José Canas da Silva: “É urgente criar uma Secretaria de Estado para a terceira idade”
DATA
30/06/2021 13:23:03
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS



José Canas da Silva: “É urgente criar uma Secretaria de Estado para a terceira idade”

No rescaldo do 14.º Congresso Nacional do Idoso, que decorreu a 31 de maio e 1 de junho, o Jornal Médico conversou com o presidente da Comissão Organizadora, José Canas da Silva.  O responsável, que fez um balanço “extremamente positivo” deste evento maior da “medicina do crepúsculo”, defende que o apoio aos mais seniores “precisa de ser melhorado a todos os níveis”, considerando também que “a questão da assistência aos idosos em Portugal necessita de ser colocada na agenda política”.

Jornal Médico (JM) | Quais foram os principais desafios que a Comissão Organizadora encontrou para “por de pé” este 14.º Congresso?

José Canas da Silva (JCS) | Os principais desafios estiveram obviamente relacionados com a crise pandémica que vivemos, com as dificuldades que nos impôs a todos, com a incerteza em sabermos se teríamos ou não de realizar um congresso  integralmente virtual. Felizmente, conseguimos montar uma estrutura híbrida, com participantes em sala e online, chegando, deste modo, a um número muito elevado de colegas. 

JM | Quais os valores que o movem nesta missão de presidente da Comissão Organizadora, uma vez que organiza este congresso há já 14 edições?

JCS | Essencialmente, o meu interesse em promover o Congresso Nacional do Idoso, advém do facto de ter tido a consciência – que é cada vez mais aguda - da necessidade de desenvolver mais este tipo de medicina, a “medicina do crepúsculo”, como lhe  chamava João Lobo Antunes, uma área que é difícil, eticamente e profissionalmente  mais exigente, pois implica cuidar e tratar de pessoas com grandes fragilidades e, por  vezes, com grandes dependências. Além disso, também sou parte interessada, uma vez que já sou idoso (risos), tendo gosto em contribuir com a minha capacidade e  conhecimento para um envelhecimento ativo. Considero, aliás, que muitos dos nossos  maiores encerram competências, qualidades, capacidades e brilhantismo que estão  para além da sua idade. Monet pintou alguns dos seus melhores quadros depois dos  80 anos, Beethoven compôs a sua 9.º sinfonia já com mais de 80 anos, o grande arquiteto americano Frank Lloyd Wright projetou o Museu Guggenheim de Nova Iorque  com mais de 80 anos… e temos alguns dos nossos maiores em Portugal, como Adriano  Moreira ou Walter Osswald, que com perto de 90 anos continuam a contribuir de uma  forma útil para a sociedade portuguesa.

JM | Qual o balanço que faz deste 14.º Congresso Nacional do Idoso?

JCS | O congresso foi um enorme sucesso! Isso mesmo foi demonstrado pela elevada taxa de participantes. Presencialmente, conseguimos juntar cerca de 200 participantes em sala e tivemos mais de 1200 que assistiram online, chegando desta forma a muitos médicos e todos os profissionais de saúde interessados. 

Estes números também demonstram que esta área do idoso representa uma necessidade premente na sociedade. É notório o enorme interesse dos médicos   de outros profissionais, nomeadamente dos enfermeiros, por esta área, até porque atualmente a prática médica em geral é dirigida, na sua grande maioria, para as pessoas com mais de 65 anos. Os médicos de família, os internistas, os cardiologistas, os psiquiatras, os reumatologistas, os pneumologistas e colegas de muitas outras especialidades lidam essencialmente com doentes idosos. Precisamos, pois, de ter um olhar mais atento a esta população, pois esta é uma tendência crescente e a nossa sociedade está cada vez mais envelhecida.

JM | Quais as sessões que destaca em termos de adesão e de interesse demonstrado pelos participantes? 

JCS | Todas as sessões foram interessantes. Mas, destaco, por exemplo, no primeiro dia do congresso, a sessão “Envelhecimento: Problemas e soluções”, pois versou sobre aspetos mais organizativos, como as respostas sociais, os cuidadores informais ou os cuidados continuados, questões vitais, mas que estão muito esquecidas pela maioria dos deputados da Assembleia da República. Continua a existir uma falta de proteção aos cuidadores informais, ao trabalho que realizam e também à sua for mação. Relativamente aos cuidados continuados, é evidente a necessidade de mais camas em Portugal, tal como para os cuidados paliativos. Na minha opinião, devíamos poder oferecer paliação a todos os portugueses que dela necessitem e, mesmo não sendo possível no curto prazo, é essencial construir uma máquina que seja capaz de  formar, de uma forma adequada, todos os que prestam cuidados, sejam continuados,  ou paliativos aos doentes com doença crónica e com idade avançada. Evidencio igualmente, a conferência de um dos maiores da medicina da terceira idade em Portugal, o Prof. Manuel Teixeira Veríssimo, que nos falou sobre o envelheci mento enquanto problema social eminente e emergente. Na verdade, somos o quinto país mais envelhecido do mundo e temos uma situação demográfica muitíssimo grave - morrem 110 mil pessoas e nascem 80 mil crianças por ano -, que nos vai arrastar para um enorme desequilibro social, económico e financeiro.

