Miguel Freire e Vasconcelos: “Precisamos de mais estruturas intermédias”
DATA
30/12/2020 08:53:19
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Jornal Médico
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Miguel Freire e Vasconcelos: “Precisamos de mais estruturas intermédias”

Em matéria de saúde mental, o sistema português está subdimensionado, existindo um défice de oferta, sobretudo nas estruturas intermédias. Esta é a visão do presidente da Sociedade Portuguesa de Psicodrama, Miguel Freire e Vasconcelos, em entrevista ao Jornal Médico. Com base nas suas já quase três décadas de experiência no tratamento de distúrbios mentais e em situações de adição, o psiquiatra analisou o impacto da Covid-19 e as respostas dos serviços.

JORNAL MÉDICO (JM) | Quais considera ser as patologias que tinham mais impacto nos portugueses, até ao ano transato? E a partir deste ano, até ao presente momento?

MIGUEL FREIRE E VASCONCELOS (MFV) | Anteriormente, eram claramente as patologias ansiosas e afetivas que existiam em maior número.

Atualmente, continuam a ser as mesmas, sendo que talvez os registos de ansiedade tenham subido um pouco, de uma forma generalizada a nível nacional. Neste momento, temos muitas situações de desajustamentos e pressões laborais. Acredito que um país que tem uma economia relativamente débil e que está em crise, isso terá como reflexo o aumento do stress, um maior desgaste no emprego e uma redução do tempo de descanso, e o tempo de qualidade para os relacionamentos interpessoais, sendo também uma das consequências as roturas familiares.

JM | As patologias ou perturbações psiquiátricas que mais afetam os portugueses são motivadas essencialmente por alterações genéticas ou situações adversas que enfrentam ao longo da vida?

MFV | Considera-se que a patologia mental tem origem multifatorial, tendo bastante importância os fatores genéticos, as características e escolhas pessoais bem como fatores do meio, tais como o lugar e o ambiente onde a pessoa cresceu, as escolas onde andou, por quem foi criado, as experiências que teve. Todos estes acontecimentos vão influenciar a carga genética que o indivíduo herdou no surgimento do adoecer mental.

JM | Qual o estado atual da arte da terapêutica e a sua eficácia observada?

MFV | Os conhecimentos e a eficácia das terapias têm sofrido uma evolução progressiva no sentido das suas indicações terapêuticas e da sua eficiência e, podemos recorrer a terapias farmacológicas, a psicoterapias, a terapias sociais e a terapias físicas. Se para uma determinada situação houver indicação clínica e puder ser utilizadas mais que uma terapia, de forma complementar, provavelmente o resultado vai ser melhor.

A pandemia veio afetar o resultado das terapias, quando as pessoas por sua causa não vão ou interrompem as terapias em curso, tal como acontece nas outras áreas da Medicina. Adicionalmente, no nosso país há uma suboferta. No meu entender e de muitos colegas, temos menos meios, em recursos humanos e de estruturas para fazer face às necessidades da população. E, obviamente, numa situação em que as pessoas estiveram mais confinadas e estão com mais dificuldades e com medo de ir aos hospitais, houve diagnósticos, avaliações, exames e tratamentos que foram comprometidos.

JM | Nota que aumentaram os pedidos de ajuda pelos profissionais de saúde, relativamente ao que agora é descrito como estado de burnout?

MFV | Muitos serviços em Portugal estão com falta de profissionais de saúde: médicos, enfermeiros, assistentes técnicos e, quando eu tenho relatos de colegas que têm apenas 15 minutos para consultar um paciente e nesse período de tempo têm de fazer não sei quantos inquéritos, auscultar e observar a pessoa, nitidamente só podem estar em sobrecarga ocupacional, com maior probabilidade de virem a sofrer de síndroma de exaustão.

Mas nesta atual situação da pandemia, com o esforço acrescido que na generalidade se observa, é expectável que os profissionais de saúde venham a necessitar de ajuda, sendo que considero que ainda estamos numa fase em que as pessoas estão a dar tudo por tudo, estando a começar a entrar em burnout, aumentando a probabilidade de adoecer e de vir a sofrer de incapacidade.

