Vacina contra Covid-19: “A única maneira de gerir as expectativas é ser transparente”

No âmbito da Semana Europeia da Vacinação – iniciativa levada a cabo pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de 20 a 26 de abril de 2020, e cujo objetivo é reforçar a perceção da opinião pública sobre os benefícios e o valor das vacinas –, o Jornal Médico conversou com a fundadora do Movimento Doentes pela Vacinação (MOVA) e presidente da Associação Respira e da Fundação Europeia do Pulmão, Isabel Saraiva, para quem “o nosso Programa Nacional de Vacinação (PNV) é um dos instrumentos de Saúde Pública mais bem conseguidos”.

JORNAL MÉDICO (JM) | Com que objetivo se assinala anualmente a Semana Europeia da Vacinação, qual o claim deste ano e, tendo em conta o panorama atual de pandemia – em que a prevenção e saúde pública ganham uma dimensão acrescida –, quão mais importante se torna assinalar esta efeméride?

ISABEL SARAIVA (IS) | A OMS celebra todos os anos a Semana Europeia da Vacinação para reforçar a consciência da importância da imunização na prevenção de doenças e na proteção da vida. O destaque deste ano vai para os enfermeiros e os parteiros, pelo papel que desempenham na proteção da saúde da comunidade por via da imunização, nomeadamente, na prevenção de doenças que podem tirar a vida de uma criança ou impactar permanentemente o seu futuro, e no apoio às famílias, para um envelhecimento saudável.

JM | Relativamente a outros países europeus, como se posiciona Portugal no que concerne à vacinação? Que análise faz ao nosso PNV?

IS | O nosso Programa Nacional de Vacinação é um dos instrumentos de Saúde Pública mais bem conseguidos. Teve início em 1965 e abrange doenças tão distintas como a varíola, o tétano ou a gripe. Tem-se revelado uma área de sucesso e o exemplo disso é que muitas das doenças que constam do nosso PNV têm vindo a ser erradicadas. Em “clássicos” como o sarampo, a rubéola ou a papeira, a cobertura vacinal em Portugal era, até à Covid-19, de praticamente 100%. Não tendo dados concretos sobre a cobertura vacinal para o cancro do colo do útero, preocupa-nos, para já, a exceção da pneumonia: com uma cobertura excecional nas crianças, para quem está em PNV, apresenta uma taxa de vacinação demasiado baixa na idade adulta. Uma situação para a qual temos vindo a alertar ao longo dos últimos anos, ou não fossem os adultos a partir dos 65 anos ou com comorbilidades os principais grupos de risco.

JM | Quais as áreas/patologias em que tem havido maior progresso científico, nos últimos anos, no que concerne à vacinação? E aquelas onde ainda existe um longo caminho a percorrer?

IS | De acordo com o Grupo Especializado de Vacinas da Federação Europeia da Indústria Farmacêutica, estão em curso avançadas pesquisas e desenvolvimentos em diferentes áreas como o HIV/SIDA, o dengue, o ébola, o cancro, o Alzheimer, as doenças bacterianas e as doenças de origem parasitária, como é o caso da malária. Ou seja, assistimos com entusiasmo a progressos promissores nas áreas viral, bacteriana e parasitária.

JM | Quais são, atualmente, os principais desafios e ameaças à vacinação em Portugal e no mundo?

IS | O principal desafio é conseguir, em tempo útil, vacinas com eficácia e segurança que combatam as ameaças emergentes, como se vê agora com a Covid-19. É esse o nosso maior desafio, ameaçado pelo fator tempo. Temos, atualmente, um conjunto nunca antes visto de recursos humanos e financeiros à disposição das instituições para trabalharem numa vacina contra o SARS-CoV-2. Não há memória de tanta cooperação entre centros, cientistas das mais variadas áreas de conhecimento, recursos humanos e financeiros. Este movimento de colaboração – indispensável para a pesquisa e para o desenvolvimento – é o grande desafio da atualidade. Espera-se como resultado a vacina para a Covid-19 e para outras doenças de que já falámos.

