Miguel Guimarães: “É fundamental que o Ministério da Saúde olhe para os MF de forma diferente”

“Temos muitos desafios para ultrapassar a nível de saúde, daquilo que é a própria carreira dos médicos, mas neste caso concreto [na] Medicina Geral e Familiar (MGF)”. Quem o diz é o Bastonário da Ordem dos Médicos, a propósito da 38.ª edição do Encontro Nacional de MGF.

“Várias questões estavam identificadas como sendo urgentes para serem resolvidas, (…) por exemplo o número excessivo de utentes [para] cada Médico de Família [MF]”, e o mesmo sucede em sentido inverso, com uma lista de espera “que, neste momento, já ultrapassa claramente um milhão”, além do volume de “tarefas administrativas e democráticas que não são tarefas médicas e que tiram cerca de 30% do tempo” que os MF “podiam ter para estarem com os seus doentes, para fazerem investigação, enfim, para fazerem (…) aquilo que é a sua função principal, que é serem médicos”, começou por dizer Miguel Guimarães, em entrevista ao Jornal Médico.

Para o entrevistado, estes desafios já existiam, mas com a pandemia vieram “agravar-se”, isto porque os MF “foram requisitados pelo Ministério da Saúde para fazerem uma quantidade enorme de tarefas”, no âmbito da pandemia. “O chamado Trace COVID, os (…) ADR (áreas dedicadas a doentes respiratórios), a questão relacionada com o apoio à vacinação, entre muitas outras”.

O Bastonário relevou que muito daquilo que é a atividade habitual dos MF “teve de ficar para trás”. “Nós chamámos à atenção várias vezes o Ministério da Saúde (…) porque é fundamental que os nossos MF sejam libertados para fazerem as suas funções habituais, mas até hoje isso nunca aconteceu”. E o facto é que “com a [diminuição] da pandemia, eles tiveram mais liberdade do que tinham até agora”.

Para o futuro, relembrou que estes profissionais vão ter muitos “desafios pela frente” e que não têm “o reforço adequado”. “É fundamental que o Ministério da Saúde olhe para os MF de uma forma diferente (…)”. Que lhes permitam fazer as suas tarefas, dando-lhes “as condições adequadas para trabalharem e melhorarem a sua carreira”, no sentido de incentivar quem acaba a especialidade a preferir “ficar no Serviço Nacional de Saúde”, e não sair “para o setor privado ou para o estrangeiro”. 

“No último concurso de MGF, 40% das vagas que foram abertas ficaram por ocupar. Portanto, há um problema identificado, que não se resolve com a criação de mais escolas médicas; resolve-se com o melhorar das condições de trabalho para que [os futuros MF] possam, de facto, optar [pelo] serviço público de saúde”, finalizou.

Se os jovens Médicos de Família querem permanecer no SNS e se o SNS precisa deles, o que falta?
Editorial | António Luz Pereira
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