Pedro Silva: A MGF e a Imunoalergologia “têm papeis complementares e simbióticos”
DATA
08/06/2021 10:38:24
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS




Pedro Silva: A MGF e a Imunoalergologia “têm papeis complementares e simbióticos”

“É fundamental que todos os médicos e, idealmente, a sociedade no seu conjunto tenham uma noção mais adequada e correta daquilo que é a doença alérgica”. As palavras são do coordenador do Grupo de Interesse em Cuidados de Saúde Primários da SPAIC. Em entrevista ao Jornal Médico, Pedro Silva releva a importância da ligação da Imunoalergologia com a Medicina Geral e Familiar (MGF).

Jornal Médico | Como qualifica a atual ligação da Imunoalergologia com MGF?

Pedro Silva | Têm papeis complementares e simbióticos, e além disso, felizmente, uma boa proximidade, que desejo mais aprofundada; ou, passe a redundância, ser ainda um pouco mais próxima. Penso que tanto médicos de Imunoalergologia, como de MGF, acompanhamos doentes de várias idades e, normalmente, esse acompanhamento é extensível às famílias; e assim acontece, porque a alergia, como doença genética, muitas vezes também afeta membros da mesma família. Portanto, experienciamos o mesmo tipo de proximidade familiar com os doentes e, com frequência, existe uma complementaridade do acompanhamento regular do médico de MGF e da integração do resto do quadro clínico com as particularidades do diagnóstico e do tratamento da alergologia; que, no fundo, é algo mais dentro do âmbito da especialidade, particularmente nas doenças mais graves. Considero que a nossa atuação é sinérgica, ao ser possível acompanhar melhor o doente quando é visto através dos olhos de duas especialidades; e penso que é próxima porque as especialidades têm tentado encontrar vários pontos de convergência, linhas de orientação comuns e proximidade de consultadoria de imunoalergologistas com os médicos de família. Reconhecemos que, por vezes, talvez haja alguma dificuldade em fazer chegar certa formação aos médicos de família em temas mais atuais. Nós, devo assinalar, SPAIC, temos tentado promover formações de qualidade dirigidas à MGF, de forma a capacitar mais os colegas para diagnosticarem e acompanharem corretamente a doença alérgica.

JM | Por via da ligação à MGF, há conhecimento sobre o aumento de prevalência em alguma patologia específica na população portuguesa?

PS | Houve uma altura em que existiu um aumento grande do diagnóstico de doenças alérgicas, que, embora atualmente menos expressivo, continua em curva ascendente. Aquilo que nós suspeitamos é que, quando o referido aumento começou a revelar-se, terá coincidido possivelmente, não só com um crescimento genuíno de casos, como com uma maior acuidade de diagnóstico e capacidade de diagnosticar as patologias. Provavelmente, não tínhamos assim tantos novos casos estávamos só a diagnosticá-los mais facilmente. Agora a noção que temos é de que, apesar dos meios atuais de diagnóstico, mesmo assim verifica-se um aumento na incidência de boa parte das doenças alérgicas, tanto respiratórias, a rinite e a asma, como a da alergia alimentar, alergia medicamentosa e eczema atópico. E por esta ser uma doença genética, é multigénica (o que significa que vários genes estão envolvidos) poderá ter um certo efeito no aumento do número de doentes alérgicos o simples facto de existirem os referidos genes na população.

JM | Os médicos de MGF são um canal privilegiado para passar a informação correta e cientificamente válida relativa às doenças alérgicas?

PS | Sem dúvida. Numa era em que maioritariamente as pessoas estarão alertadas para os perigos de desinformação na sociedade, entendo que a alergia ainda tem, junto de alguns setores, ama perceção quase mística e pouco científica. Nesse sentido, é fundamental que todos os médicos e, idealmente, a sociedade no seu conjunto tenham uma noção mais adequada e correta daquilo que é a doença alérgica, os seus riscos, as suas verdadeiras manifestações e quais os métodos mais apropriados para a tratar.

JM | Considera que já existem diferenças na escolha das opções terapêuticas entre os médicos de MGF e os imunoalergologistas?

