José Carlos Oliveira da Silva: “É necessário apostar na prevenção da doença cardiovascular em Portugal”

Na sequência da divulgação do documento Innovation and Healthcare Process in the Cardiovascular Patient in Portugal, promovido pela Ferrer Portugal, o Jornal Médico conversou com o diretor geral desta empresa farmacêutica. José Carlos Oliveira da Silva é perentório ao afirmar que este trabalho é a prova de que é preciso apostar na prevenção da doença cardiovascular no País. Assim como a adesão à terapêutica, defende que a literacia e um doente bem informado são umas boas armas contra a doença.

Jornal Médico (JM) | A Ferrer surge como o único promotor do documento “Innovation and Healthcare Process in the Cardiovascular Patient in Portugal”. Como surgiu esse envolvimento e associação ao estudo?

José Carlos Oliveira da Silva (JCOS) | A Ferrer Portugal esteve desde sempre envolvida e comprometida com a área cardiovascular. Este envolvimento passa não só pela disponibilização de soluções terapêuticas inovadoras e de grande valor que contribuem para melhorar a qualidade de vida das pessoas, mas também pelo compromisso que mantemos com os profissionais de saúde. Acompanhamos as necessidades dos profissionais de saúde e promovemos treino e formação médica contínua com o propósito de ajudá-los a desenvolver a sua prática clínica diária. Foi com este propósito que a Ferrer colaborou recentemente na criação do Think Tank a partir do qual se produziu o documento Innovation and Healthcare Process in the Cardiovascular Patient in Portugal, visando conhecer os desafios que os profissionais de saúde enfrentam no tratamento das doenças cardiovasculares; e, assim, podermos encontrar, em conjunto, medidas para ultrapassá-los e melhorar os cuidados de saúde cardiovasculares.              

JM | Das conclusões obtidas, quais as que chamaram mais a atenção da Ferrer?

JCOS | O grupo de especialistas envolvidos no documento Innovation and Healthcare Process in the Cardiovascular Patient in Portugal destacou que a gestão das doenças cardiovasculares no nosso país enfrenta vários desafios, entre os quais a “desigualdade no acesso à saúde”, muito relacionada com fatores geográficos e socioeconómicos, e a “fragmentação do sistema de saúde”, aliada à “falta de integração e comunicação” entre os Cuidados de Saúde Primários e Cuidados de Saúde Secundários, assim como entre os diferentes profissionais de saúde envolvidos na prestação de cuidados cardiovasculares. As dificuldades referidas pelos especialistas no que respeita ao planeamento estratégico do financiamento do sistema de saúde e a falta de estratégias de avaliação claras para a inovação são temas que me parecem também relevantes e sobre os quais nos devemos debruçar. A par da inovação terapêutica, que tem sido uma constante, o documento evidencia a necessidade de investir na prevenção da doença e de uma maior coordenação do próprio sistema de saúde e dos seus profissionais, que permita ao doente um percurso claro e multidisciplinar, orientado para respostas mais céleres. Este documento vem comprovar, uma vez mais, a necessidade de apostar na prevenção da doença em Portugal.

JM | A Ferrer trabalha há vários anos na área da Cardiologia. Quais as patologias em que estão mais focados, nomeadamente na área da prevenção?

JCOS | A nossa prioridade máxima centra-se na prevenção secundária de eventos cardiovasculares de origem aterotrombótica, com medicamentos que permitam uma melhor adesão terapêutica e conforto para os pacientes, o que se traduz finalmente numa menor morbilidade e mortalidade. Além disso apresentamos soluções terapêuticas em áreas relacionadas, como são as hipercolesterolemias, as hipertrigliceridemias e também numa patologia que por vezes é subvalorizada entre as três grandes da doença aterosclerótica, junto a coração e cérebro, como é a doença arterial periférica e a sua sintomatologia principal, a claudicação intermitente.

