Uma oportunidade de ouro
DATA
29/01/2021 09:59:00
AUTOR
Nuno Jacinto
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Uma oportunidade de ouro

O ano que agora terminou foi sem dúvida atípico, fora do normal e certamente ficará para sempre na nossa memória individual e coletiva. Mas porque, apesar de tudo, há tradições que se mantêm, é chegada a hora de fazer um balanço de 2020 e perspetivar 2021.

Começando pelo lado negativo, o ponto incontornável é a pandemia Covid-­‐19. Ninguém estava nem podia estar preparado para algo com este impacto e dimensão. Fomos todos apanhados de surpresa por uma onda avassaladora de mudanças na nossa vida pessoal e profissional. Ficámos assustados e com medo, com mais dúvidas do que certezas, sem ter uma luz ao fundo do túnel que apenas agora se começa a vislumbrar de forma ténue. Mas no meio de todo este cenário, após o embate inicial podia e devia ter sido feito mais. Mesmo no contexto desta pandemia, não se observou o necessário e merecido investimento no SNS em geral e nos Cuidados de Saúde Primários em Portugal. E se isso não foi feito nesta altura em que, por força das circunstâncias, todos reconhecem a importância dos sistemas de saúde e dos seus profissionais, então não sei mesmo quando tal possa a vir a ocorrer.

Contudo, as grandes crises são também geradoras de oportunidades e fazem com que nos superemos a cada momento. Por isso, 2020 teve também os seus pontos positivos e logo em primeiro há que salientar a enorme capacidade de adaptação e espírito de missão dos profissionais de saúde, com especial destaque para os que trabalham nos CSP e muito em particular os Médicos de Família. Soubemos reinventar processos, encontrar novas formas de estar junto dos nossos doentes, encaixar múltiplas e novas atividades e solicitações numa agenda já de si preenchida. Estivemos e estamos na linha da frente do combate à pandemia e, dentro do que nos foi permitido, continuamos a acompanhar quem nos procurou com necessidades não relacionadas com a COVID-­‐19.

Merece também destaque o espírito de equipa que se desenvolveu nas unidades funcionais dos CSP, nomeadamente nas UCSP e USF. Ultrapassaram-­‐se divergências, esqueceram-­‐se horários, deu-­‐se um novo e verdadeiro significado ao conceito de intersubstituição.

Por fim, e não menos importante, é muito positiva a importância que se deu à promoção da saúde e prevenção da doença, com a ampla divulgação de conhecimentos e atitudes que continuarão a ser muito úteis mesmo quando deixarmos esta pandemia para trás.

Chegados a este ponto, importa projetar 2021 na área da Medicina Geral e Familiar, pelo que destaco três grandes eixos. Logo à partida, é fundamental criar as condições para que voltemos a ser Médicos de Família por inteiro e não apenas médicos de pandemia. Julgo que este é o grande desejo de todos os colegas e também dos utentes. Precisamos de aliviar a carga burocrática que nos aprisiona e nos impede de fazer aquilo que apenas nós sabemos e podemos fazer. Queremos voltar a ter tempo para acompanhar os nossos utentes / doentes da forma que merecem e precisam, em todas as suas vertentes. Temos de voltar a ter foco na medicina preventiva.

O outro grande desafio para o ano que se avizinha é vacinação pandémica: este vai ser o grande tema e centro das atenções no início de 2021. Temos de ser capazes de organizar todos os aspetos logísticos relacionados com uma campanha de vacinação diferente de todas as que tivemos até agora, sendo crucial garantir que identificamos de forma célere e segura todos os utentes que são elegíveis em cada uma das fases. Temos ainda de fazer uma gestão adequada e eficaz dos recursos humanos no que toca aos profissionais de saúde, de modo a assegurar que mantemos a restante atividade assistencial durante esta vacinação.

O terceiro ponto é o período pós-­‐pandemia:  acredito que, em 2021, seremos capazes de ultrapassar a pandemia Covid-­‐19 e, por isso, devemos já preparar o que faremos a seguir. Esta grande crise pode representar uma oportunidade de ouro para reformar o SNS, afirmando de forma clara a centralidade dos CSP e da MGF e a necessidade de reforço dos seus recursos materiais e humanos. Será também a altura para revisitar os modelos organizativos das unidades funcionais, a dimensão da lista de utentes, a formação pré e pós-­‐graduada, a investigação e as carreiras médicas.

Vivemos uma época de exceção e temos pela frente enormes desafios. Os Médicos de Família estarão, como sempre, junto dos seus utentes e a dar o seu melhor para, em conjunto, ultrapassarmos todos os obstáculos.

A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Joana Romeira Torres
A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
A Organização Mundial de Saúde alude que os Cuidados de Saúde Primários (CSP) são cruciais para a obtenção de promoção da saúde a nível global. Neste sentido, a Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA) tem estabelecido estratégias que têm permitido marcar posição dos mesmos na comunidade médica geral.

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