Manuel Teixeira Veríssimo: “É fundamental que a população adquira literacia em saúde”

A 28.ª edição do Congresso Português de Aterosclerose, de acordo com o Prof. Doutor Manuel Teixeira Veríssimo, Presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose, foi um sucesso e assinala “pontos de rutura com o passado” e “pontos de viragem, motivados pela pandemia Covid-19, que representam mudança no modo de organizar, participar e patrocinar.” Em entrevista, passa ainda em resenha o mandato de três anos que chega ao fim no final de 2020. Apesar de confessar ter sido “uma honra” e acreditar não ter “desmerecido dos antecessores”, “deixando mais do que foi encontrado e complementando a obra das direções anteriores”, é apologista de que “as sociedades beneficiam com a mudança periódica de timoneiro”.

Jornal Médico (JM) | Após a realização da 28.ª edição do Congresso Português de Aterosclerose, com enfoque no tema “Pontos de viragem na rota do tratamento”, quais são as principais ilações a retirar deste programa científico?

Manuel Teixeira Veríssimo (MTV) | Foi um programa científico muito bem concebido que, na prática, atingiu os objetivos a que a comissão organizadora e a Sociedade Portuguesa de Aterosclerose se propuseram, o que se deveu ao modo organizado como decorreu e à superior qualidade dos palestrantes. Importa também realçar o papel da empresa LPM, que, sendo a responsável pelo suporte técnico do congresso, deu uma resposta de elevada qualidade, sem a qual este nível de sucesso não teria sido possível. Mas, a grande ilação a tirar é que é possível romper com o paradigma do congresso presencial, mantendo a qualidade científica e sem perda de adesão dos congressistas e dos patrocinadores. 

JM | Em que fase dos “pontos de viragem na rota do tratamento” estamos?

MTV | “Os pontos de viragem” têm, essencialmente, a ver com a passagem do congresso presencial para virtual, provocando necessariamente pontos de rutura com o passado. São pontos de viragem motivados pela pandemia COVID-19 que representam mudança no modo de organizar, participar e patrocinar. O termo “viragem” é bem aplicado porque, segundo penso, mesmo após o termo da crise pandémica, muito do que agora passou a virtual vai continuar a sê-lo nos congressos. Acredito que os congressos do futuro serão mistos, comportando palestras e moderações presencias e virtuais, congressistas em presença física e virtual, mas todos com possibilidade de intervir, sendo todas as sessões filmadas e gravadas de modo a poderem ser vistas ao vivo e em diferido durante o tempo que a organização achar adequado. Será, assim, conseguido o impacto social do contacto presencial para os que o desejarem e somente o aspeto científico para quem o preferir ou não tiver possibilidade de estar de forma presencial.

JM | Há alguma temática em específico que requeira uma maior atenção/discussão nesta área da medicina?

MTV | A temática do colesterol continua a ser sempre atual, quer seja porque as recomendações internacionais nos dizem que, especialmente para doentes com elevado e muito elevado risco cardiovascular, os objetivos de diminuição do colesterol são cada vez mais ambiciosos, quer porque cada vez mais existem fármacos capazes de concretizar essa redução. Especial atenção devem continuar a merecer as medidas relacionadas com o estilo de vida, combatendo o sedentarismo e os excessos alimentares que, promovendo a obesidade, a diabetes e a dislipidemia, estão fortemente associados ao aumento do risco cardiovascular. Importa nesta área referir a dieta atlântica, típica de Portugal e da Galiza, que segundo dados recentes, protege contra a doença cardiovascular aterosclerótica. Tiveram também o seu lugar temas como o cancro e o colesterol e as dislipidemias nas crianças, duas áreas pouco faladas, mas cada vez com mais importância na prática clínica. Realce ainda para a apresentação do estudo sobre os custos da aterosclerose, um estudo que teve o patrocínio científico da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose.

JM | De que forma o congresso contribuiu para a atualização de conhecimentos em matéria de terapêuticas?