JM | Os movimentos antivacinação aparecem atualmente com mais expressão, talvez devido ao uso generalizado de plataformas sociais online. Como é que é possível gerir a desinformação causada por alguns destes movimentos? São uma ameaça real à vacinação da população?

IS | Os ativistas antivacinas são muito vocais e encontraram nas redes sociais um terreno excelente para se fazerem ouvir. Os seus pontos de vista, por sua vez, também passaram a ter eco nos órgãos de comunicação social, que tendem em tratar em pé de igualdade ativistas antivacinas e académicos, investigadores ou médicos com conhecimentos reconhecidos nesta área. No ponto de vista do MOVA, mais do que combater estes movimentos no sentido estrito da palavra, queremos perceber quais são os seus receios. Queremos compreendê-los e explicar às pessoas, de forma tranquila e objetiva, porque é que as vacinas são importantes. Estes movimentos acabam por surgir um pouco devido ao sucesso das vacinas. Uma das crenças mais populares entre os movimentos antivacinas espelha-o bem “as pessoas não precisam de vacinas porque já não há doença”. É exatamente o contrário. “Não há doença porque há vacinas”. Temos o exemplo concreto do sarampo: quando se para com a vacina de uma determinada doença, essa doença reaparece, muitas vezes mais intensa do que no passado. Não arrisquemos.

JM | Em tempo de pandemia, onde uma vacina atua como a “luz ao fundo do túnel”, como é possível gerir as expetativas de uma população e o tempo normal do decurso da disponibilização de uma nova vacina no mercado?

IS | As expectativas da população só se gerem de uma forma: dizendo a verdade. Fazer saber às pessoas o movimento de colaboração que se está a gerar em todo o mundo, que envolve centros de Investigação e Desenvolvimento (I&D) públicos e privados, a indústria farmacêutica (IF), as autoridades, a academia, universidades e os hospitais, para além dos recursos financeiros que estão a ser dispostos. Temos de dizer às pessoas que esse trabalho está em curso. E explicar que para uma vacina ser colocada no mercado tem de cumprir critérios de eficácia e de segurança. Só assim pode funcionar. A verificação desses critérios demora sempre algum tempo. Há prazos de espera que são inultrapassáveis, como quando fazemos análises. E também temos de informar as pessoas do tempo que vai ser necessário para a produção industrial das vacinas. Produzir vacinas é um processo complexo, mas há muitas empresas europeias que têm esse saber fazer e que podem avançar. Só que há prazos a cumprir, que não são ultrapassáveis. A única maneira de gerir as expectativas é ser transparente.

JM | A Covid-19 veio alterar o panorama de vacinação português? As pessoas continuam a exercer a vacinação programada de adultos, crianças e recém-nascidos ou houve um decréscimo, apesar das medidas de prevenção alocadas ao PNV?

IS | A declaração do Estado de Emergência levou a que as pessoas ficassem em casa, grande parte delas, assustadas. Por outro lado, a transmissão quotidiana de manhã à noite de imagens de hospitais e de relatos acaba por gerar ansiedade e por inibir as pessoas de prosseguirem uma vida normal, não só no seu dia-a-dia, mas também na procura de centros de saúde e hospitais, como fariam em circunstâncias normais.

É natural que a Covid-19 tenha vindo a alterar, não só o panorama da vacinação, mas todo o panorama da Saúde em Portugal, e no mundo. Acreditamos que, passada esta fase de emergência, o medo que existe nas pessoas vá desaparecendo gradualmente e que retomem a sua vida, não só no âmbito do trabalho, como no dos seus cuidados de saúde, entre outros.

Deixar cair com violência o que é desnecessário e aproveitar a oportunidade
Editorial | Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
Deixar cair com violência o que é desnecessário e aproveitar a oportunidade

Assaltar o desnecessário. Rasgar a burocracia. Rejeitar o desperdício. Anular a perda de tempo. As aprendizagens da pandemia serão uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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