Nuno Jacinto: “Foi um reencontro muito feliz e muito especial”

No rescaldo do 38.º Encontro Nacional de Medicina Geral e Familiar (ENMGF), que decorreu de 29 de setembro a 2 de outubro, o Jornal Médico conversou com Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF). Neste evento que “superou as expetativas”, o responsável destacou o facto ter sido possível “perspetivar o futuro” da especialidade, lançando as bases para trabalharam “todos, em conjunto, numa estratégia para a MGF”.

Jornal Médico (JM) | Como foi o re(encontro), foi um reencontro especial este que uniu presencialmente os médicos de família passado tanto tempo?

Nuno Jacinto (NJ) | Sem dúvida, foi um reencontro muito feliz e muito especial. Os colegas já sentiam essa necessidade de voltarem a estar juntos, e, por isso, até do ponto de vista pessoal de cada um de nós foi muito bom voltar a ver e a estar com colegas que já não víamos alguns há mais de um ano e estarmos novamente todos a conviver e também a discutir questões relacionadas com a área científica e socioprofissional. Do ponto de vista da APMGF, foi também um momento muito, muito positivo, pois voltamos a ter um evento presencial após todos estes meses, e conseguimos lançar perspetivas de trabalho para os próximos meses e para os próximos tempos.

JM | Qual o balanço que faz deste 38.º Encontro Nacional de MGF, em termos quantitativos e qualitativos?

NJ | O balanço é extremamente positivo. Tivemos cerca de 650 inscrições presenciais e 400 inscrições online (sendo que quem estava inscrito presencialmente também poderia ter acesso online), facto que superou as nossas expetativas. Naturalmente não tivemos tanta gente em simultâneo de forma presencial como em anos anteriores, mas tivemos uma participação muito expressiva em todas as sessões, quer de quem estava nas salas, quer de quem estava em casa, e conseguimos discutir temas muito interessantes. Como tal, este foi o momento do tal reencontro, que era o nosso lema de reunião, e que cumpriu todas as expetativas que tínhamos para ele.

JM | Quais as sessões que destaca em termos de adesão e de interesse demonstrado pelos participantes?

NJ | Tivemos dois grandes grupos de sessões, umas mais relacionadas com a área clínica e outras de caráter socioprofissional. No primeiro grupo, a sessão “Otorrinolaringologia – patologias mais frequentes”, “Cuidados ao idoso frágil” e “Covid longo” marcaram claramente o panorama científico do encontro. A nível socioprofissional destaco, por exemplo, a mesa sobre sigilo médico, bem como as mesas sobre contratualização e reorganização das unidades de saúde. Falámos também do que foi feito na pandemia e o que se perspetiva para o futuro – uma mesa organizada pela nossa delegação de Viseu -, discutimos as burocracias em MGF, tendo todas as sessões sido muito relevantes, com muitas dúvidas, com muita participação, e em que todos saíram enriquecidos.

JM | Qual o balanço que faz do número de comunicações orais e posters?

NJ | O balanço continua a ser muito positivo, e nem sequer notámos diferença para a realidade que tínhamos no pré-pandemia. Tivemos mais de 100 comunicações orais submetidas e cerca de 200 pósteres. Em termos de apresentação, as comunicações orais foram quase todas apresentadas, e que diz muito do seu valor, e quanto aos pósteres foram apresentados e exibidos cerca de metade. Além disso, do que foi possível observar e do que nos foi chegando do júri, a qualidade manteve-se num nível muito elevado, até porque em todas as categorias houve atribuição de prémios, de menções honrosas, o que denota a qualidade dos trabalhos. Por isso, só nos podemos congratular, pois apesar da pandemia continua a haver trabalhos e investigação científica na MGF.

“FEIRA APMGF” E “APMGF OPEN MEETING” SERVIRAM PARA DAR UM “ROSTO” AOS GRUPOS DE ESTUDO E DELEGAÇÕES

JM | E quanto ao novo formato das sessões, a “Feira APMGF” e o “APMGF open meeting”, qual foi o objetivo da sua criação?