Tudo isto porque não podemos esquecer que as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em todo o mundo - estima-se que 75% dos casos de doenças cardiovasculares se deve a fatores de risco cardiovascular modificáveis. As estratégias de promoção da saúde e prevenção da doença devem ter em consideração as características da população portuguesa e alguns hábitos culturais muito enraizados. Mesmo com uma mudança de hábitos, há indivíduos que necessitam de tratamento farmacológico para ajudar a manter o controlo dos fatores de risco cardiovascular. Quando ocorre um primeiro evento, a gestão adequada destes fatores torna-se ainda mais importante, pois aumenta o risco de ocorrência de um segundo evento. Estima-se que cerca de 30% dos doentes sofre um segundo enfarte cinco anos depois do primeiro. Por esse motivo, é fundamental estabelecer um plano de prevenção destinado a reduzir o risco cardiovascular destas pessoas e é nesse sentido que as nossas soluções terapêuticas se encaminham.

JM | Qual a posição da Ferrer sobre a adesão à terapêutica?

JCOS | Uma das conclusões também apresentadas no documento Innovation and Healthcare Process in the Cardiovascular Patient in Portugal aponta como principais causas do encargo com as doenças cardiovasculares no País a falta de adesão ao tratamento, aliado ao estilo de vida, à inatividade física, ao consumo excessivo de sal e à prevalência da diabetes. A evidência tem-nos demonstrado que uma boa adesão à terapêutica está associada a taxas de mortalidade mais baixas e a baixa adesão está associada a um aumento da mortalidade entre os doentes, além de que a eficácia, segurança e relação custo-efetividade do tratamento instituído são garantidas desta forma. Por isso, a par do desenvolvimento de fármacos que possam contribuir para a adesão à terapêutica, também a aposta numa cada vez maior literacia deve ser uma realidade. Um doente informado e capacitado controla e gere melhor a sua doença; o que se traduz em menos encargos, melhor qualidade de vida para o doente e melhores resultados em saúde.

JM | As doenças cardiovasculares continuam a ter um grande peso para o Serviço Nacional de Saúde. Quais são as soluções da Ferrer para contribuírem para a sustentabilidade do sistema?

JCOS | Em Portugal, as doenças cardiovasculares estão entre as principais causas de morbilidade, mortalidade e incapacidade. E são a principal causa de morte entre as mulheres e a segunda entre os homens, apenas atrás do cancro. Além disso, no nosso País as doenças cerebrovasculares contribuem em maior número para a mortalidade do que a doença cardíaca coronária, em comparação com a maioria dos outros países europeus. Dado também o considerável impacto económico, social e cultural das doenças cardiovasculares, é inegável a necessidade de encontrar estratégias de promoção da saúde e prevenção da doença que permitam diminuir o impacto causado. Tendo as doenças cardiovasculares este peso na nossa sociedade em particular, a garantia de sustentabilidade do sistema de saúde como um todo é algo no qual temos vindo a trabalhar de forma incansável. Através das terapêuticas inovadoras que desenvolvemos e disponibilizamos, das parcerias que fomentamos e dos programas de formação contínua nos quais investimos, assim como em iniciativas como este Think Tank, procuramos encontrar soluções que possam ser implementadas no sentido de manter o sistema de saúde sustentável, melhorando os indicadores de saúde e a qualidade de vida dos doentes. Mais especificamente, este documento está a ser apresentado em eventos científicos nacionais e internacionais e será proximamente publicado um estudo que demonstra o custo de efetividade da polypill-CNIC e, consequentemente, acrescenta um “grão de areia” para a melhoria da sustentabilidade do sistema público de saúde no nosso país.

JM | Para além deste documento, que outros tipos de ações estão a pensar colocar em prática?

JCOS | Este documento é base para ações futuras. Os desafios por ele apresentados são direções nas quais temos o compromisso de continuar a apostar. Sem dúvida com investigação clínica em projetos multinacionais desenvolvidos pela Ferrer, incluindo centros de investigação que sempre se destacaram pela sua competência e entusiasmo científico. Além disso, é também nossa intenção continuar e até intensificar parcerias com as diferentes especialidades médicas e personalidades científicas relacionadas com estas patologias e que apontem estratégias multidisciplinares no conhecimento da prevenção cardiovascular.  Isto sem esquecer, como já foi mencionado, ações formativas e de colaboração continuadas não só com as diferentes sociedades médicas, mas também com entidades mais transversais como podem ser as associações de doentes.

JM | O que pode avançar em termos de investigação que esteja a ser feito por parte da Ferrer?

