Javier Duran: “Os médicos de Medicina Geral e Familiar são a pedra angular do controle da dor lombar e não só”
DATA
13/12/2021 09:38:07
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Jornal Médico
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Javier Duran: “Os médicos de Medicina Geral e Familiar são a pedra angular do controle da dor lombar e não só”

A propósito do evento “Entender e Tratar a Dor Lombar”, promovido pela CUF Academic Center, que se vai realizar no dia 17 de dezembro no Hospital CUF Tejo, o anestesista e coordenador da Unidade da Medicina da Dor deste hospital assumiu, em entrevista ao Jornal Médico, que os especialistas de Medicina Geral e Familiar (MGF) são fundamentais no acompanhamento e gestão do doente com dor lombar. Javier Duran disse, ainda, qual a abordagem que a Unidade da Medicina da Dor pratica e quais os principais objetivos do evento que irá decorrer.

Jornal Médico (JM) | A região lombar está envolvida em quase todos os nossos movimentos pelo que, quando existe dor associada, pode haver restrições à qualidade de vida. A partir de que momento deve ser visto como algo preocupante?

Javier Duran (JD) | Efetivamente a região lombar está envolvida em quase todas as posturas e movimentos que realizamos no dia a dia. Sabemos que a maioria das pessoas terá, em algum momento da sua vida, uma dor lombar (ou lombalgia). Por isso, deveria ser um tema preocupante para qualquer pessoa, inclusive antes da dor aparecer. Esta é a única forma de prevenir a dor e, sobretudo, de conseguir travar os fatores que promovem a sua cronificação. A dor lombar tem impacto não só no indivíduo, como, também, na sociedade, pois é a primeira causa de baixa laboral, tem grandes custos nos sistemas de saúde, para além do desgaste que provoca nas famílias e cuidadores. Algumas das atitudes-chave que cada um pode pôr em prática para minimizar esse impacto são: levar uma vida saudável com uma correta alimentação; diminuir o stress; evitar hábitos tóxicos; manter o peso ideal; dormir 7 a 9 horas por dia; respeitar os princípios de ergonomia; praticar exercício físico regular; evitar sobrecargas musculares e fazer um tratamento atempado em caso de aparecer uma dor aguda.

JM | Que tipos de dor lombar existem? Quais as mais debilitantes?

JD | Existem várias maneiras de classificar a dor lombar. Devemos diferenciar a dor aguda da crónica, sendo a primeira um sintoma de início súbito, resultante de algum esforço ou lesão, com resolução habitualmente em poucas semanas. Por sua vez, a dor lombar crónica é uma doença (já não é só um sintoma) e tem uma duração superior a 3 meses. Outras classificações diferenciam a dor lombar em dor mecânica e inflamatória. Na primeira a carga provoca a dor, como no caso da espondilartrose ou da dor facetária. Na dor inflamatória os sintomas aparecem em repouso, como no caso da espondilite anquilosante. É difícil dizer qual será o tipo de lombalgia mais debilitante, mas penso que o tempo é um elemento crucial. Sofrer de dor lombar todos os dias, durante anos, acaba por ser perturbador e pode provocar uma avalanche de catástrofes pessoais, com interferência económica, familiar, social e laboral.

JM | Qual a vossa abordagem na Unidade da Medicina da Dor do Hospital CUF Tejo para a dor lombar?

JD | Na Unidade de Dor do Hospital CUF Tejo abordamos a dor lombar seguindo princípios universais, complementando com a experiência dos profissionais de saúde obtida com os anos de prática. O primeiro a fazer é identificar as bandeiras vermelhas (red-flags), que são os sinais que nos alertam para a possibilidade de a dor ser o reflexo de uma doença grave, tal como uma fratura, um tumor ou uma infeção. A seguir, estudamos o tipo de dor, e “colocamos apelidos à dor” para evitar diagnósticos vagos como “lombalgia” - o que é sem dúvida uma simplificação nada rigorosa. Por último, contextualizamos esse tipo de dor, na realidade de cada doente (com a sua situação familiar, laboral, pessoal, avaliamos a gestão de expetativas, a perceção do problema, a patologia associada do doente, entre outros). Com toda esta informação podemos discutir quais as ferramentas terapêuticas mais indicadas: tratamento não farmacológico (psicoterapia, fisioterapia, osteopatia…); tratamento farmacológico (com comprimidos, pensos…) e procedimentos de intervenção (tais como a acupuntura, técnicas percutâneas ou até cirúrgicas, se for necessário).

