portugal?

ANTÓNIO ROBALO NUNES (ARN) | A ferropénia e a anemia são dois grandes problemas de saúde pública, estreitamente relacionados, uma vez que a ferropénia é a principal causa de anemia. Inicialmente, a OMS estimava que a prevalência de anemia fosse de cerca de 15% na população portuguesa, face aos indicadores demográficos, económicos e geográficos. No sentido de conhecer a verdadeira prevalência, e com base em dados reais, foi conduzido pelo AWGP o estudo EMPIRE. Trata-se de um estudo epidemiológico, observacional e referenciado aos sensos de 2011, que nos revelou uma realidade mais grave: cerca de 20% de prevalência de anemia nos portugueses adultos em Portugal continental. Em relação à ferropénia – que começa a ser reconhecida como uma entidade própria no plano diagnóstico e terapêutico – o estudo EMPIRE aponta para uma prevalência de cerca de 33% em adultos, com ou sem anemia. Assim sendo, a estratégia, quer no plano diagnóstico, que no terapêutico, tem de ser desviada para a ferropénia, independentemente da associação à anemia, na medida em que sabemos que o impacto do ferro na eritropoiese e no metabolismo energético é grande e, no caso da ferropénia, isso traduz-se em pior qualidade de vida.

JM | O que nos mostra o estudo EMPIRE e qual o potencial impacto dos seus resultados na abordagem destes dois problemas de saúde?

ARN | Os resultados deste estudo serviram como ponto de partida para uma tomada de consciência. A campanha tem sido continuada, através da realização de rastreios sistemáticos, por um lado para sensibilizar para o próprio problema, por outro para documentar a evolução do mesmo. Este cenário também já motivou, por parte da Direção Geral da Saúde (DGS), a elaboração de uma norma de orientação clínica (NOC) sobre a ferropénia.

Paralelamente, tem-se também tentado alertar outras especialidades médicas, dada a transversalidade da prevalência da anemia e ferropenia, condições que afetam todas as faixas etárias, desde o recém-nascido até ao idoso.

JM | Quais os maiores desafios e necessidades não atendidas no âmbito da prevenção e tratamento da ferropénia e anemia ferropénica?

ARN | Esta é uma cruzada permanente, quer para a população geral, no sentido de valorizar sintomas e procurar ajuda, quer para a comunidade médica, no que concerne a olhar mais atentamente para este problema e a atribuir-lhe a importância que ele merece.

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