Ana Carolina Neves: Especialistas em MGF “assumem um papel integrador de cuidados de saúde” da pessoa com diabetes

A propósito do 2.º Update de Diabetes, promovido pela CUF Academic Center, que se realiza nos dias 11 e 12 de novembro, o Jornal Médico esteve à conversa com a médica endocrinologista da Unidade de Diabetes do Hospital CUF Descobertas Ana Carolina Neves. A especialista ressalva a pertinência da atualização sobre os vários temas relacionados com a diabetologia, levantado a ponta do véu relativamente aos temas que irão ser tratados. Revela, ainda, que os especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF) assumem “um papel integrador de cuidados de saúde”.

Jornal Médico (JM) | Este é o 2.º Update de Diabetes. Quais os saltos qualitativos que tem a apontar ao longo destes dois anos?

Ana Carolina Neves (CN) | Desde o primeiro Update em 2018, temos assistido a uma evolução muito rápida quer nas novas tecnologias aplicadas na diabetes, quer no conhecimento dos benefícios extra-glicémicos das novas classes terapêuticas. As evidências demonstradas em diversos estudos publicados nestes últimos anos, têm promovido a constante mudança das recomendações do tratamento da diabetes tipo 2 das sociedades científicas de referência. Destaco a publicação do consenso ADA/EASD em 2019 em que, pela primeira vez, se abandonou a visão exclusivamente glucocêntrica do tratamento da diabetes, para passar a se recomendar, independentemente do controlo glicémico, a associação de fármacos com evidência de proteção cardio-renal em doentes com estas complicações.

 

JM | Quais os temas que vão estar em cima da mesa?

ACN | Em cima da mesa, estarão temas como a abordagem multidisciplinar da diabetes tipo 1 e as especificidades desta doença numa faixa etária particular, como é a adolescência. A propósito da insulinoterapia, tanto na diabetes tipo 1 como na diabetes tipo 2, serão revistas as novas insulinas e novas tecnologias de monitorização e tratamento da diabetes. Haverá, ainda no primeiro um dia, uma sessão sobre estratégias de motivação do doente para o controlo metabólico. No segundo dia do Update, o foco será a diabetes tipo 2 e as atuais “guidelines” de tratamento farmacológico, a abordagem da insuficiência cardíaca e da doença renal crónica na pessoa com diabetes, tal como dos fatores de risco e doença cardiovascular.

JM | Qual a pertinência deste Update para os profissionais de saúde?

ACN | A diabetes é uma doença crónica cada vez mais prevalente na população portuguesa e o seu tratamento envolve um grande número de profissionais de saúde, desde médicos de várias especialidades, como enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, entre outros.  A atualização de conhecimentos nesta área é fundamental para todos nós, particularmente após um período de grande investimento e trabalho dedicado à pandemia atual. Enquanto a COVID-19 absorveu muitos esforços dos profissionais de saúde, a ciência não parou e muitas novidades surgiram no tratamento da diabetes. É agora, portanto, pertinente a oportunidade de atualização sobre os vários temas “quentes” da diabetologia.

JM | Que papel assume o especialista de MGF na abordagem multidisciplinar da diabetes tipo 1 no adolescente?

ACN | A prevalência da diabetes tipo 1 tem, também, aumentado em Portugal e em todo o mundo. Contudo, por não ser o tipo de diabetes mais prevalente, é muitas vezes confundida com a diabetes tipo 2 nas suas características e tratamento. É fundamental que todos os profissionais de saúde conheçam as diferenças deste tipo de diabetes e as suas especificidades. Embora as pessoas com diabetes frequentemente sejam seguidas por especialistas em endocrinologia, recorrem frequentemente ao médico de MGF por inúmeros motivos inerentes à doença. O especialista de MGF é confrontado com as novas abordagens de monitorização e tratamento destes doentes, e assume um papel integrador de cuidados de saúde.

Importa também destacar que a adolescência é uma idade especial, em que a existência de uma doença crónica exigente como a diabetes é particularmente desafiante. Nesta fase de vida, o contacto e a experiência que o adolescente tem com a sua equipa de saúde pode ser determinante para a adesão à terapêutica no presente e futuro.

JM | Que estratégias podem ser adotadas para melhorar a adesão terapêutica e qual o papel do médico de MGF na sua promoção?

ACN | O especialista em MGF, por princípio, é o médico que melhor conhece a pessoa no seu contexto e que estabelece a melhor relação de confiança com o doente. As estratégias para melhorar a adesão terapêutica partem de uma boa relação de confiança com a equipa de saúde, para um processo individualizado de educação terapêutica, onde o médico de família assume uma posição privilegiada.

JM | Qual o presente e o futuro das terapêuticas? Prevê-se uma diabetes tecnológica?

ACN | Eis uma questão que será respondida ao longo do nosso Update. Mas posso adiantar que se prevê uma diabetes cada vez mais tecnológica, permitindo uma melhor qualidade de vida para as pessoas com diabetes. O presente é promissor de um futuro com menos complicações, pois hoje temos ferramentas modificadores de prognóstico.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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