Ana Joaquim: “A sociedade ainda não está bem alerta para o cancro da cabeça e pescoço”

O Dia Mundial do Cancro da Cabeça e Pescoço, que se assinala a 27 de julho, é tema que interpela a reflexão de quem domina a matéria. Desde logo, a médica oncologista do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho e presidente do Grupo de Estudos do Cancro da Cabeça e Pescoço (GECCP), Ana Joaquim. Em entrevista ao Jornal Médico diz que a sociedade ainda não despertou para a realidade desta doença. Razão pela qual sublinha bem a importância de um diagnóstico precoce e os principais sintomas a ter em consideração.

Jornal Médico (JM) | O cancro da cabeça e pescoço engloba um conjunto de outras doenças oncológicas afetando estas duas zonas. O que releva, de facto, nesta ponderação?

Ana Joaquim (AJ) | Habitualmente, quando falamos do cancro da cabeça e pescoço estamos a referir-nos aos tumores das vias aerodigestivas da cabeça e pescoço (cavidade oral, oro, naso e hipofaringe, laringe, cavidade nasal e seios perinasais), os quais partilham fatores de risco e/ou modalidades terapêuticas. No entanto, de forma mais lata, o cancro da cabeça e pescoço também inclui o cancro da tiroide e o cancro da pele da cabeça e pescoço.

JM | Qual é a necessidade de consciencializar a população em relação a este cancro?

AJ | Só no grupo dos tumores das vias aerodigestivas, são diagnosticados, por ano, em Portugal, cerca de 3.000 pessoas. É uma doença de fácil deteção dado o fato de, quase sempre, causar sintomas; no entanto, mais de metade dos novos casos é diagnosticada já em fase avançada. Isto significa que a sociedade ainda não está alerta o suficiente. E daí a pergunta: porque será tão importante chamar a atenção das pessoas? Acontece que, quando é diagnosticada precocemente a doença, o tratamento é local (cirurgia ou radioterapia) e a probabilidade de cura é de cerca de 80 a 90%. No caso da patologia avançada, o tratamento é multimodal, mais agressivo, com maior risco de sequelas e com uma probabilidade de cura que desce para cerca de 50%.

JM | Quais os principais sintomas a ter em conta?

AJ | São sintomas comuns a outras doenças das vias aerodigestivas da cabeça e pescoço, nomeadamente: feridas/aftas, lesões vermelhas ou brancas da cavidade oral, disfagia, odinofagia, disfonia, escorrência nasal com sangue, em particular unilateral, e massas cervicais. Sendo queixas comuns a vários problemas de saúde frequentes e de características benignas, é importante saber quando procurar ajuda. A chave está na persistência dos sintomas. Se as queixas perdurarem durante três ou mais semanas, então é altura para ir ao médico.

JM | Qual a idade mais suscetível de aparecimento? E quais os fatores de risco associados?

AJ | A maior parte dos casos é diagnosticada entre os 50 e os 70 anos, embora possam afetar indivíduos mais jovens e, também, indivíduos mais idosos. Num registo que supera 70% dos casos, os fatores de risco são a exposição crónica ao fumo do tabaco e ao álcool. E, especificamente para o cancro da orofaringe, temos a infeção ao vírus do papiloma humano [HPV], que é uma doença sexualmente transmissível – de resto, este fator de risco tem vindo a adquirir maior importância ao longo dos anos. Existem outros fatores com alguma associação aos tumores das vias aerodigestiva da cabeça e pescoço, designadamente próteses dentárias mal-adaptadas (para cancro da cavidade oral), má higiene oral e imunossupressão. Por fim, a infeção ao vírus Epstein-Barr [VEB] é fator de risco para o cancro da nasofaringe (mais frequente na população asiática). Estando a cabeça e pescoço expostos ao sol, é importante lembrar que a exposição desadequada à radiação ultravioleta, sem medidas de proteção (como chapéu e protetor solar), está associada ao aumento do risco de cancro da pele, como o melanoma.

JM | Existe algum tipo de prevenção?

AJ | Sendo o cancro da cabeça e pescoço causado, maioritariamente, por fatores de risco modificáveis, a principal forma de prevenção é a evicção desses mesmos fatores, nomeadamente o tabagismo e a ingestão crónica de bebidas alcoólicas.  Em relação à infeção pelo HPV, com a vacinação disponível nas meninas e meninos, pensa-se que os números de cancro da orofaringe associado a este vírus irão diminuir.

JM | Qual o estado de arte em termos de terapêutica? E qual a taxa de cura neste tipo de cancro?

