Rosa Castillo: “É fundamental que a MGF conheça a patologia vestibular e ajude no diagnóstico e tratamento”

“A Medicina Geral e Familiar é o primeiro contacto do paciente com o sistema de saúde, pelo que é fundamental que estes profissionais estejam preparados para conhecer a patologia vestibular e dar uma primeira ajuda no diagnóstico e tratamento dos pacientes”. Esta é a visão de Rosa Castillo, coordenadora do curso “A Vertigem e a Instabilidade Crónica na MGF”, que o CUF Academic Center promove a 13 de abril. Em entrevista, aborda o impacto no diagnóstico e acompanhamento de doentes com vertigens e a instabilidade crónica e a importância de um diagnóstico precoce.

Jornal Médico | Porque considera importante debater a Vertigem e a Instabilidade Crónica?

Rosa Castillo | A vertigem e instabilidade crónica são queixas frequentes da população em geral. São especialmente frequentes nos idosos à medida que o vestíbulo e os vários órgãos implicados na postura e equilíbrio envelhecem, aumentando o risco de queda e os internamentos por fraturas e traumatismos associados assim como a mortalidade. No entanto, também aparece em faixas etárias mais jovens: a cinetose, que é o enjoo de movimento, por exemplo, quando viajamos em transportes públicos ou de carro no sítio do passageiro, é, muitas vezes, motivo de consulta de jovens e até de crianças.

JM | Este evento é dirigido a médicos de Medicina Geral e Familiar. A especialidade é a porta de entrada para estes doentes?

RC | A MGF é o primeiro contacto do paciente com o sistema de saúde, pelo que é fundamental que estes profissionais estejam preparados para conhecer a patologia vestibular e dar uma primeira ajuda no diagnóstico e tratamento dos pacientes, conhecendo bem as linhas de referenciação para a especialidade.

JM | Quais são os sinais de alerta que devem conduzir à referenciação?

RC | Qualquer dúvida no diagnóstico deve ser sempre apoiada pela especialidade, pois um diagnóstico errado ou inconclusivo é péssimo nesta patologia, não só por agravar por vezes a situação funcional e psíquica do paciente, mas também porque pode tratar-se de um problema grave, por exemplo um tumor cerebral. O diagnóstico precoce deve ser o pilar na abordagem destes pacientes. Isto, por vezes, não é fácil, uma vez que temos mais de trezentas causas de vertigem e desequilíbrio, pelo que a interação com a especialidade torna-se indispensável para conseguir este objetivo. Neste aspeto, cabe salientar que a referenciação deve ser para o especialista dedicado à vertigem, ou seja, interessado na área de otoneurologia.

JM | A pandemia teve algum impacto particular no diagnóstico e acompanhamento destes doentes?

RC | Teve, sem dúvida, um grande impacto. Para começar, não sabemos se o próprio vírus SARS-CoV-2 provoca lesão no ouvido interno e vias vestibulares, mas vários estudos demonstram que sim. Depois, o confinamento a que a pandemia obrigou é um fator de agravamento da patologia crónica, pois o sedentarismo não ajuda na compensação de problemas vestibulares, e provoca, como é bem sabido, estados anímicos depressivos e ansiosos que também são, pela sua vez, fatores de agravamento e descompensação da patologia vestibular. Por outro lado, a pandemia afastou o paciente do médico, bem por desmarcação das consultas na primeira fase, mas também pelo medo do paciente de frequentar as Instituições de saúde, apesar de garantir as condições de segurança nas mesmas.

JM | Existem várias linhas de tratamento para a patologia vestibular. Esta abordagem é personalizada de acordo com a condição do doente?

RC | O tratamento é sempre personalizado e individualizado. Costumamos dizer que não tratamos doenças, mas sim doentes. Não é igual a exigência do tratamento a nível de equilíbrio de um patinador profissional, por exemplo, do que o de um paciente com vida sedentária. Não é igual tratar um paciente sem comorbilidades associadas do que alguém que apresente diversas patologias. Aliás, no caso concreto da reabilitação vestibular, o sucesso é dado em parte pela individualidade do tratamento.

JM | O evento apresenta um programa diversificado e com discussão de casos clínicos. O que podem esperar os participantes desta iniciativa?

RC | Podem esperar uma ação de formação prática e clara, na tentativa de aproximar a MGF à patologia vestibular crónica e à especialidade, com a exposição de casos clínicos das patologias mais frequentes. Poderão colocar as dúvidas e questões em tempo real na plataforma do webinar, ficando um espaço para a discussão no final das palestras. O webinar pretende ser uma ajuda e guia para abordar os pacientes com este tipo de problemas. Uma vez que a MGF é primeira linha no contacto destes pacientes com as Instituições médicas, a correta orientação dos mesmos faz a diferença entre o sucesso no diagnóstico e tratamento ou a falência da assistência e excesso no gasto público com consultas várias e exames desnecessários.

Um ano depois…
Editorial | Susete Simões
Um ano depois…

Corria o ano de 2020. A Primavera estava a desabrochar e os dias mais quentes e longos convidavam a passeios nos jardins e nos parques, a convívios e desportos ao ar livre. Mas quando ela, de facto, chegou, a vida estava em suspenso e tudo o que era básico e que tínhamos como garantido, tinha fugido. Vimos a Primavera através de vidros, os amigos e familiares pelos ecrãs. As ruas desertas, as mensagens nas varandas, as escolas e parques infantis silenciosos. Faz agora um ano.

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