Nuno Sousa: “Sabe-se que até 40% dos riníticos têm asma associada”
DATA
08/06/2021 10:34:31
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Jornal Médico
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Nuno Sousa: “Sabe-se que até 40% dos riníticos têm asma associada”

O coordenador do Grupo de Interesse em Rinite da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC), Nuno Sousa, sublinha que os tratamentos da rinite estão “relativamente tranquilizados”. O imunoalergologista considera que a colaboração com a Medicina Geral e Familiar tem sido positiva: “Os colegas estão atentos a esta patologia, sabem que ela existe, como se começa o tratamento e quando devem enviar estes doentes”.

Jornal Médico | Sendo a rinite uma patologia altamente prevalente, em que contextos surge e como se manifesta?

Nuno Sousa | Acontece em todas as idades, muitas vezes, começa cedo na vida, entre os cinco e os sete anos de idade. Outras, começa mais tarde, na adolescência e, em casos menos frequentes, na idade adulta, nomeadamente, algumas rinites típicas da idade adulta, inclusivr não alérgicas. A isto é o que as pessoas chamam tipicamente de alergias: é a comichão no nariz, o pingo, o espirro, e aqueles sintomas que são confundidos com constipações, fazendo parecer que a criança está sempre constipada, mas fora das alturas típicas. Alguém que tenha corrimento ou obstrução nasal recorrentemente é de suspeitar largamente de uma rinite.

JM | Considera que se trata de uma doença subdiagonisticada?

NS |É possível, certamente, pois há muitos doentes que não necessitam de terapêutica ou, pelo menos, de terapêutica invasiva, em que com um antiestaminico simples, sem receita médica, pontualmente, ficam bem. Muitas vezes, não é reconhecida pelos próprios doentes, nem pelos profissionais de saúde, porque em bastantes doentes, felizmente, é uma doença menor. Nos casos mais complicados, afeta muito a qualidade de vida, o desempenho escolar e laboral, levando a casos de acidentes provocados por pessoas que têm crises de espirros repetidamente.

Além disso, se tivermos uma rinite não tratada, os doentes não descansam bem durante a noite e, no dia seguinte, estão bastante sonolentos. 

JM | Que impacto tem a rinite na vida das pessoas que dela padecem? Esta patologia tem associação direta com outras doenças?

NS | Quanto maior é a gravidade, maior o impacto na vida. Nestas condições, hoje em dia,  por causa da Covid-19, muitos doentes alérgicos foram olhados de lado, com mais desconfiança.

A rinite está largamente associada à asma, sabe-se que até 40% dos riníticos têm asma. Portanto, esta associação, só por si, é extremamente importante, uma vez que, em todos os doentes com rinite, temos de procurar sintomas e/ou sinais de uma eventual asma, que, se for ligeira, pode passar um pouco despercebida. Outra patologia que os doentes se queixam é a enxaqueca.

JM | E o que nos dizem os dados epidemiológicos mais recentes? A incidência está a aumentar, encaixa-se na média europeia?

NS | Sim, parece que a incidência tem vindo a aumentar. Nós sabemos que a ocidentalização dos países acaba por levar a um aumento da patologia alérgica. Existem várias teorias sobre o porquê disso acontecer, não há uma certeza absoluta. Uma delas é que se pensa que, quanto menos se contacta com a terra – com pequenas viroses, com microorganismos que existem no exterior –, mais sensíveis nos tornamos às alergias. Com a poluição e com a ocidentalização a prevalência tem vindo a aumentar e estamos, agora, a nível de países ocidentais com uma incidência de rinite que ultrapassa os 10%.

JM | Há atualizações recentes no estado da arte do tratamento?

NS | Em termos de tratamento, estamos relativamente tranquilizados desde há uns anos. Temos uma medicação que funciona e que é largamente segura, portanto, estes doentes estão, regra geral, bem tratados. Só não estão bem tratados quando não cumprem, o que também é muito frequente. Os doentes riníticos e asmáticos são, tendencialmente, maus cumpridores. Mas temos medicação que realmente funciona e que é segura. Além disso, ainda existem as vacinas para as alergias, que é a imunoterapia específica, que, nos casos mais complicados, ajudam os doentes a tornarem-se menos alérgicos. Acaba por ser uma terapêutica à medida de cada um.

JM | Quais os principais desafios terapêuticos na abordagem do doente com rinite? Que fatores podem contribuir para um mau controlo da doença?

NS | É essencialmente o não cumprir da medicação, que é muito frequente. Há doentes que se vão sentido melhor e depois se esquecem de fazer o seu spray nasal. Depois, existem pessoas que não toleram nada no nariz e não são só as crianças, os adultos também. Sem dúvida, é mais complicado tratar este tipo de doentes, não pela gravidade, mas porque não cumprem a terapêutica.

JM | Como qualifica a atual ligação entre médicos de Medicina Geral e Familiar (MGF) e os imunoalergologistas?

NS |Eu acho que é uma colaboração que tem corrido bem, os colegas estão atentos a esta patologia, sabem que ela existe, como se começa o tratamento e quando devem enviar estes doentes. Dentro deste enorme número de doentes que têm rinite, existem alguns que necessitam de uma avaliação mais cuidada, exatamente porque têm muitos sintomas, uma vez que não estão controlados com a medicação normal. A colaboração tem sido cada vez maior e o interesse dos colegas de MGF por estas patologias é grande.

JM | Qual é o papel da SPAIC na sensibilização e promoção da informação sobre o tema?

NS |A SPAIC tem tido um papel muito importante, nesta divulgação de todas as patologias alérgicas. A começar, sem dúvida, pela rinite – embora tenhamos outras muito mais importantes, com maior impacto na vida das pessoas, como as anafilaxias, que são verdadeiramente graves e por vezes fatais e também as alergias medicamentosas. Tem existido um despertar das reações para este tipo de doentes com patologia mal esclarecida de uma reação alérgica a um determinado medicamento e, finalmente, parece que despertaram para esta problemática, havendo bastantes doentes com medo de uma reação à vacina. Considero que a SPAIC tem tido um papel muito importante e proativo no esclarecimento e na divulgação de todas estas patologias alérgicas, quer junto da MGF quer da população em geral.

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

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