Rui Nogueira: “O que nos motiva é uma nova visão, para uma nova mobilização do movimento associativo”
DATA
13/11/2020 15:24:24
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Jornal Médico
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Rui Nogueira: “O que nos motiva é uma nova visão, para uma nova mobilização do movimento associativo”

“Cientes do património humano da nossa especialidade, propomos criar quatro Conselhos que obedecem a critérios de representatividade: Científico, Consultivo, Ético e Internos e Jovens Médicos de Família”. Esta é uma das propostas da lista Nova APMGF, encabeçada pelo atual presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Rui Nogueira, que se candidata pela terceira vez consecutiva à liderança da estrutura, com uma promessa: “O que podem esperar de nós é uma APMGF verdadeira, integrativa, próxima, real e inovadora”.

JORNAL MÉDICO (JM) | O que o levou a avançar com a candidatura a um terceiro mandato à presidência da APMGF?

RUI NOGUEIRA (RN) | Relançar a APMGF no presente e na conquista do futuro, aliando a experiência associativa adquirida ao longo dos anos com a vontade da construção de um futuro melhor para a saúde dos portugueses e o apoio inequívoco aos colegas, tendo a Medicina Geral e Familiar (MGF) como especialidade charneira no sistema de saúde e na prestação de cuidados de saúde de qualidade.

Para este desiderato constituiu-se uma equipa de médicos de família (MF) de várias gerações, locais do país e experiências profissionais diversas que se candidata aos destinos da APMGF. O que nos une é o brio pelo desenvolvimento contínuo da nossa especialidade e pela nossa APMGF.

JM | Que ideias-chave estruturam o programa eleitoral da lista Nova APMGF?

RN | O nosso programa está alicerçado em 12 eixos que consideramos essenciais: da Revista aos Grupos de Estudos, da Investigação aos Jovens Médicos de Família. Estas, entre outras, são componentes essenciais da nossa ação.

Em todas elas fizemos o esforço para integrar a heterogeneidade, alargando a participação direta aos quatro Conselhos que propomos e apresentamos desde já com as respetivas equipas em construção; aproximar aos sócios porque queremos que a APMGF faça parte da rotina de cada um; criar um programa de formação contínua sólido e organizado e exponenciar a qualidade.

Em suma, é isto que podem esperar de nós: uma APMGF verdadeira, integrativa, próxima, real e inovadora.

JM | Que preocupações teve aquando da escolha dos elementos para a sua lista? Que tipo de representatividade procura?

A Nova APMGF reúne heterogeneidade de visões e por isso se completa em cada um de nós e se projeta para todos os colegas. Temos colegas em todas as fases da carreira, do primeiro ano de internato médico até a colegas aposentados. Temos colegas em exclusividade no público, mas também no privado. Temos uma equipa com colegas do Minho ao Algarve e Regiões Autónomas, como podem ver no programa que apresentamos. Temos professores universitários. Temos colegas em unidades de cuidados de saúde personalizados (UCSP) e em unidades de saúde familiar (USF). Temos percursos pessoais e profissionais diferentes, com extensa experiência no domínio internacional, no associativismo ou na direção de internato.

Não obstante tudo isto, somos melhores quando não vamos sozinhos e por isso, cientes do património humano da nossa especialidade, propomos criar quatro Conselhos que, em si, obedecem a alguns critérios de representatividade: Científico, Consultivo, Ético e Internos e Jovens Médicos de Família.

Toda esta heterogenia está patente no nosso programa que se quer para todos.

JM | Pela primeira vez na história da APMGF, há uma segunda lista concorrente às eleições. A outra lista candidata é encabeçada pelo Dr. Nuno Jacinto, atual Secretário da APMGF, isto é, elemento da sua direção. Como encara este processo que, de certa forma, é de cisão?

RN | A existência de duas listas permitiu uma evolução notável. A criação da Nova APMGF é um projeto de grande alcance e que entendo como vantajoso. Crescemos e renovámos. É sempre bom debater, abrir horizontes para novas pessoas e trabalhar novos potenciais.

