Nuno Amândio: “Há uma perceção melhor do público geral sobre o colesterol”

O especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) no Hospital CUF Porto constatou, em entrevista ao Jornal Médico, que as pessoas estão mais conscientes em relação à doença do colesterol. Nuno Amândio alerta, no entanto, para o facto de ainda existir uma desvalorização relativamente à alimentação a adotar. Entre outras notas que ressaltam desta conversa, estão as orientações que os especialistas em MGF devem seguir para despistar o colesterol, na própria consulta médica.

Jornal Médico (JM) | Na sua opinião, os portugueses estão melhor informados sobre o que é o colesterol? E a que doenças está associado?

Nuno Amândio (NA) | O colesterol é essencial à vida. É utilizado na produção de determinadas hormonas, na digestão de gorduras e desempenha um papel vital na manutenção de células e tecidos saudáveis. O nosso corpo não poderia funcionar sem ele e por isso é capaz de o produzir na quantidade que necessita. Mas também adquirimos colesterol de vários tipos de alimentos. Nem todo o colesterol é igual e níveis elevados são prejudiciais à saúde, aumentando o risco de doença cardiovascular e cerebrovascular. Houve sem dúvida um progresso no investimento em educação pública na última década. Há uma perceção melhor do público geral sobre o colesterol. A população está mais consciente e compreende melhor a relação entre doença e estilos de vida inadequados, mas denota ainda alguma dificuldade em ligar os diferentes pontos. Ainda há algo a fazer para alcançar os benefícios potenciais para a saúde através da modificação adequada dos fatores de risco. Para a maior parte dos portugueses é importante ter um nível de colesterol adequado. No entanto, a grande maioria desconhece o seu perfil lipídico, desconhece quais os valores desejados, subestima-o e/ou não sabe que medidas adotar para manter níveis adequados.

JM | Uma análise ao sangue é o bastante para aferir os níveis de colesterol num indivíduo. Em que medida este teste se deve tornar uma prática rotineira na saúde dos portugueses e que pessoas o devem fazer com maior frequência?

NA | Não há verdades absolutas na medicina clínica. A ciência evolui cada vez mais a um ritmo alucinante. A prática clínica muda constantemente para fazer face à evidência científica, a qual se tem vindo a regenerar a cada 7-10 anos. A ênfase deve ser sempre adequada ao doente e ao caso em questão. Devemos garantir que médico e doente tenham discussões abertas e bem informadas sobre um qualquer tópico. Na maioria dos casos, uma análise ao sangue é o suficiente para determinar o perfil lipídico de um doente. A frequência com que essa análise deve ser feita é determinada de acordo com a literatura/evidencia e em função do doente (a idade e os seus fatores de risco). Doentes com comorbilidades e antecedentes importantes (hipertensão, diabetes e outros), estilos de vida inadequados (tabagismo, etc.), sob medicação, com maior probabilidade de desenvolver doença (risco cardiovascular, por exemplo) ou outros (antecedentes familiares, designadamente), podem ter de controlar o seu perfil lipídico de forma mais frequente.

JM | Hoje a preocupação com o estilo de vida (alimentação e exercício) é mais transversal do que acontecia há décadas. E nos órgãos de comunicação social há uma disseminação sem precedentes de informação sobre estas temáticas. Assim, considera que o padrão de doentes com colesterol tem vindo – ou pode vir – a alterar-se?

NA | Temos hoje em dia meios de aquisição de informação, que, apesar de muito úteis, devem ser criteriosamente utilizados. A escassez de informação que governou grande parte da nossa história deu lugar a um excesso de opiniões, referências e comunicações que têm de ser interpretadas com lucidez e raciocínio. As mesmas estão frequentemente abertas a influências externas que comprometem em algumas situações a sua veracidade. A alimentação é uma indústria que movimenta milhares de milhões de euros todos os anos. A falta de informação, desinformação e/ou informação inadequada ainda existe apesar dos vários esforços das diferentes entidades governamentais e outras sociedades para que assim não seja. No geral, o público está mais consciente da relação entre determinados estilos de vida e problemas para a saúde. O conceito de que colesterol alto é prejudicial para a saúde está presente na grande maioria da população. Agora, como ligar isso ao quotidiano e à prática do dia a dia, quando a maior parte das pessoas não sabe ao certo o que escolher ou não lê a composição dos alimentos que compra?! Os médicos têm uma posição privilegiada para melhorar a informação e educação do público sobre o colesterol, dadas as oportunidades frequentes para transmitir mensagens e a recetividade para as receber. É importante a classe médica ser capaz de dar conselhos adequados, responsáveis e sustentáveis. Essa será, porventura, a base para a mudança. A adoção mais generalizada de dietas e estilos de vida saudáveis ​​têm o potencial de produzir reduções dramáticas na incidência de determinadas doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, reduzindo a morbidade, a mortalidade e a carga económica associada ao seu tratamento.

