Nazli Sahafi: “A medicina personalizada é a bandeira” da Roche Diagnósticos
DATA
19/02/2021 09:28:45
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Jornal Médico
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Nazli Sahafi: “A medicina personalizada é a bandeira” da Roche Diagnósticos
A Roche Diagnósticos tem-se posicionado como “um dos principais parceiros das autoridades de saúde, a nível nacional e global”, com o desenvolvimento de mais de uma dezena de soluções específicas para o combate ao SARS-CoV-2. Em entrevista ao Jornal Médico, a diretora-geral em Portugal, Nazli Sahafi, mostra-se orgulhosa do papel da companhia “no desenvolvimento e na colocação no mercado de soluções de diagnóstico, num tempo extremamente curto, para ajudar a enfrentar o desafio de uma das crises de saúde sem precedentes dos últimos tempos”. Mas, porque a Saúde e o diagnóstico não se restringem ao novo coronavírus, salienta igualmente as principais inovações na área da diabetes e naquela que é a bandeira da Roche Diagnósticos: a medicina personalizada.

JORNAL MÉDICO (JM) | Num período de pandemia, o valor do diagnóstico é essencial. Qual foi a estratégia da Roche Diagnósticos, para desde o início estar em estreita colaboração com as autoridades de saúde portuguesas, através da disponibilização de testes moleculares no Serviço Nacional de Saúde (SNS)?

NAZLI SAHAFI (NS) | A estratégia da Roche Diagnósticos, a nível local e global, foi sempre a de colaborar com o governo, autoridades de saúde e outros parceiros da indústria de forma a contribuir para, em conjunto, envidar os melhores esforços para a melhor resposta contra esta pandemia.  

JM | A virologia, atualmente na berlinda devido à situação que o mundo atravessa, é apenas uma das facetas do amplo portefólio da Roche Diagnósticos no que diz respeito a soluções de diagnóstico molecular. Quais as outras áreas em que atua a este nível e em que medida são importantes no mercado nacional e global?

NS | A Roche Diagnósticos tem 18 centros de investigação, uma aposta que faz da companhia uma das empresas que mais investe em Investigação & Desenvolvimento (I&D) em todo o mundo. 

De acordo com um recente estudo internacional, mais de 70 por cento das decisões clínicas são baseadas no valor do diagnóstico, sendo que estas soluções são responsáveis por apenas dois por cento das despesas, ou seja, apenas esta pequena percentagem obtém investimento do Orçamento do Estado para a Saúde. Desta forma, o diagnóstico precoce é, efetivamente, essencial para a promoção da saúde, prevenção de várias doenças e seleção dos tratamentos adequados. Acreditamos que temos ajudado a aumentar a qualidade de vida das pessoas e, simultaneamente, contribuído para a sustentabilidade do setor da Saúde através de uma redução de custos inerentes à evolução da doença, ao proporcionarmos soluções de diagnóstico que permitem uma melhor gestão das patologias, através do desenvolvimento e disponibilização um portefólio inovador que contribui para transformar a forma como as doenças são diagnosticadas, monitorizadas, tratadas e até prevenidas.

Desenvolvemos o nosso trabalho em várias áreas, passando pelo diagnóstico molecular que tem duas ferramentas essenciais: os testes de PCR (reação em cadeia da polimerase) e a NGS (sequenciação de nova geração). Se o PCR é sobretudo utilizado na identificação de agentes infeciosos (ex. SARS-CoV-2), a NGS está a ganhar terreno na oncologia ao permitir a análise simultânea de painéis de genes ou assinaturas moleculares, suportando verdadeiramente a medicina de precisão. Outra inovação prende-se com a forma como se interpretam a marcação de biomarcadores em lâminas de tecido humano através da aplicação de algoritmos de inteligência artificial (IA) suportando a medicina de precisão em oncologia. O objetivo é melhorar a precisão e rapidez da interpretação diagnóstica que é fulcral para a decisão terapêutica. Ainda na área da oncologia, estamos a investir fortemente na biópsia líquida como forma de diagnóstico, mas sobretudo na monitorização precoce da recidiva. Não poderia também deixar de referir um investimento forte em ferramentas que suportam a medicina preventiva, quer através de biomarcadores, sistemas de point of care ou algoritmos de inteligência artificial (IA) com que estamos a ajudar a otimizar os rastreios oncológicos ou a melhorar a monitorização remota de doentes crónicos procurando, por exemplo, evitar internamentos desnecessários por insuficiência cardíaca.

