“Há uma grande falta de especialistas dedicados à Medicina da Dor”, afirma a Dr.ª Ana Pedro

A anestesiologista e presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED), Dr.ª Ana Pedro, considera que, em Portugal, “há ainda um longo caminho a percorrer”, no que concerne ao reconhecimento da dor como um indicador de qualidade de saúde prioritário e à rede de referenciação entre estruturas de cuidados de saúde primários e hospitalares. A falta de especialistas dedicados à Medicina da Dor é outro ponto que refere, numa entrevista em que partilha também os desafios da APED para o futuro.

 

JORNAL MÉDICO (JM) | No ano em que comemora três décadas de trabalho, quais são os principais desafios da APED para o futuro?

DR.ª ANA PEDRO (AP) | O reconhecimento público e das autoridades sanitárias, da importância e relevância da dor, assim como do seu impacto negativo e sofrimento na vida pessoal, social e laboral do doente. Consciencializar a sociedade e os seus representantes políticos, nomeadamente na área de saúde, para a prevalência de dor nos cidadãos e o seu enorme impacto na qualidade de vida, e elaborar campanhas de sensibilização de prevenção e de tratamento da dor, como forma positiva de tentar ultrapassar este flagelo.

JM | Que passos ainda podem ser dados para tornar a dor como um dos indicadores prioritários em Saúde?

AP | A necessidade de termos indicadores de qualidade de serviço público em prol da qualidade de vida dos cidadãos. Sendo a dor prevalente em cerca de um terço da população portuguesa, parece lógico ter este número presente e contratualizado pelas estruturas de saúde do País.

A nível dos cuidados de saúde primários, o desafio prende-se com a falta de reconhecimento da dor como um indicador de qualidade de saúde prioritário, com o qual se assumiria a necessidade de tempo, organização e visibilidade para o trabalho realizado com os doentes com dor.

A nível hospitalar, há uma grande falta de especialistas dedicados à Medicina da Dor – considerando a procura deste tipo de cuidados de saúde –, traduzindo-se na gestão de listas de espera – não desejadas pelos profissionais e muito menos pelos doentes –, tal como o que acontece com outras áreas das especialidades médicas e cirúrgicas.

A Ordem dos Médicos reconhece, desde 2006, a Medicina da Dor como competência médica.  A última versão da classificação internacional das doenças, o ICD11, emanada pela Organização Mundial da Saúde, enquanto autoridade máxima de saúde, já integra a classificação da dor crónica desta forma, permitindo a classificação correta e uniformizada das diferentes condições clínicas.

Falta, agora, o reconhecimento por parte da tutela, da Medicina da Dor como disciplina autónoma, permitindo, assim, dotar as Unidades de Dor dos recursos adequados, ao momento tão desfalcadas, com profissionais dedicados em exclusivo ao seu funcionamento.

Em Portugal, há ainda um longo caminho a percorrer a nível da rede de referenciação entre as várias estruturas de cuidados de saúde primários e hospitalares, assim como na integração e proximidade dos diferentes níveis de prestação de cuidados.

JM | A lombalgia é uma das principais causas de incapacidade em Portugal (e no mundo). Quais os principais objetivos do Ano Global sobre a Lombalgia, declarado pela Associação Internacional para o Estudo da Dor?

AP | Prevenir é o mote, chamando a atenção para o controlo do peso corporal e para a necessidade de atividade física e combate do sedentarismo, em termos globais. Em termos genéricos e profissionais, passa por criar condições de ergonomia no trabalho e na sociedade.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

Mais lidas