JM | Há novas modas alimentares que podem induzir o aumento do colesterol para as quais é necessária uma maior atenção e alerta?

NA | A sensação com que tenho ficado nos últimos cinco a seis anos é a de que, de uma forma geral, a população percebeu os benefícios associados à adoção de um estilo de vida mais ativo. E, assim, tem adotado diferentes formas de exercício físico como parte do seu quotidiano semanal – combatendo o sedentarismo. No entanto, existe ainda desvalorização e pouca ou insuficiente preocupação/atenção com a alimentação. E quando a mesma está presente, ela é inadequada. Dietas desequilibradas, caracterizadas por uso excessivo de alimentos processados e refinados, com consumo marcado de carnes e carboidratos, reduzido (ou ausência de) aporte de vegetais e fruta fresca é parte intrínseca da realidade atual da nossa sociedade. Os alimentos processados e refinados são todos aqueles (alimentos de prateleira e outros) que são submetidos a processos especiais para sua conservação e que oferecem maior rentabilidade aos produtores, porque aumentam o tempo de semivida do alimento (se não é vendido hoje...). Os carboidratos, por exemplo, são a principal base da nossa dieta e, por sua vez, a principal fonte de calorias. O açúcar deixou de ser um luxo (nos últimos 200 anos) para ser uma das fontes mais baratas de carboidratos –  tudo graças ao refinamento. A farinha, também ela refinada, vê as suas qualidades nutricionais serem alteradas, e com ela se faz o pão. Um produto processado ou refinado perde um fator muito importante, a relação dieta-nutrientes, e apresenta uma grande quantidade de substâncias como aditivos, corantes, conservantes e intensificadores de sabor que não são benéficos para o nosso corpo. A dieta é mais do que um fator determinante. Mas uma dieta saudável vai para além daquilo que comemos e inclui o que vemos, o que lemos, ouvimos, aquilo que falamos, pensamos e fazemos. É a atenção que dedicamos à nossa maneira de estar. A procura de soluções rápidas (fast-food) e baratas (artigos processados de prateleira) é muito frequente nas modas alimentares recentes e levam a uma ingestão excessiva de calorias provenientes de fontes ricas em gorduras saturadas, gorduras trans, excesso de proteína animal, açúcar refinado ou substitutos igualmente prejudiciais, em que os vegetais, fruta, fibras e, como tal, as vitaminas e os minerais se destacam pela sua ausência. Isto leva, entre outras consequências, a um perfil lipídico desadequado e a vários problemas de saúde. Deixamos de ser nómadas e de nos alimentar de vegetais, frutas e sementes para vivermos sentados e optar por enlatados e empacotados. Não deixa de ser peculiar o facto de, em determinados meios, a prática de exercício físico estar intrinsecamente ligada a comportamentos alimentares de risco. Em que se promove o consumo exagerado de suplementos proteicos, reduzindo o consumo de carboidratos. Isto resulta na elevação do colesterol porque as pessoas, cortando os carboidratos, consomem mais proteína e gorduras. O equilíbrio é essencial, assim como as fontes onde se vão buscar os principais nutrientes. Encontro muito frequentemente, na minha prática clínica, doentes extremamente ativos com perfis lipídicos completamente desadequados à idade e ao suposto estilo de vida saudável. E assim acontece porque, acima de tudo, uma coisa não compensa a outra. A alimentação é fundamental e não deve ser ignorada. Não é uma tarefa fácil – quando o nosso paladar já está habituado a determinados sabores é muito difícil mudar de hábitos. Mas o paladar treina-se e nós gostamos de comer o que mais frequentemente comemos. 

JM | Através de que tipo de questionário deve o clínico, nomeadamente o especialista de MGF, orientar a sua consulta para despistar o colesterol? E qual o tratamento a adotar em primeira linha?

