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Maria João Canas Saraiva: Diagnóstico e tratamento precoces são os desafios para os doentes com hipertensão pulmonar
DATA
03/05/2021 09:41:28
AUTOR
Jornal Médico
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Maria João Canas Saraiva: Diagnóstico e tratamento precoces são os desafios para os doentes com hipertensão pulmonar

Assinala-se esta quarta-feira, 5 de maio, o Dia Mundial da Hipertensão Pulmonar, no âmbito do qual a Associação Portuguesa de Hipertensão Pulmonar (APHP) lança a campanha “Heróis do Ar”. Em entrevista ao Jornal Médico, a presidente da associação, Maria João Canas Saraiva, alerta para a necessidade de tratamento e diagnóstico precoces.

Jornal Médico (JM) | Porque é que é tão difícil diagnosticar a hipertensão pulmonar? Quais as consequências para o doente?

Maria João Canas Saraiva (MJCS) | A hipertensão pulmonar é difícil de diagnosticar, porque os principais sintomas (como dispneia, desmaios, tosse, cansaço fácil, tonturas, edemas dos membros inferiores), são inespecíficos, dado que são comuns a várias patologias.          

O diagnóstico tardio atrasa o devido acompanhamento/estudo e a definição dos tratamentos adequados. Tratamentos esses que evitam a sobrecarga do coração e aumentam a tolerância ao esforço. Esta situação acarreta consequências na qualidade e esperança de vida a médio prazo.

É hoje possível que um tratamento precoce, que seja corretamente orientado, aumente a qualidade de vida dos doentes, controle os sintomas de baixa tolerância ao esforço e permita uma vida ativa a nível social, familiar e profissional. Para muitos doentes é possível prolongar a sobrevida.

JM | O que é que mudaria caso passasse a ser considerada uma doença crónica?

MJCS | Do ponto de vista clínico, a hipertensão pulmonar é uma doença crónica. No entanto, não consta da lista da Direção-Geral da Saúde (DGS), pelo que os doentes não têm isenção da taxa moderadora (exceto doentes com insuficiência cardíaca). É importante referir que existem ainda situações de constrangimentos ao nível da obtenção de Atestado Médico de Incapacidade Multiuso com os benefícios daí decorrentes.

JM | Quais os principais objetivos e a quem pretende chegar a campanha “Heróis do Ar”?

MJCS | A campanha tem como principais objetivos homenagear doentes e cuidadores, dar voz aos mesmos, sensibilizar a população em geral para a doença e os seus sintomas, e promover o diagnóstico precoce.

JM | Enquanto presidente da APHP, como é que tenta marcar pela diferença?

MJCS | Não sei se não é redutor e pretensioso usar a expressão “marcar pela diferença”. Enquanto cidadã e doente, procuro ser o mais proactiva possível, investigar sobre a doença e terapêuticas existentes, e ser colaborativa com a equipa de tratamento. Enfim, não me render à doença, procurando corresponder ao solicitado para que, através do uso adequado das terapêuticas e de diferentes estratégias, apoios e equipamentos, usufruir da qualidade de vida que os tratamentos proporcionam. Não sei se isto marca a diferença!

Gostaria de referir que ao longo de 21 anos de diagnóstico e, apesar da melhoria da esperança de vida, conheci muitos doentes que faleceram. Conheci também a realidade de países onde os pacientes não têm acesso às terapêuticas. Julgo que não podemos ser indiferentes a estas situações e, enquanto cidadã e doente, tenho um sentido e um dever de responsabilidade.

Mas, respondendo à questão, procuro transmitir esta forma de estar na vida, a responsabilidade e a ética, usando a experiência dos outros como motor de inspiração. Como uma vez disse um doente “não nos podemos render à doença”, julgo que somos mais do que a doença. Para além de doentes, somos pessoas. É esta mensagem que gostava de passar.

JM | A pandemia veio alterar o estado de quem tem esta doença?

MJCS | Penso que sim. Talvez ao nível mental e das relações laborais e da pouca proteção social que os doentes têm.  Existe receio por parte dos doentes em contraírem a doença, o que os leva a reduzir os contactos sociais e as saídas de casa.

As notícias sobre a Covid-19 e a situação pandémica nacional acentuaram a angústia e o medo. Em termos de acompanhamento aos doentes, os centros de tratamento continuaram a fazê-lo de forma presencial e por via telefónica, procurando estar junto dos doentes, identificar situações de descompensação e ou outras que necessitavam de deslocação aos hospitais e solução.

JM | Como é que os especialistas de MGF podem contribuir para a prevenção e gestão desta doença?

MJCS | A palavra prevenção não se aplica aqui, dado que a HP não pode ser prevenida. Os médicos de família podem, sim, contribuir para o diagnóstico precoce da doença, através da realização de exames e encaminhando os doentes/casos suspeitos para os centros de tratamento. Estes profissionais de saúde podem ainda gerir algumas situações terapêuticas mais especificas, solicitar análises, por exemplo, mas sempre sob a coordenação e supervisão dos centros de referência.

JM | A formação atual dos profissionais de saúde é suficiente para a deteção dos casos de hipertensão pulmonar?

MJCS | Se se referem aos centros de tratamento, ou aos hospitais centrais de forma geral, julgo que sim.

JM | Existe uma comunicação e colaboração entre os especialistas desta área e os médicos de MGF?

MJCS | Segundo a opinião de alguns especialistas, a comunicação e colaboração ainda não é perfeita. Muitos defendem que deve haver uma melhor articulação e diálogo entre os médicos de família e os especialistas dos centros de referência para a hipertensão pulmonar de modo a garantir o diagnóstico precoce e a referenciação para centros especializados e acompanhamento destes doentes.

Na minha opinião, a situação tem vindo a melhorar nos últimos anos, uma vez que as equipas dos centros de tratamento estão a trabalhar cada vez mais em rede, promovendo ações de formação e mais troca de conhecimento.

Crónicas de uma pandemia anunciada
Editorial | Jornal Médico
Crónicas de uma pandemia anunciada

Era 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de Pandemia por COVID-19 e a organização dos serviços saúde, como conhecíamos até então, mudou. Reorganizaram-se serviços, redefiniram-se prioridades, com um fim comum: combater o SARS-CoV-2 e evitar o colapso do Serviço Nacional de Saúde, que, sem pandemia, já vivia em constante sobrecarga.

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