José Alves: “A bandeira principal da FPP é melhorar a saúde respiratória em Portugal”
DATA
29/12/2021 09:40:31
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Jornal Médico
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José Alves: “A bandeira principal da FPP é melhorar a saúde respiratória em Portugal”

A propósito do relatório divulgado pelo Observatório Nacional das Doenças Respiratórias (ONDR) que demonstrou que as doenças respiratórias não COVID mataram 36 pessoas por dia em 2019, o pneumologista e presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão (FPP), em entrevista ao Jornal Médico, não tem dúvidas de que estas doenças estão muito associadas ao tabagismo. José Alves aborda também a doença pulmonar obstrutiva crónica, o cancro do pulmão e as pneumonias. Indica, ainda, quais os principais objetivos da FPP, sendo que o principal é “melhorar a saúde respiratória em Portugal”.

Jornal Médico (JM) | O tema do dia continua a ser a COVID-19. No entanto, dados do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias 2020 concluíram que doenças respiratórias não COVID matam 36 pessoas por dia em Portugal. Como é que se pode inverter esta tendência?

José Alves (JA) | É muito difícil porque apesar de serem doenças preveníveis e tratáveis, a prevenção esta muito ligada ao tabaco e é muito difícil convencer as pessoas a não fumar, mas é uma atitude que temos de tomar de uma forma mais eficiente. E a forma mais eficiente de diminuir a prevalência dos fumadores, segundo a opinião da FPP, consiste em termos uma lei contra o tabaco, que seja eficaz, eficiente, em que seja possível ter coimas, multas. E o outro ponto que é importante é o preço do tabaco. O tabaco tem de ser muito mais caro do que é agora. Esses pontos são fundamentais e são mais importantes do que qualquer outra coisa que possamos fazer em termos de literacia. Por outro lado, há atitudes que se podem tomar de rastreio e diagnostico precoce, quer no cancro do pulmão, quer na DPOC. Na DPOC são as espirometrias. A FPP acha que as espirometrias devem ser feitas muito mais precocemente. Teoricamente estão a ser feitas aos fumadores com mais de 40 anos. Na prática não estão a ser feitas. Nós queremos que as espirometrias sejam feitas a pessoas que têm 10 unidades maço ar, ou seja, é o correspondente ao hábito de fumar um maço de cigarros por dia. Para o cancro do pulmão, recentemente provou-se que a TAC de baixa dose tem uma diminuição de mortalidade também no grupo de risco, de cerca de 30%. Devemos também implementar esquemas de rastreio de cancro do pulmão de maneira a diminuir a mortalidade.

JM | O estudo revelou que ano após ano, as taxas de mortalidade por pneumonia em Portugal continuam a ser das mais elevadas dos países da OCDE. A que se deve esta propensão? Em que grupos da população há maior mortalidade?

JA | As pneumonias têm mais prevalência e mais mortalidade no grupo dos idosos com comorbilidades e com hábitos menos saudáveis, nomeadamente o tabaco e o álcool. Porque é que nós temos um número muito mais alto que a média da OCDE? Eu penso que a razão é a certificação. Se nós tivermos um doente com cancro do pulmão que morre com uma pneumonia, a causa de morte é a pneumonia. Em outros países, a causa de morte é o cancro do pulmão. Portanto, estas diferenças de certifico-o justificam claramente este aumento de taxas por mortalidades nas pneumonias. Os Estados Unidos da américa e o Reino Unido também apresentam uma grande taxa. É uma questão de certificação.

JM | Considera que o atual awareness em torno da importância da vacinação pode incrementar o número de vacinados noutras doenças respiratórias e que isso se vá refletir nos números dos próximos observatórios?

JA | Temos tido um aumento de vacinação para a COVID-19. Temos tido um aumento de vacinação muito ténue em algumas situações de pneumonias. Mas precisamos de muito mais, precisamos de vacinar contra a pneumonia todos os doentes com mais de 65 anos, quer tenham comorbilidades quer não tenham, precisamos de continuar a vacinar contra a gripe porque há uma relação muito direta entre a gripe e as pneumonias. Precisamos de vacinar grupos de risco, nomeadamente o pessoal de saúde, mas também todas as pessoas que trabalham em profissões de muito contacto, como os professores, bombeiros, polícias. E precisamos fundamentalmente que não haja descrédito da vacinação. As vacinas quando aparecem no mercado já estão perfeitamente estudadas e já estão aceites. Há algum barulho de comunicação que eu sinceramente tenho medo que diminua a vontade das pessoas de se vacinarem.