NJ | A “Feira APMGF” pretendeu dar a conhecer aos sócios e aos presentes no encontro quais são as atividades e o que é que estes podem esperar das várias delegações e grupos de estudo da nossa Associação. E, portanto, tivemos representados alguns desses grupos de estudo e delegações, que tiveram os seus elementos disponíveis durante aquele período para falarem com os sócios, para lhes mostrarem quais são os projetos que têm em curso, o que é que estão a pensar fazer, bem como para receberem sugestões. No fundo, serviu para dar um rosto aos vários grupos de estudo e delegações. E o que é facto é que durante aquele tempo, quase todos os colegas que estavam presencialmente em Braga acabaram por passar por aquele espaço e ter contacto com estas realidades, tendo-nos sido transmitido por quem lá esteve que houve muito interesse, esperando que vejamos estas equipas a crescer, bem como iniciativas como estas. O “APMGF open meeting” teve precisamente a mesma intenção, a de aproximar os associados da APMGF e dar-nos, enquanto órgãos sociais, locais e grupos de estudo, um rosto, e mostrar que estamos perfeitamente disponíveis para tudo o que sejam críticas, sugestões e opiniões, bem como para todos os que queiram colaborar connosco, dando voz aos associados. Neste meeting, em particular, foram discutidas as estratégias e os nossos planos a nível nacional para a Associação.

JM | Dizia na sua mensagem de boas-vindas que este Encontro serviria para “perspetivar o futuro da nossa especialidade, com base numa reflexão atenta sobre o presente e o passado recente”. Considera que esse objetivo foi atingido?

NJ | Sim, foi atingido, precisamente devido à participação nas sessões da contratualização, da reorganização das unidades de saúde ou da sessão “APMGF open meeting”. Surgiram dessas sessões muito boas ideias e reflexões, de tal forma que a breve prazo, ainda este ano, vamos fazer uma reunião mais alargada com os quadros da Associação - e com outros colegas que mesmo não estando neste momento em funções ativas têm sempre uma palavra importante a dizer – para trabalharmos todos juntos numa estratégia. Já sabemos que há muitas ideias, na esmagadora maioria dos aspetos estamos de acordo com os princípios base, mas agora falta operacionalizar. O diagnóstico está feito e agora precisamos de chegar às ações e dizer exatamente o que é que nós achamos que deveria ser feito, e isso é importante que seja divulgado e passado a escrito.

JM | Pode adiantar algumas dessas ideias ou reflexões que resultaram deste evento?

NJ | Os nossos pontos de trabalho passam muito por, em primeiro lugar, perceber que neste momento, na realidade atual, a MGF tem um peso grande no SNS, mas também já tem um peso fora do SNS e, portanto, é importante trabalharmos para estes dois lados da mesma moeda. Depois, temos de trabalhar muito em duas questões fundamentais, que são as carreiras médicas, percebendo o que é preciso fazer para as tornar atrativas e como podem ser efetivas no dia a dia, ou seja, para haver uma diferenciação em diversos graus e categorias e, depois, debruçarmo-nos também sobre o estado atual da reforma dos CSP e as condições de trabalho.  Há vontade de trabalhar sobre isso, há várias ideias que têm a ver com as USF modelo C, que nunca avançaram, com as dimensões da lista de utentes, com novos modelos de USF, com o que se vai fazer com os atuais pagamentos remuneratórios por desempenho. Tudo isso tem de ser trabalhado, porque a reforma começou já há 15 anos e está estagnada e precisamos de lhe dar um novo impulso. E, das duas uma, ou concluímos o que foi iniciado e melhoramos ou então temos que passar para um novo ciclo, mas a reforma tem de ser feita e não pode continuar parada.

JM | Já existe data marcada para o 39.º Encontro Nacional de MGF?

NJ | Sim, será de 24 a 26 de março de 2022, mas ainda estamos no processo de definir o local onde se realizará, bem como a ponderar se vamos manter este modelo híbrido ou se vamos voltar ao formato apenas presencial. Vai depender da evolução da pandemia nos próximos meses.

JM | Que mensagem deixa aos colegas da comissão científica e organizadora, bem como a todos os colegas que participaram?

NJ | A mensagem é a de um profundo agradecimento a todos, em particular aos colegas da comissão científica e organizadora, bem como aos que trabalham connosco na sede, parte administrativa e de organização do evento. Deixo também um especial agradecimento a todos os colegas que estiveram presentes, pois estarem presentes nesta altura é um voto de confiança na APMGF, dando-lhes a certeza que esse agradecimento também se traduzirá em continuação de trabalho em prol não só da Associação, mas da MGF em Portugal. É esse o nosso objetivo, e é isso que continuaremos a fazer.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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