JCOS | Na Ferrer, consideramos a inovação inerente à nossa atividade farmacêutica. E mantivemos, desde sempre, o nosso compromisso com a procura e desenvolvimento de novas alternativas terapêuticas com o propósito de responder a necessidades médicas ainda não cobertas, gerando valor para o doente, para os médicos, para os sistemas de saúde e para a sociedade. À complexidade própria do processo de desenvolvimento de um novo medicamento e ao avanço exponencial do conhecimento científico, soma-se a chegada de um leque de novas plataformas tecnológicas, muitas disruptivas, capazes de trazer soluções a necessidades terapêuticas não respondidas. Tudo isto requer especialização e conhecimento em diferentes áreas, além das tradicionais do setor farmacêutico, e coloca o foco no desenvolvimento de produtos e serviços que respondam às necessidades dos diferentes atores do sistema de saúde. Atualmente, é evidente a crescente necessidade de assegurar a sustentabilidade dos sistemas de saúde a longo prazo, integrando uma visão mais holística da saúde. Por isso, a colaboração com todos os atores que integram o ecossistema de investigação é imprescindível, já que se torna impossível uma só organização integrar as diferentes tecnologias e áreas de conhecimento disponíveis atualmente. Além de que, neste novo contexto, é cada vez mais relevante a implicação dos diferentes interlocutores – profissionais de saúde, gestores e os próprios doentes – no processo de conceção e desenvolvimento de novas soluções terapêuticas.

Neste âmbito, a Ferrer deu início, há vários anos, a uma evolução a partir de um modelo baseado num centro de I&D tradicional para uma estrutura mais aberta, desenhada para potenciar e facilitar múltiplas colaborações num contexto dinâmico e flexível. O objetivo é aumentar a eficiência na produção de resultados e reconhecer a abertura à comunidade científica como única forma de nos tornarmos competitivos num mundo complexo e globalizado.

Esta colaboração é indispensável para a sustentabilidade do modelo de I&D da Ferrer. Através dele, as colaborações com terceiros produzem-se em toda a cadeia de valor da I&D: a análise das necessidades clínicas, a criação de soluções para dar resposta a estas necessidades com novas entidades terapêuticas – sejam químicas, biológicas ou digitais – as tecnologias associadas a macro dados e a inteligência artificial para acelerar e melhorar o desenho e execução dos nossos ensaios clínicos, assim como a personalização dos tratamentos e o desenvolvimento de novos modelos de negócio que nos permitam transformar as nossas capacidades e fortalezas.

Por tudo isto, a I&D da Ferrer centra-se na identificação de projetos de valor diferencial – estejam baseados na inovação incremental ou no seu valor disruptivo – pelo que renunciamos ao desenvolvimento de produtos genéricos e colocamos o nosso foco nas áreas terapêuticas que a companhia definiu como prioritárias: Neurologia e Doenças Pulmonares não Obstrutivas, como Hipertensão Pulmonar ou Doenças Pulmonares Intersticiais.

JM | Qual a atual ligação da Ferrer com a Medicina Geral e Familiar?

JCOS | A natureza de proximidade da Ferrer com os profissionais de saúde é uma realidade que faz parte do nosso dia a dia enquanto companhia farmacêutica e reflete-se nas relações sólidas que mantemos ao longo destes mais de 25 anos de presença em Portugal. Os médicos de Medicina Geral e Familiar têm um papel fundamental no processo e sucesso do tratamento do doente. Sendo quase sempre “a porta de entrada” nos serviços de saúde e atendendo à proximidade que mantém tanto com os doentes e as suas famílias, são profissionais-chave no percurso do doente, contribuindo, muitas vezes, para a tomada de consciencialização por parte do mesmo. Acreditamos na saúde como um todo e em que cada um representa um papel determinante. A natureza de proximidade da Ferrer reflete-se, além das ações de formação e programas que promove, nos vários canais de atendimento e comunicação que mantém ativos com os profissionais de saúde.

Investir na Saúde é também investir na Formação
Editorial | Carlos Mestre
Investir na Saúde é também investir na Formação

Em março de 2021 existia em Portugal continental um total de 898.240 pessoas sem Médico de Família (MF) atribuído, ou seja, 8,7% da população não tem um acompanhamento regular com todas as medidas preventivas e curativas inerentes ao papel do especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF).

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