Nuno Jacinto: “Precisamos que o SNS se torne atrativo” para os internos
DATA
17/01/2022 09:42:48
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Jornal Médico
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Nuno Jacinto: “Precisamos que o SNS se torne atrativo” para os internos

Para Nuno Jacinto, o que permite aumentar a qualidade da formação do Internato de MGF está diretamente relacionado com a qualidade do exercício. Em entrevista ao Jornal Médico, o responsável salientou que “não faz sentido continuarmos a formar internos em instalações que já não o deveriam ser há muitos anos, ou que não têm o material de consumo clínico básico”.

Jornal Médico (JM) | Como tem evoluído a formação em MGF em Portugal e quais as diferenças entre países?

Nuno Jacinto (NJ) | Sem dúvida que a formação em MGF em Portugal tem crescido em qualidade, sendo uma formação de excelência. Comparativamente aos outros países, o que é feito cá é muito semelhante ao que é feito no exterior, com algumas pequenas diferenças. No Reino Unido, por exemplo, em vez de um ano de formação geral e quatro em MGF, existem dois anos de formação geral e três de formação em MGF. Quanto à formação pós-graduada, esta tem a duração de cinco anos, e dura em média noutros países entre quatro e seis anos. Mas, mais do que a duração, a grande questão é adaptar aos conteúdos que são necessários em cada momento. Penso que o Internato é algo dinâmico e que está vivo e que vai mudando de uma forma regular. Além disso, os programas de formação são frequentemente revistos, não só em Portugal, mas também em todos os outros países, e vamos aprendendo uns com os outros. De qualquer forma, a tendência tem sido sempre, ao longo dos anos, para aumentar o tempo do internato – há 10-11 anos tínhamos três anos de internato específico de MGF – e nunca para diminuir e é natural que isso aconteça. O conhecimento médico tem aumentado cada vez mais e uma especialidade generalista é muitíssimo complexa - não podemos confundir uma especialidade generalista com uma especialidade simplista. Por isso, precisamos muito de ter uma formação abrangente e sólida, algo que não se consegue de um momento para o outro.

JM | Considera que existe alguma lacuna nas áreas a contemplar no atual Programa Formativo do Internato Médico de MGF?

NJ | O programa atual é muito abrangente, com um núcleo central forte, e com um caráter personalizável para cada interno. Por isso, mais do que propriamente considerar que falta alguma área, consideramos que o internato de MGF precisa de estar mais focado e mais realizado nos Cuidados de Saúde Primários (CSP) - pode parecer algo lógico, mas nem sempre foi assim. A verdade é que durante algum tempo, no início da especialidade o Internato era praticamente todo feito a nível hospitalar e agora estamos a passar para um modelo em que o mesmo é feito quase integralmente nos CSP. Essa é a evolução natural e é esse aspeto que precisa de ser ainda mais aprofundado. A título de exemplo, um médico de família quando faz um estágio em Saúde Infantil e Juvenil precisa, obviamente, de ter alguma partilha de conhecimentos com os colegas de Pediatria no hospital, mas não tem uma necessidade premente de ter um conhecimento aprofundado – mas sim noções gerais - do que é o internamento de Pediatria ou como se tratam patologias em internamento de forma aprofundada. E o mesmo é válido para a Saúde da Mulher ou para a Saúde Mental. Ora, o que é preciso é que, progressivamente, também aconteça esta formação nestas áreas complementares nos CSP. Ou seja, aproveitar o facto de determinada unidade ter uma consulta forte de Saúde da Mulher, e fazer parte das formações complementares nesse local, por exemplo.

Outra questão que também tem sido muito discutida é o binómio orientador-interno e se este será o melhor modelo ou se devemos evoluir para um conceito de comunidades formativas onde há grupos de internos, grupos de orientadores, unidades de formação e os internos vão tendo contacto com profissionais mais velhos e com uma realidade um pouco mais abrangente, mantendo a figura de referência do orientador. É claro que existem vantagens e desvantagens, mas a evolução tem sido neste sentido e parece-me claramente que é por aqui que vamos continuar a caminhar.

