“As novas moléculas permitem viver mais e melhor”
DATA
06/11/2020 15:23:43
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Jornal Médico
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“As novas moléculas permitem viver mais e melhor”

“As novas moléculas permitem às pessoas viver mais tempo e com maior qualidade de vida”, nota Miguel Melo, endocrinologista do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, em declarações ao Jornal Médico, sobre as novas terapêuticas para o tratamento da diabetes tipo 2. Leia a entrevista.

Jornal Médico (JM) Qual é o estado da arte em matéria de terapêutica da diabetes?
Miguel Melo (MM) | Nos últimos anos, temos conhecido avanços muito relevantes no tratamento da diabetes. No que diz respeito à diabetes tipo 1, os avanços têm-se centrado em termos disponíveis insulinas prandiais com um início de ação cada vez mais rápido e insulinas basais cada vez mais estáveis, sendo este avanço na farmacoterapia acompanhado por uma revolução tecnológica na monitorização e nos dispositivos de administração de insulina. Já em relação à diabetes tipo 2, o foco principal desta entrevista, a tendência atual é tratar cada vez mais precocemente e utilizando fármacos que tenham benefícios que vão além da redução da glicemia.

JM | Para onde têm caminhado as novas opções?
MM | Precisamente no sentido de condicionarem benefícios adicionais, nomeadamente cardio-renais, que vão além dos que são originados pela própria melhoria do controlo glicémico. Em simultâneo, estamos sempre a falar de fármacos com um baixo risco de hipoglicemia e que condicionam perda de peso, um problema crucial na maioria das pessoas com diabetes tipo 2.

JM | E que benefícios para o doente?
MM | Os benefícios para os doentes são muitos e variados. Além de controlarem a glicemia, os novos fármacos previnem complicações cardiovasculares e renais e fazem-no com um bom perfil de tolerabilidade e segurança. As hipoglicemias sempre foram um fator limitador do tratamento e os novos fármacos não condicionam risco aumentado de hipoglicemia. Outro dos fatores positivos é o efeito favorável sobre o peso, algo que é particularmente valorizado.

JM | Em que medida é que essas novas moléculas contribuem para, efetivamente, melhorar a vida das pessoas com diabetes, reduzindo as comorbilidades da doença?
MM | As novas moléculas permitem às pessoas viver mais tempo e com maior qualidade de vida. De facto, várias moléculas mostraram redução da mortalidade cardiovascular, o que, inevitavelmente, aumenta a esperança de vida. Além disso, destaco o efeito das novas moléculas, nomeadamente dos inibidores do SGLT2, na prevenção de duas complicações ou comorbilidades: a insuficiência cardíaca e a doença renal crónica. A insuficiência cardíaca é, em algumas séries, a segunda manifestação mais frequente de doença cardiovascular nas pessoas com diabetes e condiciona uma redução muito importante da qualidade de vida, para além de ser também uma condição com elevada mortalidade. Relativamente à doença renal crónica, a fase mais avançada da doença tem um impacto enorme na qualidade de vida, interferindo em aspetos tão distintos, como a alimentação, ou os fatores relacionados com as terapêuticas de substituição renal. Para além disso, a doença renal crónica é, por ela própria, um fator de risco para doença cardiovascular; dessa forma, ao prevenirmos uma patologia, estamos também a prevenir a outra.

JM | Olhando para o atual contexto, diria que a diabetes foi secundarizada, dada a mobilização de recursos para a pandemia?
MM | O acompanhamento de todas as pessoas com doenças crónicas foi afetado com a necessidade de alocar grande parte dos recursos em saúde ao combate da pandemia. Alguns dados da primeira vaga apontam para um menor número de consultas e para um aumento do número de internamentos por condições agudas da diabetes. É expectável que, a médio-longo prazo, também venha a ocorrer um aumento das complicações crónicas. Na fase atual, envidamos todos os esforços para conseguir manter um seguimento apropriado destes doentes durante a segunda vaga. No meio de toda esta perspetiva preocupante, existem também alguns dados encorajadores: um estudo realizado no norte da Itália durante a primeira vaga mostrou que, quando as pessoas com diabetes foram acompanhadas à distância utilizando as tecnologias mais recentes, o controlo glicémico até melhorou, isto apesar de se encontrarem em confinamento.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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