JM | No curso “Entender e Tratar a Dor Lombar” existem oradores de diferentes especialidades médicas. É este um problema de saúde que exige uma abordagem multidisciplinar?

JD | Se algum consenso existe sobre o tratamento da dor lombar é que com uma abordagem multidisciplinar obtém-se melhores resultados. Na Unidade de Mediana da Dor do Hospital CUF Tejo trabalhamos muito o conceito de “dor total”, que consiste em abordar todos os âmbitos da pessoa que estão relacionados com a dor: postura, biomecânica, movimentos de repetição, estratégias de coping… no fundo, a dor vista através dos diferentes prismas que cada especialidade confere. Uma abordagem multidisciplinar permite oferecer o tratamento mais apropriado para cada doente.

JM | Neste evento dedicado à dor estão identificadas no programa algumas controvérsias, nomeadamente operar ou não operar. Para que lado da balança há mais apoiantes? E quanto ao uso de analgésicos, qual o consenso nesta área?

JD | A dor lombar raramente tem indicação cirúrgica. A maioria dos casos, melhora com uma estratégia conservadora, baseada em medicação, tratamentos de intervenção minimamente invasivos e tratamentos não farmacológicos, como a fisioterapia. O arsenal terapêutico para o tratamento farmacológico é gigante e é muito diferente para cada tipo de dor. A dor muscular terá benefício com os relaxantes musculares, a dor neuropática melhorará com antiepiléticos e antidepressivos, e noutras situações terão indicação outros fármacos como os opioides ou os anti-inflamatórios. Estes são exemplos de alguns consensos, mas importa frisar que o seguimento de cada doente requer uma abordagem personalizada - focada “na sua dor”, cada caso é um caso. O evento “Entender e Tratar a Dor Lombar” procura reunir especialistas de várias áreas clínicas, precisamente para colocar em discussão o diagnóstico e tratamento da dor lombar, compreendendo a visão multidisciplinar que existe em cada caso.

JM | Como se deve conciliar a prática de exercício físico e a fisioterapia com a terapêutica farmacológica?

JD | O exercício físico tem um papel tanto preventivo como terapêutico. Se bem que numa fase aguda são benéficos breves períodos de repouso, na maioria dos casos de dor lombar existe indicação para a prática regular de exercício e/ou fisioterapia. Nos casos mais severos, torna-se ideal a prática do exercício em ambiente aquático, como a hidroginástica, para evitar um impacto excessivo.

JM | Qual a importância dos especialistas de MGF no acompanhamento do doente?

JD | Os médicos de Medicina Geral e Familiar são a pedra angular do controle da dor lombar e não só. Eles são os únicos que podem garantir o sucesso a grande escala. Apenas uma ínfima parte das pessoas que sofrem de dor são referenciadas para uma Unidade de Dor. Daí que, um dos nossos objetivos com este curso seja promover a formação destes especialistas na área da Medicina da Dor e, assim, promover uma referenciação adequada dos casos mais complexos.

JM | Quais os sintomas que tornam inadiável uma ida ao médico?

JD | Existem dois motivos fundamentais para procurar ajuda médica por uma dor lombar: quando a dor está associada a algumas das já referidas red-flags, que podem ser o reflexo de uma doença grave, sendo algumas delas a febre, a perda de peso injustificada, a dor constante ou os déficits sensitivos/motores; outro motivo para procurar uma consulta médica é que “o fator mais determinante para vir a ter uma dor forte amanhã, é ter uma dor forte hoje”. Por isso, devemos ser precoces e eficazes no alívio da dor severa, para evitar o fenómeno da cronificação da dor.                                                                                                            

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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