“A relação entre os profissionais e as pessoas com diabetes é a peça fundamental”
DATA
06/11/2020 15:12:50
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Jornal Médico
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“A relação entre os profissionais e as pessoas com diabetes é a peça fundamental”

Assinala-se, a 14 de novembro, o Dia Mundial da Diabetes. Em entrevista ao Jornal Médico, o presidente da Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD), João Filipe Raposo, analisou o atual panorama da diabetes em Portugal, falou das novas terapêuticas, que mudaram o paradigma de evolução para muitas complicações, e destacou a importância da visão global e integrada da diabetes enquanto problema de saúde pública. Deixa, no entanto, um alerta: “Estamos ainda muito longe de a alcançar”.

Jornal Médico (JM) | Qual o papel das sociedades médicas, e da Sociedade Portuguesa de Diabetologia em particular, na partilha de conhecimento e disseminação de informação sobre a diabetes?
João Filipe Raposo (JFR) | As sociedades científicas têm um papel fundamental na ancoragem do conhecimento científico, na formação dos profissionais de saúde das respetivas áreas e de influência na comunidade em geral.
A Sociedade Portuguesa de Diabetologia revê-se nestas três grandes áreas – o conhecimento científico é cada vez mais extenso na área da diabetologia e fruto de investigação em múltiplas áreas médicas, enfermagem, nutrição, psicologia, atividade física e investigação fundamental e translacional. A SPD orgulha-se de ter nos seus associados pessoas de todas estas áreas e que aqui congregam os seus saberes. Desta frutuosa colaboração resultam grupos de estudo que elaboram recomendações que são divulgadas e que representam a visão mais atualizada do padrão de cuidados em diabetes.

JM | Em mais de 30 anos de SPD, que progressos identifica desse ponto de vista? Acompanham o curso da doença ou há um desfasamento com a realidade?
JFR | A área do conhecimento em diabetes tem sofrido um crescimento imenso nas últimas décadas, existindo, no entanto, ainda carências significativas do mesmo com impacto na vida das pessoas com diabetes.
Em primeiro lugar, ainda não temos a capacidade de oferecer a cura da diabetes. Oferecemos o controlo da glicemia – com cada vez mais capacidade de monitorizar esta variável, de outros fatores de risco e doenças associadas. As pessoas com diabetes podem viver mais anos de vida saudável.
Ainda não percebemos a heterogeneidade da diabetes. Simplificámos a classificação da diabetes, mas, numa era em que a medicina personalizada é uma exigência, teremos de saber muito mais sobre subtipos de diabetes tipo 1 e tipo 2. Temos de perceber melhor a evolução para as complicações e as diferentes respostas à terapêutica. A introdução da tecnologia é certamente uma mais-valia nas nossas opções, mas teremos ainda de perceber o peso que ela pode representar para as pessoas com diabetes e para os profissionais que com ela têm de lidar.
O padrão de tratamento em diabetes, tal como noutras doenças, terá sempre de se lembrar que a relação entre os profissionais e as pessoas com diabetes é a peça fundamental, não substituída por nenhuma outra terapêutica. Os profissionais devem continuar a desenvolver as competências na área da educação terapêutica, aumentando a literacia em saúde da população que servimos.
Falta, finalmente, assumirmos um papel mais ativo de intervenção na sociedade. O excesso de peso, a obesidade e a diabetes não são um problema exclusivo de saúde ou doença. Refletem o nosso padrão de sociedade. Vivemos ainda em Portugal numa sociedade claramente favorecedora da obesidade e da diabetes. Os nossos contextos de vida pessoal, profissional, comunitária são, provavelmente, dominantes para o aparecimento destes problemas. Temos de saber ser muito mais interventivos nestas dimensões também.

