Ana Teresa Timóteo: “As máscaras são fundamentais”
DATA
07/05/2020 10:43:13
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Ana Teresa Timóteo
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Ana Teresa Timóteo: “As máscaras são fundamentais”

Às medidas de contenção de contágio da Covi-19 já preconizadas, a Sociedade Portuguesa de Cardiologia adiciona o uso generalizado de máscara. A secretária-geral, Ana Teresa Timóteo, fala dos benefícios da sua implementação, sublinhando os factos de diminuir a exposição de grupos mais vulneráveis e de reduzir o risco de aerossolização de gotículas infetadas por indivíduos doentes ou portadores assintomáticos, evitando o risco de transmissão. Simultaneamente, pode permitir o reinício da convivência social e da atividade económica “de forma mais segura e solidária”.

JORNAL MÉDICO (JM) | A Sociedade Portuguesa de Cardiologia recomenda o uso generalizado de máscara. O que motivou a comunicação desta posição e qual o impacto esperado?

ANA TERESA TIMÓTEO (ATT) | O vírus severe acute respiratory syndrome coronavirus 2 (SARS-CoV-2), responsável pela pandemia de Covid-19, transmite-se, fundamentalmente, por via respiratória, através de gotículas emitidas pelo indivíduo infetado, que são posteriormente inaladas por aqueles que estão em proximidade ou que, pelo contacto com superfícies infetadas e através das mãos, as transportam para a boca, nariz e olhos. As medidas de contenção de contágio preconizadas, como o distanciamento social e a lavagem frequente das mãos, pretendem evitar a inalação destas gotículas e prevenir a sua transmissão. No entanto, estas medidas podem e devem ser complementadas com utilização de máscaras faciais, cuja utilização na comunidade tem sido largamente debatida e alvo de recomendações divergentes pelas diferentes entidades de saúde.

Porque existem grupos de alto risco, entre os quais se incluem indivíduos com doença cardiovascular, a Sociedade Portuguesa da Cardiologia pretende chamar a atenção para a necessidade de implementação desta medida simples. Isto é particularmente importante porque se pode ser portador e disseminar o vírus sem se sentir doente. Pretendemos esclarecer a população geral sobre a importância e os benefícios da utilização de máscaras na prevenção da disseminação da infeção com SARS-CoV-2.

JM | Recentemente, a propósito desta temática, a Sociedade Portuguesa de Cardiologia defendeu que “a máscara protege pouco quem a usa” e que “a nossa principal proteção é a máscara do outro”. Trata-se de um ciclo de proteção e de uma medida cívica?

ATT | É verdade que a máscara protege pouco quem a usa e, sobretudo se for mal utilizada, pode dar uma falsa sensação de segurança. O seu principal papel é evitar a difusão de gotículas infetadas para a zona envolvente ao individuo infetado. Sabendo-se que um número significativo de indivíduos infetados não apresenta sintomas, torna-se muito importante evitar que as pessoas assintomáticas difundam o vírus pela comunidade sem o saberem e por isso, as máscaras são fundamentais. Assim, o uso de máscara permite proteger os outros, podendo, por isso, ser visto como uma medida cívica.

JM | Desde o início da Covid-19, em Portugal, que muito tem sido dito sobre as máscaras, tendo-se instaurado dúvidas sobre as mais valias da sua utilização. No sentido de esclarecê-las, pedia-lhe que apontasse os prós e os contras do uso.