No entanto, essa “cisão” da forma como se deu, surpreendeu-me porque não a esperava. O Dr. Nuno Jacinto é o atual secretário da Direção. Trabalhamos durante nove anos. No ano passado propôs uma diminuição da atividade da APMGF por falta de tempo e surpreendeu-nos que, do nada, tenha surgido disponibilidade. Ou seja, a surpresa não é haver duas listas, mas sim a forma como apareceu a lista do Dr. Nuno Jacinto. Saudando, no entanto, a liberdade que nos fez crescer e que trouxe novos sócios à APMGF e que espero continuem disponíveis.

JM | Uma das críticas apontadas pelo seu adversário à atual direção é a de que esta “está fechada sobre si própria” e é pouco inclusiva e participativa. Como comenta?

RN | Não me parece. Todavia essa crítica poderá levar-nos a refletir. A ser verdade, o Dr. Nuno Jacinto e membros da sua lista que pertencem à atual direção seriam igualmente responsáveis. Além disso, estes colegas nunca apresentaram nenhum desconforto e nem proposta para a DN ser mais inclusiva e participativa. É necessário ter em conta que o Dr. Nuno Jacinto pertence à atual direção e nos últimos dois mandatos como secretário, um lugar relevante.

A direção da APMGF é um órgão colegial onde todos os elementos podem apresentar propostas e participar ativamente e com igual qualidade de voto. Houve sempre a preocupação dos membros da direção participarem ativamente na discussão de todos os assuntos. A atual direção não está fechada sobre si. Veja-se a participação de elementos que não pertencem à direção e participam no Encontro Nacional, no Congresso Nacional, nas Escolas, nas Jornadas das Delegações, nos Grupos de Estudo, no Departamento de Internos, na Revista, nos jornais, nos vários grupos de trabalho.

O que se pretende na Nova APMGF é que haja uma ainda maior participação no desenvolvimento de projetos e participação em atividades.

JM | Em que é que a Nova APMGF se diferencia da lista concorrente?

RN | Aliando o legado histórico da APMGF na vanguarda da MGF nacional e internacional, com a necessidade de conquistar o futuro com novos projetos temos que pensar e fazer uma Nova APMGF. Tudo vai ficar diferente nos próximos anos. Estamos a projetar uma nova década e uma nova geração de MF está a apta a desenvolver novas ações, em novos contextos. É esta nova visão que nos motiva para uma nova mobilização do movimento associativo. Por isso, projetamos a Nova APMGF com maior adesão de colegas, com novo apoio de proximidade, novas ações de formação contínua dirigidas e preparada para todos, novos apoios à investigação, novas ações no internato médico, nova intervenção internacional, nova proximidade às outras Sociedades Científicas, nova e melhor comunicação e sempre mais inovação.

Somos por tudo isto muito diferentes e contamos com uma nova equipa motivada, disponível e trabalhadora.

JM | Atravessamos tempos atípicos na Saúde, com uma pandemia sem fim à vista, onde o papel dos médicos de família ganha contornos únicos. Qual crê que deve ser esse papel e qual a posição da APMGF nesta situação particular?

RN | A APMGF deve ter um papel atento e ativo na sinalização das dificuldades e obstáculos que os MF enfrentam diariamente na sua função. Somos uma voz reconhecida, representativa e interlocutora perante as estruturas de decisão superior e a comunicação social. Temos intervenções permanentes e total disponibilidade para continuarmos a participar ativamente na sociedade, junto dos médicos e das suas organizações.

O MF sempre esteve e continuará a estar do lado dos seus utentes, providenciando os melhores cuidados disponíveis. Em particular nesta fase de pandemia, a acessibilidade passou a ser feita de forma não presencial, com utilização privilegiada do contacto telefónico e e-mail, mas em todas as unidades de saúde há dinâmicas de trabalho e organização que simultaneamente disponibilizam consultas sempre que considerado necessário. Há um longo e novo caminho a percorrer... Muitas destas formas de organizar o trabalho terão que ser desenvolvidas e inovadas, porque muitas vieram para ficar, mas carecem do aperfeiçoamento e adaptações devidos. Um novo trabalho para desenvolver. A relação médico-doente adquire cada vez mais relevância neste contexto e por isso a privilegiamos e a promovemos e defendemos.