JM | Que importância assumem a investigação e as novas terapêuticas com um espetro de atuação mais alargado – que não se dirigem apenas ao controlo da glicemia, mas também à prevenção dos riscos cardiovascular e renal, contribuindo para a melhoria do estado geral de saúde da pessoa com diabetes e para um aumento da respetiva esperança média de vida?
JFR | As novas terapêuticas que têm sido progressivamente introduzidas no tratamento das pessoas com diabetes trouxeram-nos surpresas extremamente agradáveis, mas também contribuíram para o reforço da constatação do desconhecimento que ainda temos.
A surpresa foi a demonstração de que hoje temos ferramentas terapêuticas que são extremamente importantes para evitarmos as complicações cardiovasculares e renais e com resultados também no tratamento da insuficiência cardíaca. Passámos de décadas em que as opções terapêuticas se limitavam à insulina, metformina e sulfonilureias – e com estas opções salvaram-se milhões de vidas em todo o planeta – para a terapêutica da diabetes no século XXI, em que temos capacidade de tratar eficazmente a dislipidemia e a hipertensão e introduzir novas terapêuticas inicialmente desenhadas para a diabetes e que mudaram o paradigma de evolução para muitas complicações.
A nossa ignorância vem do facto de ainda não percebermos na totalidade os mecanismos de ação que tornam estas novas terapêuticas benéficas mesmo em pessoas sem diabetes. Teremos, certamente, num futuro próximo, informação que nos vai ajudar a perceber melhor os mecanismos de doença da obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, insuficiência renal e cardíaca, bem como de outras complicações.
Num futuro próximo, conseguiremos introduzir algumas características das pessoas com diabetes em algoritmos de aprendizagem constante e prescrever a melhor solução terapêutica. Estaremos todos prontos para lidar com este cenário?

JM | Como encara o atual panorama na área da diabetes em Portugal?
JFR | Iniciámos em Portugal, há muitas décadas, a definição de Programas Nacionais em Diabetes, refletindo o assumir do problema de saúde pública que a diabetes representa entre nós. Temos uma das maiores prevalências de diabetes na Europa, com 13,6% da nossa população adulta atingida e com cerca de 40% das pessoas ainda por diagnosticar. Temos uma elevada prevalência de pessoas com risco elevado de desenvolver diabetes a curto, médio prazo. A diabetes representa ainda demasiados anos de vida potencialmente perdidos e contribui com um peso significativo para o número de internamentos – alguns evitáveis, para uma maior duração dos mesmos e para o aumento da letalidade intra-hospitalar. Nos Cuidados de Saúde Primários, temos números que refletem um bom controlo glicémico, mas ainda com necessidade de melhor controlo na área da hipertensão e dislipidemia. A diabetes representa ainda um custo significativo da nossa despesa em saúde – cerca de 10% da despesa em saúde (quase 1% do PIB). A ameaça é de que este custo vai continuar a aumentar com a introdução de novos tratamentos para a diabetes e suas complicações, com a introdução de nova tecnologia, com o desenvolvimento de programas de rastreio de complicações, com a imperiosa necessidade de implementar programas de rastreios e também pelo necessário reforço dos profissionais que aqui trabalham e das condições que lhes são oferecidas. A SPD espera também aqui ter um papel fundamental na definição das prioridades e dos modelos em que estas deverão assentar.

JM | Diria que existe uma visão global e integrada da diabetes enquanto problema de saúde pública?
JFR | Nunca se falou tanto da visão global e da integração de cuidados em diabetes, mas estamos ainda muito longe de a alcançar. A visão final desta integração tem de ser a da aplicação destes cuidados ao indivíduo com diabetes e à comunidade. Continuamos a pensar nos modelos antigos, clássicos, de prestação de cuidados – na verdade fragmentados, compartimentados e diluídos, assentes em modelos de financiamento desadequado que premeiam os atos individuais e o tratamento das complicações em detrimento de medidas eficazes de prevenção ou do melhor tratamento em fases precoces.
O novo modelo de prestação de cuidados no panorama das doenças dominantes e do papel cada vez mais ativo dos cidadãos deve ser iniciado no nosso país rapidamente, sob pena de ficarmos presos num modelo caro, desadequado e, em consequência, pouco eficiente. Também aqui o papel das sociedades científicas, a par de muitos outros parceiros, deve ser fundamental.

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Editorial | Jornal Médico
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Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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