Luís Bronze: “Sem os médicos de família, a luta contra a hipertensão estaria condenada ao fracasso”
DATA
14/05/2021 10:13:19
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Jornal Médico
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Luís Bronze: “Sem os médicos de família, a luta contra a hipertensão estaria condenada ao fracasso”

Em entrevista ao Jornal Médico, no âmbito do Dia Mundial da Hipertensão, que se assinala a 17 de maio, o presidente da Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH), cardiologista, diretor de Saúde da Marinha Portuguesa e investigador integrado do Centro de Investigação e Desenvolvimento do Instituto Universitário Militar (CIDIUM), Luís Bronze, destaca a importância dos especialistas em Medicina Geral e Familiar na gestão e acompanhamento da hipertensão. Alerta ainda para a necessidade de consciencialização e prevenção da patologia. 

Jornal Médico (JM) | Qual a importância de assinalar o Dia Mundial da Hipertensão?

Luís Bronze (LB) | A hipertensão arterial é largamente uma doença silenciosa. Eventos como este chamam a atenção para esta “epidemia” silenciosa, que queremos combater a todo o custo, já que tem consequências funestas, materializadas numa elevada mortalidade cardiovascular entre nós.

JM | Relativamente a este dia, como avalia o impacto das ações promovidas pela SPH? A prevenção continua a ser a chave no combate às doenças cardiovasculares, nomeadamente a hipertensão?

LB | A prevenção e a informação são, de facto, as principais armas contra a hipertensão arterial e contra a progressão das doenças cardiovasculares. Há que distinguir a prevenção primária e a prevenção secundária. A primeira tenta evitar o aparecimento da doença e promover o seu diagnóstico precoce. Já a prevenção secundária – tão importante como a primeira – refere-se ao controlo eficaz da entidade hipertensão arterial, doença crónica, e inclui medidas farmacológicas e não farmacológicas.

JM | Qual é o estado da arte no que toca à terapêutica da hipertensão?

LB | A terapêutica da hipertensão tem tido uma forte evolução, especialmente com agentes mais eficazes, não só no controlo dos valores absolutos da pressão arterial, como na redução do risco cardiovascular global. As recomendações internacionais, europeias e não só, apontam para o recurso cada vez mais generalizado a comprimidos que combinam mais do que um princípio ativo, usados cada vez mais precocemente e procurando reduções de pressão arterial mais sustentadas. Reconhecidamente, também, a terapêutica para a hipertensão arterial está economicamente mais acessível.

JM | Qual é a necessidade de consciencializar a população em relação à doença da hipertensão?

LB | Como afirmei atrás, trata-se de uma doença silenciosa. As consequências de não tratar a hipertensão ou de a tratar mal podem surgir décadas depois do seu início. Neste sentido, todo o trabalho preventivo de consciencialização é fundamental. Dito de outra forma, não se valoriza aquilo que se desconhece. Neste caso, como noutros na Medicina, a informação é tudo…

JM | Qual a prevalência da doença em Portugal? Está em concordância com a média europeia?

LB | A doença em Portugal é bastante prevalente. De acordo com o estudo PHYSA, publicado em 2014, em que também se avaliou o consumo de sal, como o suporte da Sociedade Portuguesa de Hipertensão, cerca de 40% de todos os adultos portugueses são hipertensos. A estimativa europeia é difícil de calcular, pois não só depende dos vários países, como da heterogeneidade dos seus serviços de saúde e mesmo dos seus registos. As últimas recomendações europeias, de 2018, estimam a prevalência da hipertensão arterial em cerca de 30-45% dos adultos. Neste sentido, Portugal está, digamos assim, com uma prevalência no quartil superior. A mesma publicação europeia avisa para um putativo incremento de prevalência na ordem dos 15-25%, até 2025. Para este dado, contribuem o envelhecimento das populações, a adoção de estilos de vida mais sedentários e o incremento generalizado de peso.

JM | Como é feita a ligação dos especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF) com os cardiologistas? 

LB | A hipertensão arterial é seguida, basicamente, por três especialidades: Medicina Geral e Familiar, Medicina Interna e Cardiologia. Alguns serviços de Nefrologia também se dedicam ao estudo da hipertensão, já que, como causa ou consequência, o rim é muitas vezes implicado na hipertensão. A grande maioria dos doentes é seguida pelo seu médico de família, que, quando assim considera, o referencia para um dos centros especializados, hospitalares. Estes podem incluir um ou mais especialistas, das áreas especificadas.

JM | De que forma é que os especialistas em MGF podem ajudar na gestão e acompanhamento da doença?

LB | Os médicos de família são fundamentais na gestão e acompanhamento da hipertensão. Por um lado, são, geralmente, os primeiros a diagnosticar os doentes, por outro lado, seguem os doentes durante um tempo prolongado, constituindo um suporte seguro, no que diz respeito ao tratamento e vigilância de um vasto número de hipertensos. Sem eles – ouso aqui afirmar – a luta contra esta pandemia estaria condenada ao fracasso. Há que perceber que os hospitais estão mais vocacionados para as doenças agudas ou para os casos mais complicados.

JM | Enquanto presidente da SPH, que marca gostaria de deixar no seu mandato?

LB | Gostaria que fosse um mandato próximo da população, sem descurar a componente científica, tão importante no combate a esta doença.

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

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