"As teleconsultas têm vários desafios, benefícios e limitações" e a CUF vai abordá-los num curso online
DATA
13/05/2020 11:02:35
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Jornal Médico
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"As teleconsultas têm vários desafios, benefícios e limitações" e a CUF vai abordá-los num curso online

A CUF Academic and Research Medical Center vai realizar um curso online sobre teleconsulta, entre os dias 18 e 20 de maio, destinado aos profissionais de saúde. Foi a propósito do mesmo que o Jornal Médico conversou com os oftalmologistas Joana Ferreira e João Paulo Cunha, coordenadores do curso, que revelam os objetivos associados, os temas abordados e apontam os desafios do recurso à teleconsulta. Defendem que esta não substitui totalmente a consulta presencial tradicional, mas consideram que constitui uma “forma de superar distâncias”, que permite ainda “atendimentos adicionais que podem fortalecer o autocuidado supervisionado”.

JORNAL MÉDICO (JM) | Quais os objetivos deste curso e a quem se destina?

JOÃO PAULO CUNHA (JPC) | Este Curso de Teleconsulta Online visa dotar os participantes dos conhecimentos teóricos e práticos sobre a utilização e realização da teleconsulta em atividade hospitalar. Pretende contribuir para consolidar a utilização da teleconsulta como ferramenta clínica, bem como para fornecer informação de base, sem descurar as perspetivas da ética, do consentimento informado e da responsabilidade, privilegiando a relação humana e estabelecer os objetivos principais. O curso destina-se a todos os profissionais de saúde que possam estar interessados em colaborar não só em teleconsulta, mas também em telemedicina, com todas as suas vertentes.

JM | O que podem esperar os participantes deste curso?

JOANA FERREIRA (JF) | O curso Teleconsulta será um curso muito abrangente que revisitará questões que irão desde a definição de conceitos como a telemedicina, consulta virtual, teleconsulta, telemonitorização; aos problemas e segurança informática; à gestão da teleconsulta; bioética, consentimento informado e relação médico-doente; questões legais e responsabilidade dos intervenientes; e por fim, terminará com a experiência da prática clínica em diferentes áreas da medicina assim como a medição de resultados e a satisfação dos doentes tão importantes para a melhoria futura deste ato.

Os convidados para abordar estes diferentes temas são também eles de áreas muito diversas: Medicina, Direito, Engenharia Informática, Economia e Biotecnologia, permitindo, assim, uma interação e uma discussão que penso que será muito rica e da qual todos iremos retirar ensinamentos que vão sem dúvida melhorar a nossa prática clínica nesta era da telemedicina.

JM | Quais os maiores desafios das teleconsultas? 

JPC | As teleconsultas têm vários desafios, benefícios e limitações, como seria de esperar. Talvez o desafio mais interessante seja a possibilidade de promover a reorganização dos sistemas de saúde para uma abordagem centrada no paciente, com a possibilidade de melhorar a prestação de cuidados de saúde primários. As teleconsultas constituem uma forma de superar distâncias e prestar atendimento sem deslocações de doentes e acompanhantes, permitindo ainda atendimentos adicionais que podem fortalecer o autocuidado supervisionado. Quanto às limitações, os desafios centram-se, sobretudo, na resistência dos profissionais e dos doentes em aderir a esta modalidade e – ou – dificuldade na sua utilização. Também as preocupações com a segurança dos dados, a menor disposição em recorrer a um médico desconhecido, além dos desafios técnicos que podem prejudicar o trabalho dos médicos e a relação médico-doente.

JM | A ética é um dos temas abordados. Consideram que esta pode ser uma preocupação dos doentes?

JF | A teleconsulta é uma consulta na qual o profissional de saúde, à distância e com recurso a tecnologias de informação e comunicação, avalia a situação clínica do utente e procede ao planeamento da prestação de cuidados de saúde. Este tipo de consulta, como qualquer outra, levanta um conjunto de preocupações tanto para o profissional de saúde como para o doente e uma delas é a questão ética e a relação médico-doente, que nunca deve ser descurada.

A professora Ana Sofia Carvalho, diretora do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa, em conjunto com o professor de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, Juan Ambrósio, e com o Dr. Rui Ramalhal, diretor jurídico da José de Mello Saúde e membro da direção da Associação para o Estudo do Biodireito, irão abordar todas as questões éticas e legais inerentes à teleconsulta e responder a todas as dúvidas dos participantes para um melhor esclarecimento futuro dos próprios e dos seus doentes.

JM | Considera que existirão mudanças estruturais na relação médico/paciente - com maior recurso ao digital - decorrentes do atual contexto?

JPC | Acredito que a teleconsulta tem indicações específicas e podemos ler na literatura que a teleconsulta não é adequada nem para todos os pacientes, nem para todas as patologias. O recurso à teleconsulta não pretende nem pode substituir totalmente a consulta presencial tradicional, além de que os efeitos benéficos da teleconsulta parecem estar relacionados a sua realização com um médico já conhecido. Este facto reforça a necessidade de continuidade dos cuidados, algo muito importante para os pacientes e para a garantia da qualidade na relação médico-doente.

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Editorial | Jornal Médico
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