José Agostinho Marques: “O contributo da clínica geral é nuclear para os doentes com DPOC”
DATA
18/11/2020 11:18:37
AUTOR
Jornal Médico
José Agostinho Marques: “O contributo da clínica geral é nuclear para os doentes com DPOC”

Assinala-se, a 18 de novembro, o Dia Mundial da DPOC. O diretor clínico do Hospital de Santa Isabel e professor catedrático jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, José Agostinho Marques, em entrevista ao Jornal Médico, alerta que esta é uma doença que tem “um subdiagnóstico que impede o tratamento e motivação para a prevenção de muitos doentes.”

JORNAL MÉDICO (JM) | Atualmente, como caracterizaria o panorama da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) em Portugal?

JOSÉ AGOSTINHO MARQUES (JAM) | A DPOC em Portugal tem os mesmos recursos terapêuticos disponíveis e os mesmos problemas dos outros países europeus. Tem na origem o tabagismo como causa ainda por controlar, e tem um subdiagnóstico que impede o tratamento e a motivação para a prevenção de muitos doentes. Felizmente, o nível de atenção dos médicos de cuidados primários tem melhorado muito, sobretudo entre as gerações mais jovens, e essa maior atenção poderá produzir melhorias no futuro.

 

JM | As pessoas com doenças respiratórias são consideradas um grupo de risco para a pandemia de COVID-19. Que impacto tem tido a COVID-19 na área da DPOC?

JAM | Quem sofre de DPOC, em especial os doentes com maior redução da função respiratória, é mais propenso a apresentar formas graves de COVID-19. Na realidade, os casos graves de COVID-19 têm maior letalidade em doentes com grandes comorbilidades, sobretudo respiratórias. Estes doentes devem ter cuidados reforçados para assegurar o cumprimento da terapêutica regular, sem falhas, para estarem na melhor situação possível no caso de serem infetados pelo vírus. Melhor ainda é reforçar a prevenção, para evitar o contacto.

JM | Quais as abordagens terapêuticas recomendadas em casos de DPOC?

JAM | Os doentes com DPOC devem fazer terapêutica regular com broncodilatadores de longa duração de ação, começando por um anticolinérgico ou uma associação de anticolinérgico e adrenérgico, incluindo um corticóide inalado nos grupos bem definidos com indicação para isso. Além do tratamento farmacológico, devem fazer exercício físico, reabilitação respiratória desde fases precoces da doença e vacinas para gripe e pneumonia. Os momentos críticos na vida destes doentes são as exacerbações. A COVID-19 pode ser uma das causas de exacerbação.

JM | Do ponto de vista da terapêutica, a oxigenoterapia tem contribuído para a melhoria da qualidade de vida de pacientes com DPOC?

JAM | A oxigenoterapia é a medida terapêutica nuclear para os doentes graves com insuficiência respiratória. Foi a primeira terapêutica a demonstrar capacidade de alongar a vida a estes doentes. Quando há indicação para oxigenoterapia, é necessária uma atenção constante para assegurar que a terapêutica se faça com regularidade, nos períodos diários adequados e nas doses recomendadas, incluindo a oxigenoterapia em repouso e na deambulação.

JM | Que importância tem a referenciação da Medicina Geral e Familiar para os especialistas em Pneumologia?

JAM | Como a DPOC é uma doença muito prevalente, o papel da clínica geral é crucial. O seu papel começa no diagnóstico, mas prolonga-se na prevenção da doença e na clínica da grande maioria dos doentes. Um clínico geral está em condições de cuidar da grande maioria dos doentes de DPOC, sem necessidade do contributo de pneumologistas. À medida que a sua experiência aumenta, reduz o número de vezes que precisa de recorrer à referenciação. A referenciação é importante como parte do diálogo (muito deficitário) entre cuidados primários e hospitalares e deve ocorrer com movimentos nos dois sentidos. Importa sublinhar que, sem o contributo nuclear da clínica geral, grande parte destes doentes nunca terão acesso aos recursos da Medicina moderna.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
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