ATT | Não existem estudos de grande escala com robustez forte para fundamentar o uso universal de máscaras em contexto de epidemias por vírus de transmissão por gotícula, como é o caso do Influenza, o vírus responsável pela gripe. No entanto, algumas experiências populacionais reforçam a justificação empírica para o seu uso, pelo “princípio da precaução”. Por um lado, diminuem a exposição de grupos mais vulneráveis e de maior risco, para os quais a sua utilização é fortemente recomendada. Por outro, diminuem o risco de aerossolização de gotículas infetadas por indivíduos doentes ou portadores assintomáticos, evitando o risco de transmissão. Neste último grupo, incluem-se muitos indivíduos mais jovens e saudáveis, ativos e com maior mobilidade, para os quais não se justificaria o uso generalizado de máscaras para sua proteção individual, mas que, pela possibilidade de transmissão da doença aos grupos de risco, permite contribuir para o reforço de proteção dos grupos de risco, nos quais os doentes com patologia cardiovascular se inserem. É por esta lógica de proteção individual e, de forma mais pertinente, de prevenção de transmissão aos grupos mais vulneráveis, que se justifica o uso universal das máscaras em locais públicos fechados, ou em que não se possa garantir o isolamento social desejável. Trata-se de uma medida que pode permitir o reinício da convivência social e da atividade económica de forma mais segura e solidária. Com efeito, vários países, onde esta medida foi universalmente aplicada, têm tido bons resultados, com menor disseminação da infeção pela população. O contra para a sua utilização é, sobretudo, o uso incorreto das máscaras. A colocação incorreta da máscara, não cobrindo completamente o nariz e a boca; a manipulação da máscara sem desinfetar corretamente as mãos antes e depois da sua utilização; a manipulação da máscara pela zona anterior, que é a zona da máscara mais exposta a contaminação e o tocar depois nos olhos ou em outras superfícies, são riscos na sua utilização. Contudo, uma adequada informação à população sobre a forma mais correta de utilização permitirá minorar estes problemas.

JM | Considera que a população nacional está recetiva a esta recomendação, sobretudo, agora, que o estado de emergência foi levantado?

ATT | Nesta fase, após o estado de emergência ter sido levantado e com o aumento de circulação das pessoas, torna-se especialmente importante e relevante a implementação generalizada da utilização de máscaras por toda a população. Em muitas situações, como por exemplo os transportes públicos, o distanciamento das pessoas é frequentemente difícil de ser cumprido e, por isso, estas medidas são tão importantes. Com efeito, esta maior circulação de pessoas aumenta exponencialmente o risco de contágio. Isto é aplicável a espaços públicos fechados, mas mesmo no exterior, em zonas de maior aglomeração de pessoas, deve ser também uma prática habitual. Uma parte da população ainda não está recetiva a esta recomendação, mas é importante o reforço da divulgação dos benefícios desta medida para que a sua utilização não seja apenas uma obrigação, mas algo que é feito de forma consciente e cívica.

JM | Existe ainda a questão da falta de máscaras. A alternativa da confeção caseira das mesmas – com tecidos, por exemplo – também é aconselhada? Que cuidados são necessários, neste caso?

ATT | O ideal seria o uso de máscaras cirúrgicas, no contexto social. Conscientes de que não se poderá colocar em causa a disponibilidade de máscaras cirúrgicas para os profissionais de saúde que tratam de doentes infetados ou mais vulneráveis, não será razoável esperar que existam máscaras cirúrgicas disponíveis para todos. No entanto, as máscaras de tecido de algodão, designadas como máscaras comunitárias, poderão ser boas opções para aqueles que têm baixo risco, deixando disponíveis as máscaras cirúrgicas para os grupos de risco – idosos e pessoas com doenças debilitantes, como as cardiovasculares –, prestadores de cuidados a pessoas institucionalizadas e profissionais de saúde. A utilização das máscaras comunitárias deve obedecer a regras especificas e já divulgadas pela Direção-Geral-Saúde. Em particular, a sua correta colocação é fundamental, para que esteja completamente tapada a boca e o nariz e por outro lado, os cuidados de conservação e lavagem destas máscaras devem ser também escrupulosamente seguidos. A manipulação de qualquer máscara deve ser também acompanhada por uma correta lavagem das mãos, antes e depois da sua manipulação.

Deixar cair com violência o que é desnecessário e aproveitar a oportunidade
Editorial | Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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Assaltar o desnecessário. Rasgar a burocracia. Rejeitar o desperdício. Anular a perda de tempo. As aprendizagens da pandemia serão uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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