Miguel Vigeant Gomes: “A malnutrição é ainda subdiagnosticada em Portugal”

Em entrevista ao Jornal Médico, no âmbito da 19.ª edição do Prémio de Nutrição Clínica Fresenius Kabi, que mantém as candidaturas abertas até ao dia 30 de setembro, tem a palavra Miguel Vigeant Gomes. “A atribuição do prémio e da bolsa tem permitido que as equipas de investigação possam continuar a investir”, frisa o diretor médico da Fresenius Kabi.

Jornal Médico | Estamos na 19.ª edição do Prémio de Nutrição Clínica Fresenius Kabi, tendo, assim, atingindo a sua maioridade. Quais os saltos qualitativos da história desta iniciativa que gostaria de assinalar?

Miguel Vigeant Gomes | O Prémio Fresenius Kabi de Nutrição Clínica, criado em 2001, é atribuído anualmente e destina-se a premiar e distinguir trabalhos de investigação científica na área da nutrição clínica. Este prémio tem sofrido uma grande evolução nos últimos anos, constituindo uma das grandes apostas de investimento da Fresenius Kabi, em parceria com a Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica (APNEP). E é possível ver esta evolução tanto no aumento do número de submissões de trabalhos, como na ampliação do seu âmbito- anteriormente quase exclusivo a profissionais hospitalares, para o ambulatório, incluindo as instituições de apoio à terceira idade, permite agora que mais profissionais se possam candidatar e ser distinguidos pelos seus trabalhos científicos. A Fresenius Kabi tem reforçado muito o investimento no apoio científico e, por isso, aumentámos não só o valor do prémio, mas também criámos a categoria de bolsa, para projetos de investigação a desenvolver, para que mais profissionais de saúde e grupos de trabalho se sintam estimulados a apresentar as suas propostas.

JM | Como tem sido a vossa ligação às entidades científicas parceiras?

MVG | O Prémio Fresenius Kabi de Nutrição Clínica foi lançado em colaboração com a APNEP [Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica]. E desde o seu início que ambas as entidades partilham o objetivo comum de querer valorizar o papel da nutrição clínica e da integração da terapêutica nutricional no tratamento global dos doentes. Esta ligação muito sólida, desde sempre, tem sido crucial para o crescimento e amadurecimento do carácter científico deste prémio.

JM | A edição de 2021 tem como ponto de partida a malnutrição e o seu impacto são ainda desconhecidos em Portugal. Que razões podem justificar este desconhecimento? Como avalia o grau de conhecimento mesmo dentro da comunidade médica?

MVG | Efetivamente o desconhecimento ainda existe, pelo que a malnutrição é ainda subdiagnosticada em Portugal. Mas temos sido promotores ativos na formação dos profissionais de saúde, apoiando vários projetos conjuntos com a APNEP, na sensibilização para a importância de diagnosticar a malnutrição e implementar uma terapêutica nutricional individualizada. Sabemos que há um longo caminho a percorrer, principalmente na formação académica dos profissionais de saúde, em especial a comunidade médica; no entanto, acreditamos que já existem muitos profissionais que se interessam por esta área, procurando a diferenciação e valorizando a nutrição na sua prática clínica.

JM | Quais os equívocos sobre malnutrição que incentivam os experts a esclarecer?

MVG | Devido ao desconhecimento já assinalado, é habitual continuarem a existir vários equívocos que nos levam a investir no esclarecimento de inúmeros tópicos, que passam, desde logo, por muitos considerarem que a malnutrição não existe nos países desenvolvidos, estando associada à fome e pobreza dos países subdesenvolvidos. É também habitual considerarem que a malnutrição resulta da negligência dos cuidados de saúde, e por isso, muitas entidades tendem a desvalorizá-la. É importante sensibilizar e desmistificar. A malnutrição define-se pela diminuição da ingestão alimentar, com causas multifatoriais; que não permite que o doente consiga satisfazer as necessidades nutricionais diárias através da ingestão alimentar habitual. E que é possível, em muitos casos, reverter estes estados de malnutrição se agirmos precocemente.

JM | Esta edição distingue-se de que forma das antecedentes?

MVG | A 19.ª edição do Prémio Fresenius Kabi de Nutrição Clínica distingue-se das anteriores pela promoção mais ativa que estamos a fazer, com uma nova imagem, um novo mote e com o aumento do valor do prémio e da bolsa de investigação.

JM | Quantas candidaturas preveem receber de acordo com o histórico do Prémio?

MVG | Acreditamos que este ano iremos continuar a conseguir estimular o interesse dos profissionais de saúde, aumentando o número de candidaturas tal como tem acontecido nos últimos anos. Estamos muito satisfeitos com a evolução que temos tido e queremos, sobretudo, manter o nível de rigor e qualidade dos trabalhos que têm sido submetidos.

JM | Qual a composição do júri?

MVG | O júri será composto por seis elementos, dos quais quatro serão nomeados pela APNEP e dois pela Fresenius Kabi. O nome dos jurados será oportunamente anunciado numa cerimónia dedicada.

JM | O que vão ter em conta na escolha dos vencedores?

MVG | Podem candidatar-se profissionais de saúde que exerçam a sua atividade na área de nutrição clínica, e que cumpram com os requisitos estipulados no regulamento desta edição. Mas, em ambas as categorias, serão valorizados o carácter inovador e a excelência da investigação científica relativa ao impacto da terapêutica nutricional integrada no processo terapêutico do doente, quer em ambiente hospitalar, quer em regime de ambulatório. São também incentivadas as candidaturas que contemplem parcerias entre instituições de investigação, hospitais ou outras instituições de saúde nacionais.

JM | O Prémio visa contribuir para a atualização de conhecimentos na área da nutrição clínica. Como será posto em prática?

MVG | A atribuição do prémio e da bolsa tem permitido que as equipas distinguidas possam continuar a investir no desenvolvimento de mais projetos de investigação. E, pela nossa experiência, acreditamos que estes valores têm contribuído de forma significativa para dar continuidade e seguimento aos estudos premiados, estimulando a progressão da investigação nesta área.

JM | Há algum projeto ou estudo do qual se orgulha enquanto anterior vencedor deste Prémio?

MVG | Os trabalhos submetidos nos últimos anos têm apresentado uma elevada qualidade e excelência. É sempre muito complexo para todos os elementos do júri fazer a escolha dos trabalhos vencedores. E temos de agradecer a todos os jurados, mas em particular ao presidente do júri, o Prof. António Sousa Guerreiro, pela tarefa audaz de liderar as decisões finais de atribuição de ambas as categorias. Não posso negligenciar nenhum dos trabalhos submetidos em anos anteriores, pela pertinência, atualidade e rigor científico que apresentaram, pelo que teria de nomear todos os trabalhos candidatos.

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

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