Ana Luísa Neves: “É preciso que os médicos tenham conhecimento sobre cibersegurança”
O uso da telemedicina foi uma das ferramentas encontradas para, desde o início da pandemia de Covid-19, suprir as necessidades médicas de saúde das populações. A portuguesa Ana Luísa Neves é a coordenadora de um estudo liderado pelo Centro de Inovação para as Políticas de Saúde Global (IGHI, na sigla inglesa), que tentou perceber qual o impacto das de ferramentas tecnológicas no acompanhamento de saúde dos doentes, durante este último ano. Em entrevista ao Jornal Médico, a investigadora do CINTESIS alerta para a necessidade de acautelar os riscos de cibersegurança associados às tecnologias.

JORNAL MÉDICO (JM) | Como surgiu esta investigação do Imperial College of London, de que é a coordenadora principal?

ANA LUÍSA NEVES (ALN) | O estudo internacional inSIGHT (An International Survey evaluating the Impact of COVID-19 on the adoption of diGital Technologies in primary care) surgiu da observação da enorme transformação que se deu, nestes últimos meses, em termos de cuidados de saúde primários, mas também em cuidados de saúde no geral. Desde que começou a pandemia, nós não pudemos continuar com consultas presenciais como era habitual e, desde logo, percebemos que isso era uma ameaça, em termos de segurança, dos dados clínicos do doente.

De uma forma geral, entende-se por telemedicina tudo o que sejam consultas telefónicas, consultas por vídeo e, eventualmente, utilizando websites para triagem dos doentes.

O surgimento da pandemia foi o motivo principal que originou uma migração de parte dos cuidados presenciais para atividades de telemedicina, sendo que este tipo de conceito já existia anteriormente e, portanto, não era algo recente. Mas foi, de facto, a pandemia da Covid-19 que forçou vários médicos, em especial os especialistas de Medicina Geral e Familiar (MGF), a adotar novas medidas quase do dia para a noite.

JM | Quais foram as principais características que tiveram em conta nesta observação dos comportamentos médicos?

ALN | Nesta investigação, avaliámos essencialmente três pontos: em primeiro lugar, avaliámos a adoção de novas medidas, ou seja, qual foi a percentagem de médicos de família que de facto utilizavam o telefone, vídeo ou website, ou outro tipo de tecnologias. Em segundo lugar, qual era a perspetiva de cada um deles sobre o impacto na qualidade dos serviços prestados, portanto qual pensavam que tinha sido a consequência em termos da prestação de cuidados, tal como se estavam a conseguir chegar aos doentes de um modo acessível, se conseguiam resolver o que era necessário, se consideravam que houve desigualdades na prestação de serviços. O terceiro e último ponto avaliava quais eram as perspetivas futuras: como é que viam a utilização destas tecnologias e em que circunstâncias futuras é que entendiam que elas podem funcionar.

JM | Qual a amostra envolvida?

ALN | Normalmente, um dos problemas destes estudos online é o tipo de amostra que nos chega, mas, neste caso, fomos bastante bem-sucedidos, pois estamos perante uma amostra bastante diversificada.

Temos um total de 1535 respostas de 20 países. São indivíduos essencialmente, entre os 30 e os 70 anos. Cobrimos uma série de faixas etárias; com uma distribuição muito igual entre estas; algo muito interessante sobre esta amostra é que 60% são indivíduos que trabalham na cidade e 40% trabalham em meios rurais, ou seja, estes resultados representam uma população muito real.  Em termos de género, participaram no nosso estudo 60% de mulheres, 39% homens e 1% da amostra preferiu não responder.

JM | E quais foram os principais testemunhos dos especialistas de MGF relativamente ao uso da telemedicina?

ALN | Globalmente o aumento que se observou em termos de consultas telefónicas foi de aproximadamente 35%.

Mais de 60% dos médicos de família disseram-me que, no geral, sentiram que tinham tido um apoio razoável em termos de formação para lidar com este tipo de tecnologias, tendo considerado que era suficiente para utilizar a telemedicina. Também mais de 60% tiveram normas locais ou nacionais que, de alguma forma, os guiaram sobre se deveriam utilizar ou não a telemedicina. Também é importante dizer que apenas metade possuía algum tipo de orientação em termos de procedimentos de cibersegurança.

Poderá ser igualmente interessante falar das perspetivas futuras e, neste caso, posso dizer-lhe que mais de 70% dos médicos destes 20 países relataram que a experiência de utilizar telemedicina foi boa ou muito boa, o que é um feedback bastante positivo

JM | Ainda assim, quais foram os principais receios que os médicos de família demonstraram no uso da telemedicina?

ALN | Nós sabemos que, com a questão da pandemia, passaram a utilizar-se desde linhas telefónicas a plataformas digitais, que podem ser mais ou menos seguras. O telefone é, normalmente, uma forma de comunicação segura, mas em muitos países, como o Reino Unido, os Estados Unidos e a Austrália, os médicos foram aconselhados a utilizar Skype e FaceTime e é sabido que este tipo de tecnologias não é desenhado para os cuidados de saúde, pois não apresenta um standard de segurança esperado.

A cibersegurança é um fator muito importante e é preciso que os médicos tenham algum conhecimento nesta área, mas apenas metade dos participantes afirmaram que se sentiam seguros em relação aos seus conhecimentos e práticas de cibersegurança. Ora este é um problema quando utilizamos este tipo de tecnologia.

De uma forma geral, os três principais objetivos dos médicos de família, em matéria de telemedicina, são: em primeiro lugar, garantir a segurança e privacidade dos doentes; em segundo, garantir que os sistemas aplicados são adaptados ao utilizador; e em terceiro, tentar manter um diálogo aberto, de forma a envolver, quer os médicos de família, quer os doentes, no desenho e manutenção deste tipo de abordagens.

Crónicas de uma pandemia anunciada
Editorial | Jornal Médico
Crónicas de uma pandemia anunciada

Era 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de Pandemia por COVID-19 e a organização dos serviços saúde, como conhecíamos até então, mudou. Reorganizaram-se serviços, redefiniram-se prioridades, com um fim comum: combater o SARS-CoV-2 e evitar o colapso do Serviço Nacional de Saúde, que, sem pandemia, já vivia em constante sobrecarga.

Mais lidas