JM | O cancro do pulmão está entre as primeiras causas de morte em Portugal. As inovações farmacológicas estão já a fazer-se sentir em relação a outros anos? Podemos vir a ser mais otimistas em relação a esta doença?

JA | Há dois tipos de medicação nova para o cancro do pulmão: as drogas alvo, que são instituídas conforme o estudo genómico do cancro do pulmão. Fundamentalmente são as alterações dos genes. Essa é uma das vias da terapêutica que se deve ou pode modificar de acordo com as alterações que, entretanto, se estudam. Cada cancro passa a ser uma entidade individual, cada um dos cancros pode ter um tratamento diferente, de acordo com as suas características genómicas. A outra classe é a imunoterapia que é mais abrangente e pode ser administrada a um maior número de pessoas com cancro do pulmão. Na prática o que acontece é que o cancro do pulmão deixou de ser uma doença que tinha a mesma incidência e a mesma prevalência e passou a ser uma doença cronica com uma esperança de vida muito importante e significativa.

JM | Também a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) continua a ter uma expressão importante na morbilidade e mortalidade por doença respiratória. Quais os fatores de risco? A que doenças está associada?

JA | O fator de risco mais importante é o tabaco. Nos seus tempos mais precoces há a bronquite crónica, que é a bronquite sintomática, com expetoração durante mais de dois meses consecutivos em dois anos consecutivos e depois acaba na insuficiência respiratória com uma necessidade de suplementação de oxigénio. Eventualmente está associada a outras doenças, também provocadas pelo tabaco, nomeadamente doenças cardiovasculares, a cancro do pulmão e cancro da laringe.

JM | Como avalia o papel dos especialistas em Medicina Geral e Familiar na referenciação, gestão e acompanhamento das doenças respiratórias?

JA | É fundamental, porque a primeira porta que os doentes têm é o médico de família. E é fundamental que participe no diagnostico e participe depois no tratamento. E obviamente que pela sua proximidade é extremamente importante. A referenciação nem sempre é fácil e esse é um ponto fundamental no nosso Serviço Nacional de Saúde. A ligação dos centros de saúde —os médicos de família — com os hospitais, nem sempre é a melhor. O ensino da patologia respiratória pós-licenciatura também é fundamental, quer da parte dos pneumologistas, quer da parte de alguns médicos de MGF que se interessam particularmente por Pneumologia. Quando as coisas correm menos bem tem a ver com a dificuldade dos recursos humanos e com a dificuldade de otimizar as ligações que eventualmente existem.

JM | Quais são as atuais bandeiras da Fundação Portuguesa do Pulmão (FPP)? Como tem agido junto da sociedade? Quais as iniciativas?

JA | A bandeira principal da FPP é melhorar a saúde respiratória em Portugal e para isso determinou uma metodologia que consiste exatamente na inibição do tabaco, na realização de espirometrias a tanta gente quanto possível e obrigatoriamente aos fumadores, na implementação de um plano que a de reabilitação respiratória a nível nacional que permita melhorar o tratamento médico e no rastreio do cancro do pulmão. Estes pontos parecem-me os mais importantes. Depois há pontos adicionais como a equidade dos tratamentos, a nível do cancro do pulmão, e a equidade do direito ao acesso a terapêuticas das doenças respiratórias.

JM | Enquanto presidente da FPP, que cunho pessoal imprime nesta missão?

JA | O que eu tento que a Fundação faça baseia-se em três fases: identificar um problema, propor uma solução e ajudar a executá-la. A Fundação tem neste momento uma ferramenta que permite ajudar no tratamento quer individual quer coletivo. E esse é o cunho: não só identificar os problemas, mas também ajudar a resolvê-los. Não nos preocuparmos com o dia da DPOC, mas preocuparmo-nos com a DPOC todos os dias.

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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