Emília Magalhães: “Da ausência ao excesso de radiação solar podem surgir novos cancros de pele”

A Check-Up Virtual lançou, a 19 de maio, uma nova funcionalidade, que possibilita o agendamento de sessões de esclarecimento online com profissionais de saúde. Integrando nova plataforma, o Jornal Médico conversou com Emília Magalhães, enfermeira do Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO-Porto) e da Associação Enfermeiros de Dermatologia (APEDerma), para nos falar sobre o impacto do excesso de radiação solar e da importância da vigilância que permite um diagnóstico atempado do cancro de pele.

Jornal Médico (JM) | Estivemos muito tempo sem apanhar sol. E agora, com o início da época balnear, as pessoas vão passar do 8 ao 80, isto é, sujeitando-se, muitas vezes, a exposição solar intensa e prolongada. Em termos de mecanismos de defesa da pele, qual o impacto dessa sobrexposição?

Emília Magalhães (EM) | O impacto é bastante grande e, muitas vezes, quando passamos subitamente da ausência ao excesso de radiação solar, podem surgir novos cancros de pele, bem como o fotoenvelhecimento. É muito frequente a situação de carcinoma basocelular em pessoas que estão bastante tempo resguardadas e, de seguida, apanham com bastante radiação solar. Agora, importante é sair à rua, apanhar ar, sol mas com conta peso e medida e, acima de tudo, a horas de menor radiação.

JM | O melanoma é o tipo de cancro da pele menos frequente, mas o mais agressivo. A que se deve essa realidade?

EM | Há três grandes tipos de cancros de pele, o melanoma é o mais agressivo e o menos frequente, relativamente a todos os outros, mas se não detetado numa fase precoce, também é suscetível de resultar em situações bastante graves. Pode ser provocado por excesso de radiação solar, mas igualmente, há uma carga genética, traduzida em alterações a nível do DNA que podem ser originárias do melanoma.

JM | A partir de quando, com que regularidade e onde as pessoas devem fazer um check-up à sua pele para permitir um diagnóstico atempado?

EM | Enquanto enfermeira, o meu objetivo e missão é fazer campanhas de sensibilização o mais precocemente possível, começar até pelas escolas, sendo eles, os nossos jovens, os promotores da saúde; e até nós próprios, com ajuda de alguém verificando se temos sinais que vão alterando. O ideal seria fazermos anualmente, a nível da pele, um mapeamento, ou seja, um check-up, uma dermatoscopia. Na eventualidade de não ser possível, a opção é começar pelo médico de família e, se necessário, ser reencaminhdo para um centro de referência.

JM | Este tipo de cancro geralmente aparece em pele com antecedentes de queimaduras solares. Que outros fatores de risco devem ser considerados?

EM | Há situações que podem potenciar o seu surgimento, designadamente, pele clara, olhos claros, pessoas que dificilmente bronzeiam, mas que queimam com muita facilidade. É muito frequente no cancro de pele, no melanoma. Pode surgir também através de feridas que não cicatrizem; temos de estar bastante atentos, mas basicamente deve-se à grande carga névica, ou seja, pessoas com muitos sinais, suscetíveis de o desencadear.

JM | O cancro da pele pode afetar qualquer pessoa, em qualquer idade. Qual a faixa etária mais comum?

EM | Cada vez mais, pela experiência que tenho, está a aparecer em pessoas mais jovens, ronda os 20 e tal anos. Ainda há pouco tempo, apareceu-me um jovem em situação muito grave, com apenas 18 anos. Um característico de pele clara, olhos claros, que nunca bronzeia, mas que queima facilmente.

JM | Como avalia o impacto da pandemia na prestação de cuidados aos doentes com cancros de pele?

EM | Os cuidados pararam. E só agora estão a ser retomados, incluindo nos casos de melanoma. A pandemia teve más consequências para todas as patologias, inclusive, para o cancro de pele. Porque deixou de se exercer consultas, os centros de saúde basicamente fecharam, quase que não davam resposta. O que estamos a sentir, desde o mais recente desconfinamento, é a entrada de situações mais graves. Algumas, passe a redundância, agravaram-se com a pandemia. O que é que acontece? Houve contactos à distância, por email, por telefone, que aguardavam um feedback; e esse não foi dado atempadamente, gerando situações de lesões bastante grandes.

JM | Como se vai processar esta nova funcionalidade, e o que vai ser prestado às pessoas?

EM | Espero muitas pessoas a recorrerem a esta funcionalidade. Numa palavra, temos de trabalhar a nível da prevenção, isso é primordial. A prevenção deve ser o primeiro passo para minimizar as situações de cancros de pele. E com campanhas de sensibilização eficazes, tendo por suporte as mensagens-chave. A primeira das quais, insisto, é prevenir.

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

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