COMUNICAÇÃO ENTRE AS ESTRUTURAS DO INTERNATO “FALHA MUITO”

JM | Que medidas poderiam contribuir para melhorar a qualidade da formação médica em MGF?

NJ | Existem vários aspetos, desde logo melhorar o aspeto comunicacional e esbater as diferenças regionais na forma de funcionar dos internatos. É importante haver troca de experiências e perceber como é que cada local funciona, o que está melhor, o que está pior. É verdade que as diferenças se têm esbatido e tem havido uma evolução no sentido da uniformização, mas existiam diferenças muito significativa ao nível de cada local, por exemplo, nas avaliações dos estágios anuais, na preparação para a avaliação final e até nos currículos elaborados para a avaliação final. É também vital a agilização da comunicação entre todas as estruturas do Internato Médico, bem como a um nível mais geral. Não podemos ter, por exemplo, internos de MGF que são enviados para ambiente hospitalar sem saber muito bem o que é que lá vão fazer - e nem sequer os colegas que os recebem sabem o que é expetável que eles façam. E esta comunicação falha muito.

JM | Mas também as condições das unidades contribuem para o sucesso da formação médica…

NJ | Exatamente. O que permite aumentar a qualidade da formação do Internato de MGF está diretamente relacionado com o que permite aumentar a qualidade do exercício da MGF. Ou seja, precisamos de ter unidades preparadas para formar os internos, que tenham os seus recursos humanos completos, todos os necessários a uma formação de qualidade, como médicos especialistas em MGF bem preparados, bem como outros profissionais, sobretudo enfermeiros e assistentes técnicos, que são muito importantes na construção do sentido do que é uma unidade funcional, do que é o trabalho em equipa. Por outro lado, é fundamental que tenhamos os equipamentos adequados. Não faz sentido continuarmos a formar internos em instalações que já não o deveriam ser há muitos anos, ou que não têm o material de consumo clínico básico para fazer uma formação de qualidade. É também preciso que haja sistemas de informação que funcionem para que os internos percebam o que é o registo clínico, para que possam retirar dados, fazer trabalhos de investigação e, sobretudo, é fundamental que haja um reconhecimento do papel do orientador. Neste momento temos uma assimetria muito grande. Por um lado, temos orientados das USF modelo B que recebem uma compensação por essa função e, por outro, os das UCSP e USF que têm, eventualmente, um ajuste no seu horário para poderem preparar melhor esta orientação. Na minha opinião, o estatuto do orientador tem de ser igual em todo o lado e, mais uma vez, não podemos nivelar por baixo, mas sim por cima. Em suma, o que interessa é proporcionarmos as condições de base aos nossos internos para que estes possam trabalhar. Não podemos esquecer que já são médicos e desempenham um papel muito importante nas unidades. E se eles não conseguirem ter um bom internato, no qual se sintam acarinhados, estimulados e com as condições para desenvolver as suas capacidades, muito mais dificilmente vão querer ficar no Serviço Nacional de Saúde (SNS). É nisto que temos de trabalhar para o evitar, precisamos de os cativar, precisamos que o SNS se torne atrativo, e se não o fizermos logo desde o internato não vai ser quando concluem a sua especialidade e tem de escolher uma vaga que o vamos conseguir fazer.

JM | Essas falhas em termos de recursos humanos e de condições estão ainda por colmatar em muitos locais do país?

NJ | Infelizmente sim, algo que ainda se agravou mais com a pandemia. Faltam médicos de família e enfermeiros em várias unidades. Continuamos com falta de assistentes técnicos, elementos essenciais ao nosso trabalho, continuamos com unidades sem espaço físico para o interno fazer as suas consultas, computadores que funcionem e que acedam ao sistema com qualidade, impressoras e telefones que funcionem, uma equipa que os suporte e uma rede à sua volta que os faça sentir protegidos, por um lado, e que os prepare para a vida enquanto especialistas e que os estimule a desenvolver o seu conhecimento e a sua capacidade, por outro. Se a tudo isto que já está em falta juntarmos um clima de facilitismo temos as condições ideais para o desastre e retrocesso na formação, e não é nada disso que nós queremos.

Esta entrevista está presente na edição impressa n. º125 do Jornal Médico

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Editorial | Jornal Médico
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