Seguimento da dor nos CSP: Dr. Raul Marques Pereira defende criação de mecanismos replicáveis com métricas padronizáveis

“Sendo a dor crónica uma patologia flutuante de elevado nível de incapacidade, os Cuidados de Saúde Primários têm de proporcionar um seguimento regular e integrado destes doentes”. Esta é uma das mensagens transmitidas pelo coordenador do Grupo de Estudos da Dor da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Dr. Raul Marques Pereira, no âmbito do Dia Nacional da Luta Contra a Dor. Apesar de considerar que têm sido quebradas “muitas barreiras”, sublinha a necessidade de manter elevados índices de formação e de atualização em dor, bem como a criação de “mecanismos replicáveis e com métricas padronizáveis” para o acompanhamento destes doentes.

 

JORNAL MÉDICO (JM) | O que se sabe sobre o impacto da dor crónica, na qualidade de vida e na funcionalidade dos doentes, e quais os dados mais impactantes do Chronic Pain Care?

Raul Marques Pereira (RMP) | O Chronic Pain Care trouxe luz à realidade da dor crónica em Portugal, apresentando dados muito robustos, uma vez que foi realizado em contexto de Cuidados de Saúde Primários (CSP).

Verificamos que cerca de 34% dos utentes de CSP estudados sofriam de dor crónica, sendo que 73% tinham idade igual ou superior a 55 anos. Além disso, observa-se, neste estudo, que a dor crónica teve um impacto negativo significativo na mobilidade e atividades habituais dos doentes. Há também um número importante destes doentes que relataram dificuldades na sua rotina de higiene pessoal e no ato de se vestirem.

Estes dados mostram o elevado impacto que a dor crónica tem, na funcionalidade dos utentes em seguimento nos CSP.  

JM | A dor é uma das queixas mais frequentes nos CSP. Qual deverá ser o papel do especialista em MGF no controlo da dor crónica?

RMP | O papel do especialista de MGF é fundamental em dois planos. Em primeiro lugar, na identificação dos doentes em risco para cronificação de dor, para que tenha um tratamento robusto desde o primeiro momento e, em segundo lugar, no acompanhamento regular dos doentes com dor crónica, de forma a assegurar o melhor tratamento disponível.

Sendo a dor crónica uma patologia flutuante de elevado nível de incapacidade, os CSP têm de proporcionar um seguimento regular e integrado destes doentes, da mesma forma que é feito com outras patologias crónicas, como a hipertensão ou a diabetes. Só assim poderemos minorar o burden of disease associado à dor.

JM | Quais os principais desafios/barreiras da MGF, na avaliação e no tratamento da dor crónica?

RMP | Parece-me que temos vindo a quebrar muitas barreiras nos últimos anos, o que permitiu melhorar muito o tratamento da dor pelos especialistas em MGF.

No entanto, será preciso manter elevados índices de formação e de atualização em dor e também criar mecanismos replicáveis e com métricas padronizáveis para o seguimento de dor, nos CSP.

Para isto teremos de continuar a investigar e a evoluir nas estratégias de consulta, de forma a poder criar armas para um tratamento ainda mais eficaz.

JM | Quais as principais prioridades do Grupo de Estudos de Dor da APMGF?

RMP | O Grupo de Estudos de Dor da APMGF está a preparar uma série de iniciativas com o objetivo de proporcionar aos médicos de família mais ferramentas para poder seguir ainda melhor as pessoas com dor. Para breve, temos planeadas ações formativas e também o lançamento de um livro que resumirá a abordagem aos tipos de dor mais prevalentes em CSP.

Além disso, em 2022, serão realizadas várias ações junto da população para criar sensibilização e rastreio de dor a um nível populacional.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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