Isabel Pereira Lopes: “A segurança do profissional de saúde constitui uma prioridade para a segurança do doente”
DATA
17/09/2020 12:59:11
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Jornal Médico
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Isabel Pereira Lopes: “A segurança do profissional de saúde constitui uma prioridade para a segurança do doente”

Assinala-se hoje, pela segunda vez, o Dia Mundial da Segurança do Doente, uma efeméride que a Organização Mundial de Saúde (OMS) decidiu, neste ano, dedicar aos profissionais de saúde, com o mote “Safe health workers, safe patients”. A enfermeira e chief quality officer da Lusíadas Saúde, Isabel Pereira Lopes, conversou com o Jornal Médico a este respeito, abordando a relação entre o desgaste psicológico dos profissionais de saúde e a probabilidade de ocorrência de erro, bem com o impacto da atual pandemia no agravamento das doenças crónicas, entre outros temas relacionados com a segurança na prestação de cuidados de saúde.

JORNAL MÉDICO (JM) | Quais eram os principais desafios na segurança dos doentes na era pré-Covid?

ISABEL PEREIRA LOPES (IPL) | A redução dos riscos decorrentes da prática dos profissionais e da atividade das unidades de saúde. O reconhecimento de que a maioria dos danos é causada por sistemas/processos desadequados ou com grande variabilidade, e não por erro humano.

JM | Quais passaram a ser os maiores riscos de saúde a que estão sujeitos, neste último semestre, os doentes?

IPL | Eu diria que são diversos, mas que ainda não temos a dimensão real do problema. O evitamento ou adiamento na procura de cuidados de saúde poderá assumir a liderança dos maiores riscos de saúde para os doentes.

JM | Que tipo de patologias mais se desenvolveram após o surgimento da atual pandemia?

IPL | A comunidade médica tem assinalado um novo fenómeno. Surgem nas instituições de saúde, nomeadamente nos serviços de urgência, muitos casos de agravamento de doenças crónicas, com doentes descompensados, mas também situações oncológicas com fases de evolução não expectáveis e que poderiam certamente ter uma evolução mais positiva. Também têm sido reportadas muitas situações novas de comprometimento ao nível da saúde mental, sendo apontados como fatores responsáveis a situação pandémica geradora de stress, desconhecimento e incerteza, dificuldades sócias económicas entre outras.

JM | Sendo este o segundo ano em que se assinala o Dia Mundial da Segurança do Doente, qual considera ser a relevância deste tema num contexto pós-pandémico?

IPL | Realmente não poderia vir mais a propósito! Neste dia pretendemos reafirmar o nosso compromisso com os doentes, com líderes e gestores da Saúde e neste ano, com grande foco nos profissionais de saúde, para que todos possamos fazer a nossa parte em garantir a segurança dos doentes. Estamos também empenhados em proporcionar um ambiente que assegure o seu bem-estar, porque sabemos que — para garantir a segurança dos doentes — devemos primeiro garantir a segurança dos nossos profissionais de saúde.

JM | A que níveis é que a população, portuguesa e mundial ainda precisa de ser sensibilizada e alertada para os riscos de saúde que corre?

IPL | A pandemia não terminou e estamos a entrar numa nova etapa com o inverno à porta. Temos que continuar nesta missão de sensibilizar para as regras de distanciamento social, precauções a ter com os mais vulneráveis e ainda manter as pessoas bem informadas da situação e preparadas, sem sensacionalismos!

JM | Em contrapartida, quais pensa serem os principais riscos a que estão sujeitos os profissionais de saúde na realização das suas funções e garantias de segurança do doente?

IPL | Creio que as organizações e os seus profissionais estão hoje melhor preparados para enfrentar uma nova vaga, temos lições aprendidas interna e externamente. Ainda assim, diria que os maiores riscos poderão estar relacionados com a exigência e a procura de cuidados de saúde e ainda com a carga de trabalho e desgaste psicológico a que os profissionais podem vir a estar confrontados. Sabemos que estas situações são potencialmente favoráveis ao erro em Saúde.

JM | Que medidas devem ser tomadas ao nível do Serviço Nacional de Saúde para melhorar a qualidade do ambiente de trabalho dos profissionais de saúde, com vista a, consequentemente, melhorar o serviço prestado aos doentes?

IPL | Promover as melhores práticas e premiar quem tem os melhores resultados.

Promover a confiança e transparência em cada organização para que os profissionais se sintam seguros em reportar incidentes e assim conseguirmos aprender e melhorar. Para isso, temos que envolver e preparar melhor as lideranças.

Adequar os rácios de recursos humanos às necessidades de cuidados e fazê-lo em tempo útil! Temos que continuar a trabalhar para conseguirmos criar um sistema de saúde sustentado em dados analíticos partilhados com os profissionais e com os cidadãos com o propósito de promover benchmarking positivo.

Desenvolver estratégias de comunicação como suporte para cuidar de quem cuida.

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Editorial | Jornal Médico
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Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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