JM | Espera-se então que estes casos venham a aumentar nos próximos meses?

MFV | A tendência que observamos diz-nos que sim. A situação ainda está a evoluir e a complicar-se, e não sabemos qual vai ser a evolução epidemiológica do país nem que consequências isso terá, mas, provavelmente, irá agravar-se. E, como tal, essa situação trará consequências.

JM | Considera que as respostas dadas pelo Serviço Nacional de Saúde estão a ser suficientes para as necessidades da população?

MFV | Penso que neste aspeto funcionámos em contraciclo: as pessoas pediram ajuda e os profissionais deram uma resposta. O sistema está subdimensionado e, se for necessário quiser marcar, por exemplo, uma consulta de Psiquiatria num serviço especializado, provavelmente a segunda consulta terá lugar demasiado tempo depois. Ou se for preciso fazer uma psicoterapia, existem serviços de qualidade, mas que não tem capacidade para atender todos os utentes.

Em termos de cirurgias ou exames de ponta, temo-los em Portugal, sendo que, por vezes, não conseguimos é fazê-los em tempo útil. Mas, ainda assim, considero que os serviços de saúde mental tenham sido dos que fizeram esforços para dar a resposta tida por adequada.

JM | Comparativamente com o resto da Europa, Portugal está a dar as respostas necessárias, em situações de saúde mental?

MFV | Eu trabalho numa área muito específica, que é a área das dependências. Nessa área, acho que estamos à frente da Europa, em termos de teoria e prática de intervenção. Nós consideramos uma dependência uma doença, não consideramos um crime, nem um vício, nem um desvio, e, em termos de intervenção, o nosso modelo é muito aplaudido e até dado como exemplo. Mas, a nível geral, precisamos de ter muito mais estruturas intermédias, muito mais apoio para pessoas que, por virtude das suas doenças e em fases mais deteriorantes das doenças, não têm capacidade para ser autónomas e autossuficientes. E é aqui que existem algumas falhas, que temos de colmatar.

JM | E como deviam ser colmatadas?

MFV | Devíamos ter mais estruturas residenciais, por exemplo. Estruturas que permitissem uma autonomia tanto quanto possível das pessoas, onde existissem profissionais de saúde que as mantivessem ativas, para que pudessem suprir as suas dificuldades e melhorar a sua integração psicossocial.

JM | Relativamente à sua área de intervenção, considera que a pandemia veio aumentar os níveis de dependências?

MFV | Inicialmente, foi sentido que as pessoas estavam com medo de vir aos serviços, por isso tentámo-nos desdobrar em consultas online e atendimentos telefónicos, sendo estes para quem não dispõe de equipamentos para poder fazer consultas em vídeo.

É observável que as pessoas estão a ficar mais desprotegidas e a sofrer mais, sendo este um comportamento cujo aumento acontece habitualmente em situações de crise.

JM | E como antecipa o estado da saúde mental dos portugueses daqui a três meses?

MFV | Não conseguindo fazer previsões, acredito que as tensões tenderão a crescer. Estamos perante uma crise grave económica e social, o desemprego está a aumentar e as pessoas estão a começar a ter mais dificuldade em encontrar trabalho. Os níveis de stress estão a aumentar, pois os fatores sociais que contribuem para este tipo de patologias estão em crescimento. Esperamos que haja algum agravamento, mas iremos esforçarmo-nos para dar resposta a todas as situações.

Esta entrevista pode ser lida na íntegra na edição de novembro do Jornal Médico.

A mudança necessária
Editorial | Jornal Médico
A mudança necessária

Os últimos meses foram vividos por todos nós num contexto absolutamente anormal e inusitado.

Atravessamos tempos difíceis, onde a nossa resistência é colocada à prova em cada dia, realidade que é ainda mais vincada no caso dos médicos e restantes profissionais de saúde. Neste âmbito, os médicos de família merecem certamente uma palavra de especial apreço e reconhecimento, dado o papel absolutamente preponderante que têm vindo a desempenhar no combate à pandemia Covid-19: a esmagadora maioria dos doentes e casos suspeitos está connosco e é seguida por nós.

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