MTV | A atualização terapêutica é sempre uma parte importante do congresso. Neste aspeto salienta-se a apresentação de um novo fármaco para o tratamento da hipercolesterolemia, o ácido bempedóico, bem como a discussão das orientações internacionais no âmbito da terapêutica, não só relacionadas com o colesterol, mas também com os triglicerídeos. Lugar de destaque tiveram também as associações de fármacos antidislipidémicos, nomeadamente estatinas com ezetimibe e estainas com fibrato. Foi ainda abordado o tratamento da hiperquilomicronemia.

JM | Quais são os principais desafios que se avizinham nesta especialidade médica?

MTV | A doença aterosclerótica está na base da principal causa de morte de Portugal e dos países desenvolvidos e tem tendência a aumentar, não apenas por causa do sedentarismo e da obesidade crescentes, mas também por causa do envelhecimento da população, tendo em conta que a idade é o principal fator de risco não modificável de aterosclerose. Nesta perspetiva, o principal desafio passa pela prevenção, especialmente associada ao estilo de vida, mas também através do controlo farmacológico dos fatores de risco clássicos, como a hipercolesterolemia, a hipertensão arterial e a diabetes. Tratando-se de uma doença que não dói e que evolui ao longo de décadas, é fundamental que a população adquira literacia em saúde, pois esta é uma das patologias em que o papel principal é do doente, funcionando o médico especialmente como conselheiro.

 

JM | O Dr. Alberto Mello e Silva, aquando da apresentação do congresso, citou um filósofo anónimo, que afirmava que “um homem quando aprende não fica a saber mais. Fica a ignorar menos.” Considera que este foi mais um pressuposto cumprido entre a comunidade científica?

MTV | Sim, estarei de acordo que este congresso fez com que ficássemos a ignorar menos, quer do ponto de vista científico, quer do ponto de vista organizacional. Decerto que esta experiência positiva veio enriquecer o conhecimento da comunidade científica.

JM | Depois de suceder, em 2017, ao Dr. Alberto Mello e Silva na presidência da SPA, o seu mandato termina no final de 2020. Que legado se orgulha de construir durante este triénio?

MTV | Ser presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose foi, para mim, uma grande honra. Penso não ter desmerecido dos meus antecessores e poder dizer que, embora com algumas limitações, especialmente causadas pela pandemia COVID-19, deixamos mais do que encontrámos, complementando, como era nossa obrigação, a obra deixada pelas direções anteriores. Será de salientar que, em parceria com a Sociedade Europeia de Aterosclerose, coorganizámos, com assinalável sucesso, neste mandato, o Congresso Europeu de Aterosclerose em 2018, cujo presidente foi o Dr. Alberto Mello e Silva, um marco na área para Portugal. Salientamos ainda a criação da Bolsa de Investigação em Aterosclerose, bem como a Bolsa de Investigação Akira, em parceria com a Daiichi Sankyo. Organizámos anualmente o Congresso Português de Aterosclerose e Curso Avançado de Lipidologia e participámos também, em parceria com outras sociedades congéneres e outras instituições, em diversos estudos de investigação e normas de orientação, de entre as quais se destaca o custo da aterosclerose em Portugal, o guia de utilização dos PCSK9, o Consenso sobre a Dslipidemia Aterogénica em Portugal, o Registo Português da Hipercolesterolemia e o Registo Europeu da Hipercolesterolemia Familiar.

JM | Um dos desígnios da sua direção era alargar o âmbito da Sociedade a várias especialidades médicas e não médicas. Foi um objetivo cumprido?

MTV | Foi um objetivo cumprido em parte, tendo diversas especialidades médicas, como Cardiologia, Endocrinologia, Neurologia, Medicina Interna, Medicina Geral e Familiar e Anatomia Patológica, quer como sócios, quer como membros dos corpos sociais, o mesmo acontecendo com investigadores oriundos de áreas como a Biologia, a Bioquímica, a Farmácia e a Nutrição. Será, no entanto, necessário continuar a estimular a entrada de sócios da área da investigação.

JM | E em relação à formação dos profissionais, ao fomento da investigação e uma relação mais próxima com outras sociedades científicas internacionais foram igualmente metas alcançadas?

