Filipa Ceia: “A vitamina D tem um elevado potencial”

O calcifediol tem vindo a consolidar a sua presença como agente ativo na imunidade. A este propósito, o Jornal Médico promoveu recentemente o webinar “Calcifediol - o seu papel na imunidade”, com o apoio dos Laboratórios Vitória. Filipa Ceia, infeciologista no Centro Hospitalar Universitário de São João e membro da Sociedade Portuguesa de Infeciologia, oradora no evento, abordou a importância da vitamina D no combate às doenças infeciosas e explicou ao Jornal Médico como esta vitamina pode ajudar os doentes com Covid-19.

Jornal Médico (JM) | Portugal tem um número elevado de dias de sol. Há uma relação direta com os níveis de vitamina D na população portuguesa? Em que medida são suficientes para promover uma boa defesa infeciosa ou melhoria na resposta à infeção?

Filipa Ceia (FC) | A existência de muitos dias de sol não significa que a exposição solar da população seja a adequada, sobretudo nos horários em que a produção de vitamina D seria maior, ou seja, entre as 10h e as 15h. Vivemos todos maioritariamente dentro de edifícios e, quando fazemos atividades ao ar livre, fazemo-lo sobretudo ao final da tarde. É natural que a deficiência em vitamina D seja prevalente em Portugal, apesar das horas de sol de que dispomos.

JM | A vitamina D parece ter um alcance muito amplo em relação a várias doenças. Os suplementos podem ser uma boa ajuda para colmatar o défice da vitamina?

FC | Julgo que é conveniente manter níveis adequados de vitamina D na população. Creio que as soluções para alcançar este objetivo poderão ser mais abrangentes do que a suplementação e serão, com certeza e em tempo certo, um tema para discussão em programas de saúde pública.

JM | Considera que serão necessários estudos com amostras maiores para verificar com maior acuidade os efeitos dos estudos na resposta imune?

FC | Os princípios teóricos do papel da vitamina D na regulação imune são bem fundamentados. Considero que serão necessários mais estudos para avaliar o seu papel na prática clínica.

JM | Se a população for suplementada como um todo, isso poderá levar a um decréscimo de afluência aos cuidados de saúde primários pelos doentes com doenças respiratórias ou outras?

FC | Julgo que não poderemos afirmar que assim seja. Existe alguma evidência de que a vitamina D poderá contribuir para a redução do número de infeções respiratórias banais, mas de que forma isso terá impacto na procura de cuidados de saúde é um tema que precisará de ser mais explorado.

JM | De acordo com um dos estudos apresentados, a deficiência de vitamina D está associada a risco aumentado de Covid-19. No futuro, podemos evitar epidemias respiratórias se a população for suplementada com a devida antecedência?

FC | Creio que essa associação não é tão linear quanto o que propõe. As variáveis implicadas na emergência de uma nova infeção e na sua disseminação são muito mais complexas e multifatoriais. Em determinadas doenças, como a COVID-19, parece que níveis adequados de vitamina D podem ter um papel protetor, mas necessitamos de mais estudos para avaliar se esta associação se reflete numa relação de causalidade.

JM | O que gostaria de acrescentar sobre este tema?

FC | A vitamina D tem um elevado potencial de benefício teórico em diversas áreas e os estudos devem prosseguir para que, caso haja benefício, a possamos usar nos doentes certos e da maneira certa, quer a nível terapêutico, quer a nível preventivo.

Um ano depois…
Editorial | Susete Simões
Um ano depois…

Corria o ano de 2020. A Primavera estava a desabrochar e os dias mais quentes e longos convidavam a passeios nos jardins e nos parques, a convívios e desportos ao ar livre. Mas quando ela, de facto, chegou, a vida estava em suspenso e tudo o que era básico e que tínhamos como garantido, tinha fugido. Vimos a Primavera através de vidros, os amigos e familiares pelos ecrãs. As ruas desertas, as mensagens nas varandas, as escolas e parques infantis silenciosos. Faz agora um ano.

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