A prevenção das doenças respiratórias, o SARS-CoV-2 e, sobretudo, o que nos espera nos pós-Covid-19, foram também temas que despertaram bastante interesse. Aliás, sabemos que no futuro centenas de milhares de portugueses irão recorrer às consultas devido às sequelas de Covid-19, algo que impactará negativamente num SNS, que está a “rebentar pelas costuras” e  que necessita urgentemente de mais profissionais, maior qualificação dos profissionais e, essencialmente, que as promessas feitas ao longo de anos  pelo governo sejam realmente concretizadas, como é o caso da construção  do novo Hospital Oriental de Lisboa, do novo hospital em Évora, da melhoria  do Hospital Garcia de Orta, da construção de um hospital no Seixal e da construção do novo hospital de Beja. 

No segundo dia do congresso foram também discutidos assuntos muito importantes, como é o caso das comorbilidades, que hoje em dia são a regra nos idosos, e a requalificação das Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas. Considero mesmo que uma parte do dinheiro da “Bazuca” Europeia deveria ser utilizado na requalificação dos equipamentos sociais para os mais idosos, que além do mais criaria seguramente mais emprego, nomeadamente no interior do país. 

JM | Em termos gerais, o que pensa da assistência ao idoso em Portugal?

JCS | Em primeiro lugar, considero que esta crise pandémica pôs a descoberto um aspeto que já sabíamos ser verdade: a muito maior vulnerabilidade dos mais idosos, dos mais pobres e dos mais isolados, que foram os que mais adoeceram e mais morreram. A solidão, o desamparo, o isolamento social, a discriminação face à doença, as dificuldades pessoais e financeiras, a ausência da família e dos amigos foram alguns dos elementos que, genericamente, foram mal avaliados e mal estimados pelos nossos governantes. 

Em termos gerais, penso que a questão da assistência aos idosos em Portugal necessita de ser colocada na agenda política. A medicina na terceira idade no nosso país diz respeito diretamente a 2 milhões e 200 mil portugueses e também a todos os que têm responsabilidades e familiaridade próxima com estes idosos, mas, em termos práticos, poucas têm sido as ações concretas. Por isso, considero que é urgente criar uma Secretaria de Estado para a terceira idade. Num País com mais seniores do que jovens, é lógico que há muito deveria estar criada. Estes cuidados precisam de ser melhorados, em muitos aspetos, não só do ponto de vista da assistência médica, mas inclusivamente do apoio social que os idosos em Portugal não têm e deveriam ter. Um país civilizado necessita de olhar para a terceira idade de outra forma. Poder-me-ão dizer que é mais fácil falar do que fazer. Mas, é preciso verificar que quem tem responsabilidades políticas nesta área também não tem falado e, portanto, se não fala, não prevê e não planeia, se não leva à prática o que até agora foi já legislado, é óbvio que necessita de ser corrigido.

Por outro lado, é também essencial que sejam formadas equipas multidisciplinares capazes de tomar a seu cargo o importante desiderato de cuidar dos seus mais seniores. Ajudar aqueles que por várias razões precisam de profissionais especializa dos requer empenho, conhecimento técnico, científico, competência, algo que exige tempo, determinação, financiamento e exige implicação por parte dos políticos, tudo o que não se vê. 

JM | Qual o balanço que faz em termos quantitativos e qualitativos dos posters entregues?

JCS | Gostaria de destacar o envolvimento dos jovens médicos e dos jovens internos, não apenas da Medicina Geral e Familiar, especialidade que tem vindo a ganhar um grande ímpeto em Portugal (saliento a presença neste congresso do presidente da APMGF, o Dr. Nuno Jacinto), mas também de outras especialidades, que entregaram cerca de 170 posters, oito dos melhores apresentados em comunicações orais, e que atingiram um enorme relevo científico. Além disso, tivemos pela primeira vez posters e trabalhados oriundos do Brasil, o que para nós foi de enorme agrado, uma vez que perspetivamos, no futuro, realizar um trabalho conjunto com os nossos colegas geriatras e interessados pela terceira idade no Brasil (que está muito avançado nesta área – na formação, na criação de centros geriátricos), bem como com outros colegas dos países irmãos de língua portuguesa, como seja Cabo Verde, Guiné, Angola, Moçambique e Timor. 

JM | Já existe data e local para o próximo congresso?

JCS | Sim, o 15.º Congresso Nacional do Idoso irá ter lugar no próximo ano em Coimbra, nos dias 2 e 3 de junho, e iremos, sobretudo, abordar aspetos da formação, relacionados com a necessidade de programarmos cada vez mais a formação médica continuada nesta área. Pensamos, inclusive, poder vir a interessar várias organizações médicas nesta área, que estão neste momento a ser contactadas. 

JM | Qual a importância dos simpósios neste congresso?

JCS | Os assuntos debatidos nos simpósios foram de grande interesse para a medicina em geral e, em particular, para os interessados nesta área da medicina do idoso.  Estiveram na ordem do dia temas como a vitamina D, a hipertensão, a dislipidemia, a diabetes ou a osteoporose, todos com a participação de oradores de elevada qualidade e que contribuíram para uma maior atualização científica.

JM | Que mensagem deixa aos colegas da comissão científica e organizadora e participantes?

JCS | Espero que continuem a levar avante os ideais da medicina em geral e, obviamente, da medicina por grupo etário e, neste caso, dos mais seniores, sempre com a ideia de que sozinhos não somos nada, somos um grão de areia, e que muitos e juntos seremos uma força importante. Aliás, há um provérbio sul-africano que aprendi no congresso que diz “se queres ir rápido vai sozinho, mas se queres ir longe leva pessoas contigo”.

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

Mais lidas