NA | Os médicos usam diretrizes diferentes para decidir quando uma pessoa deve fazer um teste de colesterol. No geral as recomendações devem sempre ser adequadas ao doente em específico, e fundamentadas numa história clínica e exame físico adequados, já que vários aspetos devem ser tidos em conta antes de formular uma proposta de orientação. A determinação do risco cardiovascular é importante da mesma forma que é importante perceber a história familiar, o estilo de vida e os antecedentes do doente. O médico saberá, deste modo, avaliar as circunstâncias e aconselhar sobre quando é recomendável realizar um teste de colesterol. Na sua generalidade, toda a literatura recomenda alterações no estilo de vida como forma primordial de controlar o colesterol. A adoção de hábitos de vida saudáveis e a evicção de consumos nocivos ajudam a manter o colesterol em níveis adequados. Parar de fumar eleva o HDL e diminui o risco de doenças cardiovasculares. O uso moderado de álcool tem sido associado a níveis mais altos de HDL, mas os benefícios não são suficientemente fortes para recomendar a ingestão de álcool a quem ainda não bebe. Se há uma ingestão habitual, esta deve ser feita com moderação. O excesso pode causar sérios problemas de saúde. Exercício físico regular, 30 minutos de intensidade moderada, quatro a cinco vezes por semana, e cuidados alimentares, ajudam a baixar o colesterol e a manter um peso corporal apropriado. É crucial adotar comportamentos alimentares saudáveis e responsáveis. O mesmo pode passar por reduzir a ingestão de gordura saturada e de gordura trans.  Em vez de assar ou fritar, optar por opções mais saudáveis como grelhar ou cozer. Também é crucial aumentar a ingestão de frutas, vegetais e fibras. Uma dieta saudável deve incluir uma mistura de pelo menos 30g de fibra (pão integral, cereais integrais, nozes, sementes, frutas e vegetais como feijão, ervilha e lentilhas, são disso exemplo), já que, entre outros benefícios, ajudam a diminuir o colesterol. O médico deverá aconselhar quanto ao uso ou não de terapia medicamentosa, discutindo benefícios e possíveis efeitos adversos associados ao uso de um qualquer fármaco. As estatinas são medicamentos frequentemente usados para este propósito. A sua toma está recomendada em doentes com doença cardíaca coronária ou outra patologia cardiovascular, ou cujo histórico médico pessoal ou familiar sugere que provavelmente irão desenvolvê-la nos próximos 10 anos (determinado através do cálculo do risco cardiovascular). É natural que optar por mudar para uma dieta responsável exige mais esforço do que tomar um medicamento diariamente. Significa expandir a variedade de alimentos que coloca no carrinho de compras e habituar-se a novas texturas e sabores. Uma dieta rica em frutas, vegetais, peixe, fibras, feijão e nozes vai para além da redução do colesterol. É a base de uma vida saudável.

JM | Em que medida podem ser objeto de preocupação baixos níveis de HDL? Em que casos pode ser necessária terapêutica farmacológica?

NA | Em relação ao colesterol HDL, a literatura tem vindo a apoiar sustentadamente a associação entre níveis elevados e menor risco cardiovascular. Até certo ponto, as pessoas que apresentam níveis naturalmente mais elevados de HDL têm menor risco de padecer de enfarte agudo do miocárdio e/ou acidente vascular cerebral. É menos claro se esse mesmo benefício é verdadeiro nos casos em que são utilizados fármacos para elevar o HDL. Ao contrário do LDL, os ensaios clínicos de vários medicamentos projetados especificamente para aumentarem os níveis de HDL não mostraram efeitos na redução do risco cardiovascular. Níveis baixos de HDL cursam normalmente com vários fatores que afetam de uma maneira geral a saúde (nível socioeconómico, estilos de vida, problemas de saúde, etc.) e que são eles próprios impulsionadores de vários tipos de doenças. De referir que as pessoas que naturalmente têm níveis de HDL extremamente altos (acima de 100 mg/dL) parecem ter um risco acrescido de doença cardíaca (provavelmente por fatores genéticos). Neste atual contexto, antevê-se improvável que seja útil a abordagem farmacológica apenas e só com o intuito de corrigir ou aumentar o HDL. A coisa mais importante a fazer é adotar comportamentos alimentares saudáveis e responsáveis e um estilo de vida mais ativo, já que os mesmos ajudam a elevar o HDL.

Se os jovens Médicos de Família querem permanecer no SNS e se o SNS precisa deles, o que falta?
Editorial | António Luz Pereira
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Nestes últimos dias tem sido notícia o número de vagas que ficaram por preencher, o número de jovens Médicos de Família que não escolheram vaga e o número de utentes que vão permanecer sem médico de família. Há três grandes razões para isto acontecer e que carecem de correção urgente para conseguir cativar os jovens Médicos de Família.

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