Helena Brízido: "Patologia Clínica dá contributo fundamental no diagnóstico da deficiência de ferro"

Em conversa com o nosso jornal, à margem do X Congresso Nacional de Patologia Clínica, Helena Brízido destacou o papel desta especialidade no combate ao subdiagnóstico da ferropénia.

JORNAL MÉDICO (JM) | Qual o objetivo do estudo “Ferropénia: o contributo da Patologia Clínica no diagnóstico e na mudança de atitude na prática clínica”, do qual é coautora e participou como patologista do Centro de Medicina Laboratorial Germano de Sousa, em parceria com o Anemia Working Group Portugal (AWGP)?

HELENA BRÍZIDO (HB) | Quando me lançaram o desafio de ser embaixadora desta causa, começámos uma parceria que concluiu que para dar mais destaque à temática do diagnóstico da ferropénia, fazia todo o sentido que o patologista clínico estivesse envolvido, por se tratar do especialista que consegue interpretar com mais detalhe um exame tão simples como um hemograma e orientar o clínico no pedido de exames complementares de diagnóstico, se assim se justificar. Isto permite chegar a um diagnóstico correto da ferropénia na fase mais precoce possível e prevenir a consequência mais drástica desta carência que é a anemia ferropénica.

JM | Qual foi a abordagem metodológica adotada neste estudo?

HB | Aquilo que começámos por fazer e cujo impacto está visível neste congresso foi a adequação e atualização dos valores de referência na determinação da ferritina, como também mensagens de interpretação e sensibilização desses valores de referência, nomeadamente se estamos perante uma ferropenia absoluta ou funcional.

Ao colocarmos essas mensagens no boletim das análises quando o resultado sai, estas têm um papel informativo para o doente e para o clínico e acaba para ajudar na interpretação e orientação subsequente para outros exames. Portanto, encontrámos nesta parceria a necessidade de intervir, alertar para o subdiagnóstico e de tratar esta “epidemia oculta”, o que só será possível se envolvermos amplamente a patologia clínica.

Aproveitámos o Dia Nacional da Anemia como pretexto para iniciar uma série de rastreios específicos nos hospitais CUF, e aquilo que verificámos foi, não só uma grande adesão da população ao rastreio, como uma marcha diagnóstica mais eficiente que se traduziu em mais diagnósticos e intervenções terapêuticas.

JM | Quais os principais resultados e as conclusões?

HB | O que estes rastreios vieram mostrar foram resultados concordantes com a realidade nacional apresentados no estudo EMPIRE. Esta parceria começou em 2018 e ainda há muito para fazer, nomeadamente a revisão da NOC e a atualização dos valores de referência para grupos de risco que poderão ser articulados. No entanto, o mais importante, é replicar este modelo em termos de mensagens orientadoras e informativas.

JM | Qual o contributo da patologia clínica para a resolução destes problemas?

HB | A patologia clínica tem dado um contributo fundamental para o diagnóstico da deficiência de ferro em situações inflamatórias complexas, já que o biomarcador mais frequentemente usado, a ferritina, nessas situações particulares pode encontrar-se normal ou falsamente elevado. Por isso, podemos pedir uma análise adicional tão simples, acessível e barata, como a análise dos reticulócitos. Os colegas clínicos ainda não usam muito estas análises por desconhecerem ainda o seu papel e o seu valor no diagnóstico. Devemos começar por reforçar estes parâmetros que já são usados em situações de suspeita de anemia hemolítica, mas que ainda não são usados na suspeita de anemia ferropénica.


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