AJ | Na doença localizada e na doença localmente avançada, os tratamentos têm intuito curativo. Enquanto que na doença localizada é um tratamento unimodal (de cirurgia ou radioterapia), na doença localmente avançada é um tratamento multimodal, que inclui cirurgia e/ou radioterapia e/ou quimioterapia. A probabilidade de cura, no caso da doença localizada, é de cerca de 80 a 90%, diminuindo para cerca de 50% na doença localmente avançada. Na doença metastizada, a terapêutica tem um objetivo paliativo, de aumento da sobrevivência e, também, da qualidade de vida, e passa por tratamentos sistémicos – de quimioterapia associada a anticorpos, imunoterapia associada, ou não, a quimioterapia. Com os avanços nos tratamentos sistémicos, a sobrevivência mediana tem vindo a aumentar substancialmente, atingindo, nos estudos mais atuais, cerca de dois anos. Nas situações em que existe hemorragia ou dor incontrolável, poderá também ser considerada a radioterapia paliativa. Na doença avançada, o acompanhamento simultâneo por cuidados paliativos é fundamental para a otimização dos sintomas e da qualidade de vida dos doentes e seus cuidadores.

JM | Tendo em conta que a cabeça e pescoço são áreas expostas, que tipo de sequelas quer a doença, quer o tratamento podem deixar?

AJ | Uma vez que as áreas afetadas pelo cancro da cabeça e pescoço estão envolvidas em várias funções vitais, como a respiração, a fala e a deglutição, existem sequelas relacionadas.  Alguns doentes vivem traqueostomizados, tendo que adquirir novas estratégias de comunicação. São vários os casos em que se consegue readquirir a fala com recurso a próteses fonatórias. Existe, também, a possibilidade de ser necessário ter um suporte para a alimentação – ou sonda nasogástrica ou gastrostomia percutânea de alimentação – o que poderá ser temporário ou definitivo. A terapia da fala tem um papel importante no reensino da deglutição de forma a promover a alimentação pela boca. Para além destas questões, a perda de peso e o descondicionamento físico são efeitos dos tratamentos, mais frequentemente se multimodais, no caso da doença localmente avançada. Assim, a reabilitação assume particular importância, idealmente de início precoce, antes mesmo do percurso terapêutico. É, também, relevante a atuação a nível da vertente cognitiva, psicológica e social, de modo a reintegrar estes doentes na sociedade, promovendo hábitos de vida saudável e a evicção dos hábitos nocivos, como o tabagismo e o etilismo.

JM | Como avalia o papel dos especialistas em Medicina Geral e Familiar na referenciação, gestão e acompanhamento da doença?

AJ | Considero que os médicos de família têm um papel fundamental na educação da população sobre os hábitos de vida e, também, na deteção precoce da doença, contribuindo para a prevenção e para o tratamento atempado das situações. A partir do momento em que os doentes iniciam a sua jornada terapêutica, os médicos de família devem estar desde logo incluídos. E para que esta jornada decorra da melhor forma, as várias doenças devem ser abordadas e controladas (como os fatores de risco cardiovascular, ansiedade, depressão, entre outros) e realizada regularmente a reconciliação terapêutica. Após a conclusão dos tratamentos, os médicos de família mantêm o seu papel fundamental de gestão da saúde, em conjunto com o próprio doente e família.

JM | De que forma o GECCP pretende assinalar esta data e que medidas de consciencialização para a doença tem levado a cabo?

AJ | Por ocasião do Dia Mundial do Cancro da Cabeça e Pescoço, o GECCP estará presente em várias iniciativas mediáticas, conjuntamente com sobreviventes da doença, tanto a nível da televisão como da imprensa, visando contribuir para uma maior sensibilização da população –com enfoque tanto na importância da prevenção e deteção precoce, como na vida após a doença e os seus tratamentos. Também nesse dia, irá realizar-se um webinar sobre a patologia, destinado à população geral, com médicos especialistas de várias áreas de diagnóstico e terapêuticas (oncologista, otorrinolaringologista, radioncologista) e uma sobrevivente de cancro oral. Será de acesso livre e está a ser organizado em parceria com o jornal Público e com a Merck. Decorrerá às 19h do dia 27, com uma duração prevista de uma hora, acessível na página do Facebook do GECCP e, também, na plataforma Público. Por fim, nesse mesmo dia, pretendemos anunciar a Make Sense Campaign 2021, iniciativa europeia de sensibilização e comunicação sobre a doença, a decorrer na semana de 20 a 24 de setembro, à qual o GECCP adere há vários anos, e que contará com várias ações a nível nacional.

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Editorial | António Luz Pereira
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