Aníbal Marinho: “Os colegas de MGF deverão estar atentos aos sinais de malnutrição”

A 19.ª edição do Prémio de Nutrição Clínica Fresenius Kabi, apresentada a 28 de maio, foi oportunidade para o Jornal Médico conversar com Aníbal Marinho, intensivista no Hospital de Santo António, que, entre outros tópicos, sublinhou a relevância do nutricionista no acompanhamento do doente malnutrido. Explicou também quais os sinais de alerta da malnutrição que os especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF) devem ter em conta para identificarem um doente com esta patologia.

Jornal Médico (JM) | O que constitui a malnutrição? O que é uma pessoa malnutrida?

Aníbal Marinho (AM) | A malnutrição, como sinónimo de desnutrição, define-se pela ingestão alimentar insuficiente para colmatar as necessidades nutricionais diárias. Assim, uma pessoa malnutrida come, diariamente, menos do que deveria, o que se traduz numa perda de peso involuntária. A malnutrição tem como consequências associadas o comprometimento da evolução clínica e da eficácia das terapêuticas farmacológicas, maior taxa de complicações e mortalidade, e diminuição da qualidade de vida.

JM | Quais as diferenças entre uma pessoa malnutrida e uma pessoa com excesso de peso?

AM | Uma pessoa malnutrida apresenta perda de peso involuntária, à custa da perda de massa muscular. Uma pessoa com excesso de peso apresenta um aumento da ingestão alimentar, em comparação com as suas necessidades nutricionais, tendo como consequência a acumulação de tecido adiposo para além dos níveis adequados.

Contudo, a malnutrição não afeta apenas pessoas com magreza associada. Está igualmente presente em doentes com peso normal ou excesso de peso e obesidade, como em idosos e doentes oncológicos que, pela diminuição da ingestão alimentar, desenvolvem este problema.

JM | Qual a probabilidade de recaída ou novo internamento por malnutrição?

AM | A malnutrição tem como consequências o aumento das complicações clínicas, designadamente aumento do número de infeções e desenvolvimento de feridas crónicas e fraturas, estando também associada ao declínio funcional, o que leva a uma maior necessidade de recorrer aos cuidados de saúde, aumentando significativamente o número de consultas e readmissões hospitalares. Um doente malnutrido apresenta, de facto, um maior período de internamento, representando custos duas a três vezes superiores a um doente bem nutrido.

JM | Quais as doenças que estão relacionadas com a malnutrição?

AM | A malnutrição, frequentemente designada como “malnutrição associada à doença”, está presente não só em doenças crónicas, mas, igualmente, em patologias de fase aguda. Apesar de existirem grupos mais suscetíveis, como o idoso, o doente oncológico, neurológico, com patologias gastrointestinais, hepáticas e renais, devemos rastrear todos os doentes para o risco de malnutrição e intervir em conformidade. Importa reforçar que a malnutrição afeta todas as faixas etárias e está presente independentemente do índice de massa corporal do doente, incluindo o excesso de peso e a obesidade.

JM | Numa informação para os colegas de Medicina Geral e Familiar, quais os sinais indicadores e/ou de alerta de um doente malnutrido?

AM | Existem ferramentas de rastreio nutricional validadas para a comunidade, que permitem identificar que o doente está em risco de malnutrição. Não obstante, os colegas de MGF deverão estar atentos aos sinais de malnutrição, como a perda de peso não programada, roupas/anéis largos, dificuldade em realizar as atividades do dia a dia (como subir escadas, carregar compras, locomoção), quedas frequentes com fraturas associadas e a perda de capacidade funcional.

JM | Qual a importância de ter um nutricionista no hospital para fazer avaliação nutricional do doente?

AM | É necessário assegurar uma adequada proporção de nutricionistas por número de camas/doentes em todas as instituições de saúde, incluindo as estruturas residenciais para pessoas idosas e similares. O nutricionista tem um papel relevante, uma vez que é responsável pela adequação do estado nutricional através da implementação de uma terapêutica nutricional individualizada.

JM | Relativamente ao Prémio de Nutrição Clínica Fresenius Kabi e dentro da informação que tem, prevê uma resposta considerável ao nível da investigação?

AM | Apesar de a malnutrição continuar a ser subdiagnosticada e subvalorizada devido, em grande parte, à falta de conhecimento científico, paradoxalmente verificamos que as equipas multidisciplinares revelam, cada vez mais, uma maior apetência pelo tópico da nutrição clínica. Acreditamos que iremos receber um número elevado de candidaturas, que já estão disponíveis e cujo prazo termina a 30 de setembro de 2021, dado constituir um prémio inovador, que distingue não só trabalhos de investigação já finalizados, no valor de 10.000€, como ainda gratifica, no valor de 5.000€, um trabalho de investigação a desenvolver. O regulamento e a ficha de inscrição podem ser consultados no site da Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica (APNEP) (em www.apnep.pt).

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

Mais lidas