“A expectativa sobre os novos fármacos é elevada”
DATA
06/11/2020 15:19:47
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Jornal Médico
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“A expectativa sobre os novos fármacos é elevada”

A propósito das comemorações do Dia Mundial da Diabetes, a 14 de novembro, o Jornal Médico falou com o presidente da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP), José Manuel Boavida, que abordou o tema dos cuidados e acompanhamento das pessoas com diabetes num quadro de COVID-19, e destacou os avanços terapêuticos e o impacto que têm no dia a dia de quem vive com a doença.

Jornal Médico (JM) | Que impacto tem tido a pandemia de COVID-19 no controlo da diabetes?
José Manuel Boavida (JMB) | Houve dificuldades no acesso aos cuidados de saúde e atrasos de tratamentos, cujo impacto ainda não é totalmente conhecido.
Do que sabemos até à data, aparentemente, as pessoas com diabetes seguidas na APDP cuidaram-se bem. Só 1,4% mostraram ter anticorpos contra o SARS-CoV-2 e muitas pessoas mostraram perdas de peso e melhoria do controlo. No entanto, para uma análise a nível nacional, precisamos de mais dados.

JM | As pessoas com diabetes foram, de alguma forma, secundarizadas? O que aconteceu a nível de novos diagnósticos e de acompanhamento dos doentes já diagnosticados?
JMB | Com a diminuição das consultas nos cuidados primários, terão sido feitos menos diagnósticos. A maioria das vezes, a diabetes é diagnosticada em consultas de rotina. Se houve grande redução de consultas e exames, os diagnósticos terão sido postergados.
A conhecida redução das consultas dos cuidados primários e hospitalares poderá vir a impactar o acompanhamento necessário, mas o importante será analisar as suas consequências. Perceber que educação tinham estas pessoas, de que meios dispunham para controlar a sua diabetes, quais as consequências da falta de acompanhamento durante a pandemia – são questões para as quais precisamos de respostas.

JM | Qual tem sido a intervenção da associação neste contexto, e o que tem feito para colmatar eventuais retrocessos no diagnóstico e tratamento?
JMB | A APDP nunca parou. As consultas de maior risco, na área do pé diabético e da oftalmologia, mantiveram-se sempre presencialmente. Criou-se uma linha de atendimento telefónico para apoiar as pessoas com diabetes, durante o estado de emergência, e manteve-se o acompanhamento à distância, com a linha telefónica e com consultas de telemedicina, nomeadamente nas consultas de seguimento, que tiveram uma taxa de realização quase de 100%. Com o desconfinamento foi possível reavaliar a maioria das pessoas e não houve perceção de qualquer agravamento. Já as notícias de amputações que vêm nos jornais, os atrasos da entrada em diálise, dos diagnósticos de infartos, AVC e cancros, têm de ser esclarecidos.

JM | A APDP está também a apostar em formação para profissionais de saúde, através de cursos online. Como tem sido a adesão e o retorno partilhado pelos participantes?
JMB | Realizámos cerca de 20 webinares com grande sucesso e participámos em outros tantos organizados por sociedades científicas e outras instituições ligadas à saúde, como a Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH).
A nossa oferta formativa para profissionais de saúde ganhou uma nova modalidade, a modalidade online, e já realizámos, durante este 2.º semestre de 2020, neste formato, seis cursos. O retorno é sempre muito positivo e há apelos à continuidade. Para já, são para continuar.

JM | Qual o feedback que a associação tem recebido dos doentes que vos contactam? Principais queixas, dúvidas...
JMB | Recebemos muitas dúvidas acerca do acesso aos cuidados de saúde, sobre tratamentos e as exigências diárias no tratamento da diabetes, e em relação aos direitos das pessoas com diabetes, principalmente no trabalho e nas escolas.
As queixas prendem-se com a dificuldade de acesso aos cuidados, situações laborais e o direito ao teletrabalho. O reforço da solidariedade e da compreensão de muitas dessas situações tem sido fundamental para a satisfação das pessoas com diabetes, ajudando-as a aceitar a sua doença e procurar um melhor controlo da situação.

JM | Há́ ainda trabalho a fazer no que diz respeito à sensibilização dos doentes para a importância de cumprir a terapêutica tal como indicada pela equipa médica que os acompanha?
JMB | A terapêutica na diabetes é sempre ajustável ao contexto individual da pessoa. Por isso, apostamos tanto na educação terapêutica, para que as pessoas possam ajustar o tratamento à sua realidade e às suas necessidades. O acompanhamento continuado das pessoas permitirá o acertar da medicação com as diferentes situações da sua vida.

JM | As terapêuticas mais atuais, que atuam não só́ no controlo da glicemia como também na prevenção dos riscos cardiovascular e renal, são importantes para a melhoria da qualidade de vida dos doentes?
JMB | Toda a atualização da terapêutica, com 2021 a marcar os 100 anos da descoberta da insulina, tem sido sempre recebida com alegria por parte dos profissionais de saúde e das pessoas com diabetes.
A expetativa sobre estes fármacos é elevada, no impacto e na redução da mortalidade e morbilidade na diabetes. O aumento da esperança de vida com diabetes seria um passo fundamental, assim como a garantia de qualidade de vida e de anos vividos sem consequências da diabetes: hospitalizações, dias de falta ao trabalho, complicações.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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