Francisca Vieira: “É fundamental avaliar o estado atual da saúde mental das grávidas e puérperas”

A pedopsiquiatra Francisca Padez Vieira, juntamente com os especialistas Joana Mesquita Reis e Pedro Rafael Figueiredo, está a participar na investigação “Covid-19 e Saúde Mental na Gravidez", promovida pelo Centro de Estudos do Bebé e da Criança do Hospital Dona Estefânia. Em entrevista, aborda o impacto da pandemia nas grávidas e recém-mães e a consequente influência na relação estabelecida com o bebé, analisa as medidas adotadas pela Direção-Geral da Saúde (DGS), e avança ainda alguns resultados obtidos até à data. Entre eles está a existência de uma diminuição do suporte e um “aumento significativo” das preocupações, bem como um incremento dos sintomas depressivos, ansiosos e de stress.

JORNAL MÉDICO (JM) | Como descreve o impacto da Covid-19 na Saúde Mental, durante a gravidez?

FRANCISCA VIEIRA (FV) | A pandemia de Covid-19 condicionou uma série de incertezas e imprevisibilidades que acentuaram as preocupações relacionadas com a gravidez. Numa percentagem significativa das grávidas, implicou um distanciamento em relação às suas figuras de apoio (nomeadamente pais e sogros), isolamento, mudanças no agregado familiar e alterações na vigilância da sua gravidez (com desmarcação de consultas e a impossibilidade de ir acompanhada), gerando, no seu conjunto, uma sensação de falta de suporte. Adicionalmente, as medidas de contenção da infeção específicas para esta população causaram receios intensos relacionados com o parto e pós-parto, tais como a possibilidade de não estar acompanhada durante o nascimento do bebé, de não realizar o contacto pele a pele, de não amamentar ou de se vir a separar do seu filho. No seu todo, estes fatores poderão estar a contribuir para os resultados que encontramos no nosso estudo.      

JM | Este é exatamente o foco do estudo promovido pelo Centro de Estudos do Bebé e da Criança do Hospital Dona Estefânia, no qual participa. Qual o objetivo e quais as metas associadas?

FV | Com este estudo pretendemos avaliar qual o impacto da Covid-19 na saúde mental da grávida e da recém mãe, procurando verificar se existe uma associação entre o desenvolvimento ou agravamento de sintomas ansiosos e depressivos e a atual pandemia. Por outro lado, pretendemos verificar qual a influência destes fatores na relação estabelecida entre a mãe e o bebé. Sabemos que o desenvolvimento do bebé é fortemente influenciado pelas suas experiências e interações precoces, cuja qualidade é influenciada pelo estado emocional dos seus cuidadores. Neste sentido, é fundamental avaliar o estado atual da saúde mental das grávidas e puérperas de forma a se poder planear e mobilizar respostas terapêuticas ajustadas.   

JM | Gravidez, parto e pós-parto. Que fase mais preocupa as grávidas, no contexto atual?

FV | No contexto atual, aos receios habituais inerentes a cada fase acrescem-se os medos relacionados com a pandemia, nomeadamente a possibilidade de infetar ou ser infetada. Embora tenham surgido medidas de contenção da infeção com impacto em todas as fases, as orientações da DGS inicialmente propostas para o momento do parto foram as que geraram mais controvérsia e preocupações expressas. De facto, ainda que seja essencial implementar medidas de segurança que previnam o recém-nascido de uma possível infeção com o novo coronavírus, também não nos podemos esquecer da importância do momento do parto na ligação precoce estabelecida entre a mãe e o bebé. Deste modo, os pais devem ser ouvidos e devidamente informados para que possam participar no processo de tomada de decisão em relação aos melhores procedimentos a adotar pela equipa médica. A possibilidade de se sentir ouvida e acompanhada irá promover uma maior confiança na grávida e diminuir o risco de desenvolvimento de perturbações de stress traumático relacionados com a vivência do parto.

JM | De modo geral, uma vez que o estudo ainda não terminou, quais são os principais receios das mulheres, durante a gestação?

FV | Os resultados preliminares obtidos a partir de uma amostra de 1750 grávidas demonstram que, durante a gestação, existem muitos receios em relação à possibilidade do bebé contrair o vírus (receio moderado a grave em 91,1%); à impossibilidade de realizar contacto pele a pele com o bebé (receio moderado a grave em 93.3%); ao afastamento inicial entre a mãe e o bebé (receio moderado a grave em 93.1%); à ausência de acompanhante na sala de parto (receio moderado a grave em 92.5%) e ao condicionamento da possibilidade de amamentação (receio moderado a grave em 88%).

JM | Que sintomas são mais frequentes?

FV | Em relação aos sintomas psicopatológicos, verificamos que 26% das grávidas apresentam sintomas de depressão, 45% sintomas de ansiedade e 38% sintomas de stress. Estas percentagens são superiores às prevalências habitualmente referidas para esta população, na qual é apontada uma prevalência de 10% para a depressão e 15% para a ansiedade, ao longo da gravidez.

Além disso, 86.1% do total da amostra refere que a situação de pandemia se encontra diretamente relacionada com a sensação subjetiva de maior ansiedade, ou preocupação com a gravidez atual.

JM | E o que pode ser feito para melhorar a Saúde Mental?

FV | Por um lado, é necessário que os profissionais que contactam com as grávidas e puérperas estejam sensibilizados para a importância de avaliarem a existência destes receios, bem como a presença de sintomatologia depressiva ou ansiosa. A possibilidade de a grávida obter informação através de uma fonte fidedigna e da sua confiança, pode, por si só, ter um efeito tranquilizador. Por outro lado, caso se apurem sintomas com maior gravidade dever-se-á encaminhar para um técnico especializado em saúde mental. É importante que estas redes de referenciação estejam bem definidas e que as respostas sejam mobilizadas com brevidade, de forma a minimizar o impacto na grávida ou puérpera e na relação estabelecida entre díade. Caso se venha a diagnosticar uma perturbação de ansiedade ou depressiva no pós-parto, é sempre importante avaliar a interação mãe-bebé, encaminhando, se necessário, para um serviço especializado.

É também fundamental envolver os pais no processo de decisão das medidas a implementar no momento do parto e pós-parto. Deste modo, poder-se-ão desenvolver estratégias individualizadas para cada família, procurando sempre acautelar quer o risco de infeção, quer a relação precoce. A nova norma de orientação da DGS relativa aos cuidados ao recém-nascido na maternidade, emitida a 19 de maio, aconselha precisamente que os pais sejam envolvidos ativamente no processo de tomada de decisão.         

JM | Que balanço fazem dos dados recolhidos, até ao momento?

FV | Podemos afirmar que, de acordo com os resultados obtidos até ao momento, a situação atual de pandemia teve um impacto negativo na saúde mental das grávidas, condicionando uma diminuição do suporte e um aumento significativo das preocupações (algumas das quais relacionadas com as medidas propostas pela norma inicialmente proposta pela DGS, entretanto reformulada). Concomitantemente, verificamos um aumento dos sintomas depressivos, ansiosos e de stress que poderão representar uma maior prevalência de quadros psicopatológicos ao longo da gravidez. A prevalência destes sintomas foi superior em algumas regiões do país, nomeadamente Algarve, Alentejo e Ilhas, nas quais já eram reconhecidas vulnerabilidades prévias à pandemia, não só em termos sociais, mas também numa maior dificuldade de acesso aos cuidados de saúde mental. Deste modo, reforça-se a necessidade de um maior investimento a este nível.  

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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