PS | Não tem de haver. Pelo menos nos fármacos que estão disponíveis em farmácia de ambulatório, considero que todas as pessoas que queiram praticar a medicina baseada em evidência e que fundamentem a sua atuação de acordo com as linhas orientadoras e as recomendações atuais podem fazer o mesmo trabalho. As diferenças são, talvez, suscetíveis de se revelar dois níveis. Por um lado, temos os fármacos de utilização hospitalar; e, aqui, estamos a falar normalmente de fármacos de última linha para patologias crónicas graves, ou seja, fármacos biológicos desenvolvidos a partir de anticorpos monoclonais. Estes são fármacos que são anticorpos dirigidos a determinada estrutura do sistema imunitário de forma a modelá-la. Por outro lado, existe uma vertente em que a Imunoalergologia talvez se distinga mais, que é a utilização de imunoterapias com alergénios. Constitui um tratamento de dessensibilização, com o propósito de que o doente se torne menos sensível, menos alérgico a um determinado alergénio. Isto carece da identificação correta dos alergénios a que o doente está sensibilizado e, depois, da criação de um plano personalizado em que é entregue o mesmo alergénio a que o doente é sensível. Essa situação, tradicionalmente, tem estado mais na alçada da Imunoalergologia, e em parte também da Pediatria, Pneumologia, Otorrinolaringologia, especialidades que, por definição, prescrevem os tratamentos. 

JM | Sente que a área do conhecimento em doenças alérgicas tem sofrido um crescimento?

PS | Sim, felizmente, tanto em termos de diagnóstico, como de tratamento. Têm surgido avanços muito interessantes. A Imunoalergologia é uma especialidade relativamente recente em Portugal, desde 1983, apesar de a doença alérgica já existir há milénios. O facto de existirem melhores meios de investigação destas patologias permite um olhar mais atento à forma como o sistema imunitário funciona, se integra e de que forma se pode tornar doente. Esta evolução tem ajudado a que se identifique mais facilmente fenótipos distintos, padrões diferentes de doença. Depois, destaca-se a criação de medicamentos mais dirigidos, mais apropriados ao doente. Nesse aspeto, a Imunoalergologia é uma especialidade que está na vanguarda da investigação, por exemplo, da medicina dirigida ao doente e não tanto à doença. Portanto, nesse sentido, sim: são visíveis grandes avanços.

JM | Estamos em plena atividade de vacinação contra a COVID-19. As vacinas estão todas no mesmo patamar na possibilidade de desencadearem reações alérgicas?

PS | Ainda temos muito a saber em relação a este tema, porque, apesar de os mecanismos de farmacovigilância estarem a trabalhar bem, existe sempre uma discrepância significativa entre os dados acessíveis após análise e aquilo que está efetivamente a acontecer no dia a dia. Quando comparamos os dados que temos agora e, mais uma vez, os de “agora” são de há três meses… parecia que as vacinas de MRNA apresentavam mais frequentemente reações alérgicas do que as outras vacinas com o vetor viral. Contudo, é muito discutível se isso é realmente verdade ou não. Parece ser, mas podemos, perfeitamente, estar apenas perante uma aberração estatística.

JM | Como é que a SPAIC tem estado atenta e a recolher evidência científica no sentido de se preparar para eventuais manifestações alérgicas a uma escala maior na população portuguesa?

PS | A SPAIC tem várias modalidades, várias ações e todas elas complementares. Dito isto, não existe nenhuma atividade específica para essa tarefa. Na sua esfera de atuação, cabem, principalmente, a formação médica contínua com o objetivo de assegurar que os imunoalergologistas portugueses estão capacitados para ter o conhecimento científico mais atualizado e mais baseado em evidência possível; formação de internos, ou seja, formação pós-graduada dirigida a internos de Imunoalergologia, de forma a que, especialistas, estejam também eles capacitados para desempenharem um melhor trabalho; formação de outras especialidades criando pontes com outras especialidades, na perspetiva de, por um lado, conferir maior visibilidade à   Imunoalergologia e, por outro, para que  possamos partilhar experiências com os colegas das outras especialidades e vice-versa, de modo a estarmos englobados numa comunidade médica científica geral; depois, no âmbito das relações internacionais,  nós representamos os médicos portugueses em fóruns europeus; e por fim, ajudamos na criação de algumas ferramentas. Quando o Estado, através do Ministério da Saúde e da Direção-Geral da Saúde (DGS) decidiu implementar um plano de vacinação em massa consultou elementos da SPAIC para saber exatamente o material que era preciso para o caso de haver uma reação alérgica e quanto tempo os doentes têm de estar em vigilância. Nós não trabalhamos num oásis, nem no vazio. Nós aconselhamo-nos com colegas de outras especialidades.

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

Mais lidas