Na otimização das nossas tarefas tem particular relevo a colaboração dos outros profissionais da equipa de saúde, nomeadamente os profissionais de enfermagem e assistentes técnicos. As novas “regras de acesso” existentes nos centros de saúde têm por único objetivo aumentar a segurança de utentes e profissionais. Estamos empenhados em desenvolver a nova realidade e o “novo normal”.

JM | Que outros desafios reconhece aos cuidados de saúde primários e à MGF atualmente – as carreiras médicas e os concursos de ingresso na especialidade têm sido aqueles sobre os quais mais se tem debruçado – e em que medida foram equacionados no seu programa eleitoral?

RN | Vários desafios têm emergido diariamente com a pandemia e temos estado particularmente atentos a todos eles.

O sobredimensionamento das listas de utentes, que nos pode limitar a qualidade da consulta, que nos obriga a maior esforço e nos sujeita a mais erro médico é uma preocupação cada vez maior. A Nova APMGF propõe trabalhar a nova métrica de lista de utentes, com especial atenção às unidades ponderadas e ajustadas à realidade sociodemográfica e às particularidades do MF. É absolutamente necessário considerar as diferentes atividades que cada um desenvolve, para além da área assistencial dedicada aos seus utentes e é desejável que se mantenham condições para este exercício ser compatível com outras atividades. Temos que enquadrar as atividades académicas, científicas, de governação clínica, ou outras com a prestação de cuidados de saúde numa equipa multiprofissional.

A burocratização com tarefas infindáveis é insustentável. Propomos abolir o ridículo e simplificar tarefas com otimização de processos. O “simplex da saúde” tem que ser uma realidade e por isso defendemos a calendarização da desburocratização como tarefa prioritaríssima.

É importante clarificar e melhorar os concursos de ingresso na carreira médica. Mas acima de tudo é necessário estudar e trabalhar uma nova metodologia no novo enquadramento da nova carreira médica. Não é possível continuar a assistir a uma metodologia ultrapassada, gasta, desadequada da realidade e que não serve os médicos nem as unidades de saúde e está longe de ser uma solução. Com o mesmo método teremos o mesmo resultado e já vimos que não são a melhor solução!

Os concursos da carreira médica têm que ser encarados com a seriedade que os colegas merecem e também aqui estamos disponíveis para evoluir e inovar. É inaceitável continuarmos a ver adiamentos de concursos. A carreira médica tem que ser renovada, mas enquanto não há uma evolução teremos que trabalhar com a que temos e impedir que mais médicos sejam prejudicados!

A progressão das unidades de saúde, o seu apoio efetivo e de proximidade, a consolidação da reforma dos cuidados de saúde primários com estabilização de conceitos e de práticas é uma preocupação de todos e é necessário encontrar novas soluções para velhos problemas pendentes.

Todas estas missões estão patentes no nosso programa e integrarão a agenda política da Nova APMGF.

JM | Que mensagem gostaria de deixar aos colegas médicos de família?

RN | Seguramente uma mensagem de estímulo positivo. Os MF sempre têm conseguido responder acertadamente aos desafios com dignidade e competência. A resiliência, a abnegação, a priorização das necessidades dos utentes e doentes, muitas vezes com grande esforço pessoal, são características reconhecidas e apoiadas na sociedade. Perante um cenário de grande complexidade que atravessamos e que porventura se venha a tornar ainda mais difícil, estaremos na linha da frente para acompanhar e prestar os cuidados necessários e imprescindíveis à população. Não esqueçamos, contudo, que somos seres humanos, não somos robôs. Não podemos ser omnipresentes nem ser solicitados para além do que nos é humanamente possível fazer. Não conseguimos ultrapassar as falhas dos sistemas disponibilizados e muitas vezes inoperacionais, mas lutamos contra as incongruências e as resistências à mudança organizacional. A força de intervenção está na linha da frente e é lá que nós estamos. A Nova APMGF aqui estará para apoiar os médicos de família.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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