Andreia Costa: Doentes com cefaleias “seguidos em ambiente hospitalar devem manter acompanhamento no seu médico de família”

A propósito do curso Cefaleias na Prática Clínica em Medicina Geral e Familiar, promovido pela CUF Academic Center, que se realizou nos dias 26 e 27 de novembro, o Jornal Médico esteve à conversa com a neurologista do Hospital CUF Porto - Consulta de Cefaleias, Andreia Costa. A especialista ressalvou que com estas iniciativas pretendem “contribuir para a abolição do estigma associado a este diagnóstico por parte da sociedade e mesmo da comunidade médica”. Frisa, ainda, que os especialistas de Medicina Geral e Familiar (MGF) “estão informados e mostram interesse em manterem-se informados das inovações farmacológicas e terapêuticas nesta área”.

Jornal Médico (JM) | Cefaleias na prática clínica em MGF. Porquê a abordagem desta temática agora?

Andreia Costa (AC) | As cefaleias são uma das principais queixas pelas quais os doentes procuram os cuidados de saúde. Há um grupo considerável de pessoas que sofre de cefaleias episódicas frequentes ou até crónicas. Sabemos que viver com cefaleias afeta diversas dimensões da vida do indivíduo, incluindo a família e o trabalho, conduz a maior necessidade de recorrer a cuidados de saúde e, em última instância, ao isolamento social. O que nos motiva é partilhar, de acordo com as recomendações nacionais e internacionais, como diagnosticar e tratar adequadamente o doente com cefaleias com o intuito de melhorar o diagnóstico e reduzir o impacto destas doenças, pelo seu tratamento eficaz e atempado. Por outro lado, pretendemos contribuir para a abolição do estigma associado a este diagnóstico por parte da sociedade e mesmo da comunidade médica.

JM | Geralmente, o primeiro contacto destes doentes é com o médico de família. Quais os principais sinais de alarme e como deve ser feito o diagnóstico diferencial entre os vários tipos de cefaleias?

AC | A classificação internacional de cefaleias (ICHD3) organiza as cefaleias em primárias, cefaleias como doenças em si próprias, secundárias, a cefaleia é um sintoma de outra doença e em neuropatias cranianas, outras algias faciais e outras cefaleias. Dentro de cada um destes grupos figuram múltiplos diagnósticos. Destaco a enxaqueca, a cefaleia tipo-tensão e a cefaleia em salvas no grupo das cefaleias primárias, pela sua maior prevalência. Nas cefaleias secundárias não esquecer as cefaleias por uso excessivo de medicação, um diagnóstico comum, mas também causas potencialmente mais graves como a cefaleia associada a neoplasia intracraniana. A neuropatia craniana mais prevalente é a nevralgia do trigémeo.

Para o diagnóstico correto, em primeira instância, é importante caracterizarmos bem a cefaleia: onde se localiza, se irradia, qual o seu caráter (moedeira, peso, pulsátil...), como se inicia e em que circunstâncias, qual a sua intensidade, duração e frequência, quais os fatores que a aliviam e agravam, se se associa a outros sinais e sintomas e qual o seu impacto no sono, no humor e no dia a dia do doente. Perceber quais os fármacos já utilizados para aliviar a dor bem como a sua dosagem e posologia é também deveras relevante.

Após uma caracterização bem feita, importa excluir sinais de alarme como a existência de sinais ou sintomas sistémicos acompanhantes como febre, perda de peso, mas também estados de imunossupressão por doença ou por fármacos, a existência de outros sinais ou sintomas neurológicos como diplopia, alteração da acuidade visual, défices motores, papiledema, entre outros. Na abordagem das cefaleias, qualquer doente com uma cefaleia de novo após os 50 anos deve alertar-nos para a maior possibilidade de se tratar de uma cefaleia secundária; por outro lado, o início explosivo da dor, a sua relação com ortostatismo/decúbito, a alteração do seu padrão prévio ou uma cefaleia com agravamento progressivo deve pôr-nos na pista de uma etiologia secundária.

JM | Olhando para o programa desta iniciativa os temas procuram dar resposta a vários pontos que aqui colocamos. Considera que a normalização da dita “dor de cabeça”, muitas vezes motivada por stress, pode menorizar o diagnóstico adequado e respetiva referenciação nos casos mais graves das cefaleias? No limite quais as condições mais graves associadas a esta condição? Quais os exames a indicar?

AC | Os especialistas de MGF estão atentos e sensibilizados para o diagnóstico destas condições. Ainda assim, como referi há pouco, há ainda muito estigma no que concerne às cefaleias e ao seu impacto na vida dos doentes. Além disso, o facto de ser uma queixa tão frequentemente reportada pode contribuir para que seja menos valorizada na panóplia de outras queixas do doente.