Por último, destacar a área do Diagnóstico de Rotina Laboratorial, onde a inovação em robótica e sistemas analíticos que temos trazido contribuíram para um aumento da rapidez, eficiência e precisão analítica e onde o grande salto que estamos a operar se prende com a forma como vamos utilizar os milhões de dados gerados para alimentar ferramentas de IA na promessa de que o laboratório possa suportar ainda melhor as decisões clínicas e trazer ganhos em Saúde.  

JM | A diabetes é outra das áreas-chave da Roche Diagnósticos. Quais os mais recentes desenvolvimentos neste domínio e o que podemos esperar do futuro próximo em termos de desenvolvimento de sistemas de monitorização de glicemia e de gestão da doença?

NS | A monitorização é uma peça fundamental na gestão do perfil glicémico da pessoa com diabetes. É nesta área que acrescentamos um enorme valor no mercado, apresentando soluções integradas de gestão da diabetes para doentes e profissionais de saúde, desenhadas para que sejam simples, intuitivas e facilmente integradas no dia-a-dia de uma pessoa com diabetes e que contribuam para tomadas de decisão terapêuticas mais seguras por parte dos profissionais de saúde. Olhando para o futuro, a nossa ambição é ser pioneira na gestão integrada e personalizada da diabetes. Além de termos previsto lançar, em 2021, a primeira microbomba sem conjuntos de infusão, temos realizado uma grande aposta nas soluções digitais de que é exemplo a nossa recente plataforma digital – RocheDiabetes Care Platform –, uma solução que permite integrar dados de mais de 200 dispositivos de monitorização diferentes e que está preparada para integrar com os sistemas de registos de saúde da rede do SNS. Esta estratégia irá permitir aos profissionais de saúde uma abordagem mais holística, simplificada e personalizada da gestão da diabetes, com possibilidade de recorrer à telemonitorização e, desta forma, conseguir melhores resultados clínicos e melhorar a qualidade de vida da pessoa com diabetes. Esta é uma abordagem altamente diferenciadora neste mercado que até agora tem apostado em soluções digitais fechadas.

JM | Conscientes de que o teste diagnóstico influencia, em larga medida, as decisões clínicas, os médicos são, naturalmente, um dos principais parceiros da Roche Diagnósticos. Como é a vossa relação com a classe médica portuguesa? E como perseguem o objetivo comum de uma medicina cada vez mais personalizada?

NS | Ao longo dos anos temos vindo a fortalecer em Portugal a relação com a classe médica portuguesa, procurando ouvir estes profissionais, perceber as suas necessidades e encontrar soluções que os ajudem no seu trabalho diário. Os insights colhidos têm-nos ajudado a encontrar pontos de interceção entre a inovação que pretendemos trazer e a otimização da marcha diagnóstica. A medicina personalizada é uma das nossas bandeiras e estamos a olhar para a sua implementação sobre diversas perspetivas, tal como a identificação de biomarcadores moleculares ou digitais que ajudem a selecionar as melhores opções terapêuticas ou a monitorizar o efeito das mesmas após a sua administração. Estamos também, como já referido, a apostar em algoritmos de machine learning que auxiliam o trabalho de interpretação pelo anatomopatologista, melhorando a precisão diagnóstica e retirando mais informação prognóstica do tecido humano. Quero também reforçar que os nossos planos para a medicina personalizada não se limitam à área da Oncologia e estamos neste momento a trabalhar em soluções para outras áreas, como a Neurologia. Esta inovação só poderá chegar aos doentes através da estreita colaboração com a comunidade médica.

JM | Como perspetiva a evolução do mercado do diagnóstico em Portugal e a nível global? Quais intui que serão as tendências futuras?

NS | A pandemia provocada pela Covid-19 veio comprovar a importância fulcral que a área do diagnóstico tem na gestão dos cuidados de saúde. Só com uma identificação precoce, prevenção e modelos preditivos conseguiremos controlar o impacto das doenças e otimizar os recursos que o sistema tem disponíveis. Portanto, acreditamos que esta será uma área que continuará a crescer cada vez mais no futuro e esperamos que possa ser ainda mais valorizada, devido ao seu impacto e valor, tanto para o doente, como para o sistema de saúde como um todo.

A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Joana Romeira Torres
A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
A Organização Mundial de Saúde alude que os Cuidados de Saúde Primários (CSP) são cruciais para a obtenção de promoção da saúde a nível global. Neste sentido, a Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA) tem estabelecido estratégias que têm permitido marcar posição dos mesmos na comunidade médica geral.

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