Vasco Barreto: “A MGF estará entre os principais referenciadores para a Unidade de Diagnóstico Rápido”

A atribuição das Bolsas “Mais valor em Saúde – Vidas que Valem”, iniciativa que reconhece projetos apresentados por entidades do Serviço Nacional de Saúde (SNS), proporcionaram ao Jornal Médico o encontro com Vasco Barreto, um dos vencedores e coautor do projeto “Unidade Local de Saúde de Matosinhos — Unidade de Medicina de Proximidade — UMP”. O diretor do serviço de Medicina Interna e chefe de Equipa do Serviço de Urgência do Hospital Pedro Hispano — ULS de Matosinhos revela-nos que a bolsa conquistada permitirá pôr em prática uma componente-chave da proposta apresentada a concurso: a Unidade de Diagnóstico Rápido (UDR). Uma nova realidade em que Vasco Barreto antevê os especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF) como referenciadores de primeira linha.

Jornal Médico (JM) | O que levou à criação do projeto “Unidade de Medicina de Proximidade” (UMP)?

Vasco Barreto (VB) | Globalmente, a população tem vindo a envelhecer, com acumulação de comorbilidades, o que cria uma grande pressão sobre o sistema de saúde. No plano hospitalar, a urgência e o internamento não são suficientes, e muitas vezes nem sequer adequados para responder às necessidades destes doentes. Tem vindo a tornar-se evidente a importância de desenvolver respostas alternativas ao modelo assistencial clássico, assentes em estruturas ágeis de ambulatório, com facilidade de acesso, e permitindo libertar o internamento para as situações agudas que não possam ser manuseadas noutro contexto. Na ULS de Matosinhos, temos vindo a desenvolver alguns projetos deste tipo, como a Equipa de Suporte a Doentes Crónicos Complexos [ESDCC], que reduziu francamente o número de episódios de urgência e o número de dias de internamento dos doentes abrangidos, e a Unidade de Hospitalização Domiciliária [UHD], que tem conseguido deslocar algumas situações de internamento hospitalar para o domicílio dos doentes, sem perda de segurança ou de qualidade.

JM | O que caracteriza a Medicina de Proximidade?

VB | Medicina de Proximidade é um conceito que abre caminho aos cuidados centrados no doente e na integração de cuidados. O que se pretende é que não seja o doente a ter de percorrer um complexo itinerário entre episódios desgarrados (consultas de diferentes especialidades, meios complementares de diagnóstico, idas à urgência), mas, em oposição, que sejam articulados cuidados de saúde em torno das suas necessidades, com diálogo entre níveis de cuidados (primários e hospitalares) e entre as diferentes profissões intervenientes no processo assistencial (enfermagem, nutrição, diferentes especialidades médicas).

JM | No plano dos objetivos traçados, o que espera acima de tudo deste projeto?

VB | O nosso principal objetivo é tornar a prestação de cuidados na ULSM mais eficiente, com menor recurso ao internamento convencional e ao serviço de urgência. E deslocar o centro de atenção do hospital para o doente, reunindo equipas multidisciplinares em torno de processos assistenciais progressivamente mais personalizados.

JM | Relativamente à “Unidade de Diagnóstico Rápido” (UDR), quais as suas vantagens e fatores diferenciadores?

VB | Há uma percentagem dos nossos internamentos hospitalares que é ocupada por doentes com situações de investigação diagnóstica. São 10 a 15% dos nossos episódios de internamento. Estes doentes apenas são internados porque necessitam de uma investigação rápida, que habitualmente o ambulatório não permite. Se conseguirmos retirar estes doentes para o ambulatório, isto pode representar menos cerca de 5000 dias de internamento por ano, o que representa importantes reduções de custos, aumento da segurança e da satisfação dos doentes.

JM | Quais os critérios de referência para um doente usufruir de uma UDR?

VB | Os critérios de referenciação ainda não estão completamente definidos, mas deverão incluir algumas situações com necessidade de investigação rápida, como suspeitas de doença oncológica ou alguns problemas cardiovasculares (quadros constitucionais, adenopatias, metástases de origem desconhecida, algumas anemias, algumas insuficiências cardíacas, entre outras).

JM | Deve existir uma colaboração coordenada entre várias especialidades. Qual o papel dos especialistas em MGF neste projeto?

VB | Os colegas de MGF poderão ser uns dos principais referenciadores para a UDR. Nos cuidados primários, por vezes surgem situações preocupantes, que os colegas hesitam entre referenciar ao serviço de urgência ou à consulta externa convencional – algumas delas vão passar a ser orientadas para esta nova valência. Quanto à participação da MGF na UMP em geral, ela será essencial, uma vez que um dos princípios fundamentais da Medicina de Proximidade é precisamente a integração de cuidados, neste caso a integração vertical entre níveis de cuidados (primários e hospitalares), com definição conjunta de planos integrados de cuidados e verdadeira partilha de decisões clínicas.

JM | A pandemia afetou a prestação de cuidados de proximidade?

VB | Tal como aconteceu com os cuidados médicos em geral, também os cuidados de proximidade foram afetados. Nos cuidados primários, os colegas de MGF têm sido sobrecarregados com tarefas que os desviaram da atividade assistencial direta, o que prejudicou muito o acompanhamento dos doentes crónicos e mesmo de doentes agudos não urgentes. Em muitos locais do país, as equipas de hospitalização domiciliária interromperam a sua atividade. Muitas consultas hospitalares, incluindo as modalidades mais versáteis como a CRP ou as consultas abertas, foram limitadas a modalidades não presenciais. E, sobretudo, a atenção dos decisores desviou-se da inovação, para se concentrar na resposta à COVID-19, o que fez quase paralisar o desenvolvimento de novos projetos. Tenho esperança de que, melhorando o cenário da pandemia, surjam novas oportunidades para projetos inovadores como o nosso. Talvez a crise sanitária tenha tornado mais visível quanto os recursos humanos do SNS são insuficientes para todos os desafios que se lhe colocam. Uma política de contratação menos restritiva e uma maior autonomização das Unidades de Saúde nas contratações poderão impulsionar um caminho de melhoria de que precisamos muito. Tanto em benefício da qualidade do SNS, como da criação de valor em saúde para os nossos doentes.

JM | Existem projetos futuros em desenvolvimento?

VB | Neste momento, o principal novo projeto que pretendemos desenvolver é a UDR. No entanto, o conceito completo da UMP inclui: a ESDCC, a UHD, a UDR, a Consulta de Reavaliação Precoce — CRP (para reavaliação a curto prazo após alta do SU ou do internamento), um conjunto de consultas abertas diferenciadas e uma estrutura capaz de acomodar procedimentos técnicos de ambulatório com possibilidade de recobro prolongado, incluindo pernoita, como a colocação de pacemakers definitivos ou algumas técnicas de hepatologia.

Se os jovens Médicos de Família querem permanecer no SNS e se o SNS precisa deles, o que falta?
Editorial | António Luz Pereira
Se os jovens Médicos de Família querem permanecer no SNS e se o SNS precisa deles, o que falta?

Nestes últimos dias tem sido notícia o número de vagas que ficaram por preencher, o número de jovens Médicos de Família que não escolheram vaga e o número de utentes que vão permanecer sem médico de família. Há três grandes razões para isto acontecer e que carecem de correção urgente para conseguir cativar os jovens Médicos de Família.

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