Quando falamos em causas mais graves de cefaleias incluímos etiologias que põem de facto em risco a vida do doente como as neoplasias intracranianas, os acidentes vasculares cerebrais, entre os quais destaco a hemorragia subaracnoídea, as infeções do sistema nervoso central, entre outras. A cefaleia que acompanha estes diagnósticos, sobretudo nas causas mais indolentes como as neoplasias intracranianas, pode ser frustre, com curso subagudo e apresentar caraterísticas pouco diferenciadoras de uma cefaleia primária. Uma história e um exame geral e neurológico cuidados são fulcrais para o diagnóstico atempado.

Na presença de uma cefaleia com sinais de alarme, pensamos numa cefaleia secundária. Para fazer o seu diagnóstico é comummente necessário o recurso à imagem – TC ou RM crânio-encefálica. Em situações mais particulares podem ser necessários outros estudos como angio-TC/RM, estudo imune, serologias, biologia molecular do soro/líquor, entre outros.

JM | De que modo deve ser feita a ligação entre os neurologistas e os especialistas de MGF?

AC | Nas cefaleias e nas outras doenças, é essencial que exista uma ligação entre os profissionais de saúde. Primeiramente, é natural que na abordagem dos seus doentes com cefaleia, surjam dúvidas de diagnóstico e tratamento aos especialistas de MGF – um contacto fácil e rápido com um neurologista dedicado traria benefícios para o doente que mais rapidamente seria orientado. Por outro lado, os doentes seguidos em ambiente hospitalar devem igualmente manter acompanhamento no seu médico de família que poderá apoiar na avaliação das suas queixas bem como no pedido de exames complementares e prescrição de tratamentos. Por fim, após o diagnóstico e tratamento adequados da patologia é essencial que o neurologista informe o especialista de MGF dos passos seguintes, de quando reenviar o doente para avaliação, do que valorizar e como proceder com a terapêutica.

JM | O que pode dizer de inovação farmacológica que importa aos especialistas de MGF estarem a acompanhar?

AC | Os especialistas de MGF estão informados e mostram interesse em manterem-se informados das inovações farmacológicas e terapêuticas nesta área. Tal facto é essencial para que selecionem os doentes que possam beneficiar desses tratamentos e os encaminhem para os centros que disponham desses recursos. Nos últimos tempos, destaco os anticorpos monoclonais aprovados para tratamento da enxaqueca, mas também a toxina botulínica na enxaqueca crónica. Saliento ainda várias técnicas de neuromodulação que começam a abrir caminho.

JM | Relativamente à organização de um Headache Center. O que é e porque deve existir?

AC | Vários especialistas internacionais têm publicado artigos de opinião e recomendações para a organização dos cuidados de saúde na área das cefaleias. A Sociedade Portuguesa de Cefaleias, atenta e bastante proativa, já publicou em meados deste ano as suas próprias recomendações.

Um Headache Center deve ser um local com disponibilidade para receber o doente com cefaleia aguda em regime de atendimento urgente ou hospital de dia, mas também para abordar o doente com história de cefaleias de uma forma global. Deve dispor de clínicos diferenciados na área das cefaleias, de meios para realizar diagnóstico diferencial e, de tratamentos diferenciadores dentro dos recomendados e aprovados nacional e internacionalmente, quer médicos quer cirúrgicos.  Deve ainda dispor de facilidade de acesso em caso de dúvidas ou em caso de recidiva da dor, por exemplo. Crucial também é a pluridisciplinaridade, a possibilidade de o neurologista, que gere o centro, comunicar com o especialista de MGF, o neurocirurgião ou o psiquiatra (entre muitas outras especialidades). Deve promover a educação para a saúde dos seus doentes e dos seus pares e participar na investigação na área das cefaleias.

Tendo em conta a prevalência e o impacto das cefaleias, a existência destes centros em Portugal, parece-me muito relevante para a nossa população e para os nossos cuidados de saúde. É também assim que vamos manter a capacidade de acompanhar os principais centros internacionais, conseguindo disponibilizar novas terapêuticas e fomentando a investigação clínica.

JM | Quais são as linhas de investigação futuras na área da dor de cabeça?

AC | A área das cefaleias, sobretudo da enxaqueca, tem sido um hot topic, creio que pela sua prevalência e pelo seu impacto, como já falamos. Na minha perspetiva é importante continuar a apostar nesta área, mas também investir no conhecimento e investigação nas outras cefaleias primárias como a cefaleia em salvas. Por fim, investir na melhor caracterização da cefaleia como sintoma de outras doenças (cefaleia secundária) e seu tratamento será muito relevante para melhor conhecermos a sua fisiopatologia e podermos adequar o tratamento.

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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