MTV | Em relação à formação profissional continuámos a realizar anualmente o Curso Avançado de Lipidologia e a disponibilizar no site vários tipos de informação relacionada com a evidência atualizada da ciência sobre o tema, enquanto na área da investigação criámos o Prémio Nacional de Geriatria, a Bolsa de Investiga Akira e o prémio para o melhor poster do congresso. Quanto à relação com outras sociedades científicas internacionais destacamos a excelente relação, que foi aprofundada durante este mandato, com a Sociedade Europeia de Aterosclerose e com a Sociedade Internacional de Aterosclerose, com as quais temos mantido uma profícua relação, traduzida pela habitual presença dos seus presidentes nos nossos congressos. Também com a Sociedade Espanhola de Aterosclerose temos mantido excelentes relações de colaboração científica e institucional.

JM | Ficou algum projeto por concretizar durante este mandato ou que gostasse de ter lançado?

MTV | Nunca fazemos tudo o queremos e a pandemia de COVID-19 também não veio ajudar. Ficou por lançar um curso e-learning aprofundado sobre lípidos, que, com uma carga horária suficiente, permitisse dar boas bases aos clínicos que desejassem saber mais desta área.

JM | Quais foram os principais desafios encontrados ao longo destes últimos três anos?

MTV | Quando se fala de aterosclerose o grande desafio é sempre a prevenção. E esta passa essencialmente pela promoção da literacia em saúde, nomeadamente ensinar sobre estilos de vida saudáveis, entre os quais se destaca a alimentação saudável, a prática de atividade física, a prevenção da obesidade e da diabetes, bem como não fumar entre outros. Algo fizemos neste campo, mas ainda muito mais será necessário fazer.

O repto da SPA é uma sociedade com menos aterosclerose

JM | Quais são os grandes reptos da SPA, bem como os desafios que se colocam à prossecução desses mesmos objetivos?

MTV | O grande repto da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose passa por contribuir para uma sociedade com menos aterosclerose, isto é, com menos doença cardiovascular. Para isso, tem dois públicos-alvo: os médicos e outros profissionais de saúde e a população em geral, sobre os quais deve agir, embora com níveis de intervenção diferentes.

JM | Que papel desempenha a SPA enquanto sociedade científica?

MTV | Desempenha o papel que as sociedades científicas devem ter junto dos seus sócios e da população, em termos de informação, aconselhamento, formação e investigação. As sociedades científicas deverão ser o garante de que a ciência e os seus avanços são colocados, de modo correto, ao serviço dos profissionais de saúde e da população.

JM | Qual o contributo da SPA, em concreto, para o debate de grandes temáticas?

MTV | Tem contribuído em particular para o debate da importância do colesterol e do estilo de vida na saúde cardiovascular.

 

JM | O contexto pandémico provocado pela COVID-19 teve ou está a ter, de alguma forma, interferência no plano de ação da Sociedade?

MTV | Tal como acontece em relação a toda a sociedade, também o plano de ação da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose sofreu interferência, obrigando-nos a adaptar aos tempos de pandemia com o mínimo de desvios do nosso caminho.

 

JM | Pretende ou equaciona recandidatar-se a novo mandato?

MTV | Não. Penso que as sociedades beneficiam com a mudança periódica de timoneiro e três anos penso serem suficientes para pôr em prática as ideias que trazemos à partida.

A mudança necessária
Editorial | Jornal Médico
A mudança necessária

Os últimos meses foram vividos por todos nós num contexto absolutamente anormal e inusitado.

Atravessamos tempos difíceis, onde a nossa resistência é colocada à prova em cada dia, realidade que é ainda mais vincada no caso dos médicos e restantes profissionais de saúde. Neste âmbito, os médicos de família merecem certamente uma palavra de especial apreço e reconhecimento, dado o papel absolutamente preponderante que têm vindo a desempenhar no combate à pandemia Covid-19: a esmagadora maioria dos doentes e casos suspeitos está connosco e é seguida por nós.

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