“Muito em breve vamos confirmar a necessidade de um Programa Nacional para a Condição Pós-COVID-19”

Em conversa com o Jornal Médico, Filipe Froes, pneumologista e coordenador do Gabinete de Crise para a COVID-19 da Ordem dos Médicos (OM), reconheceu que o desvio de meios para o combate à pandemia “tem resultado numa menor capacidade de resposta, menor acessibilidade e agravamento significativo do atraso na realização de exames complementares de diagnóstico, nomeadamente dos estudos de função respiratória”. O especialista defendeu ainda a criação de um Programa Nacional para a Condição Pós-COVID-19.

Jornal Médico (JM) | Segundo o 14.º Relatório do ONDR, as doenças respiratórias continuam a ser um dos principais motivos de mortalidade em Portugal e no mundo, alertando o documento para o facto de não estarmos a conseguir reduzir a sua prevalência, antes pelo contrário. A que se deve este aumento da prevalência?

Filipe Froes (FF) | Penso que a elevada prevalência das doenças respiratórias se deve essencialmente à conjugação de dois fatores: o primeiro deles é a persistência e/ou agravamento dos fatores de risco associados, nomeadamente o tabagismo, a poluição ambiental, bem como as deficientes condições sociais e económicas ainda existentes; o segundo está relacionados com as políticas de saúde insuficientes, nomeadamente rastreios escassos, o diagnóstico tardio, a deficiente valorização da prevenção e a baixa literacia da população.

JM | O documento do ONDR observa que durante os meses de COVID-19 houve uma redução média nacional de 50% nos internamentos por doenças do aparelho respiratório (DAR). Já os ambulatórios por DAR tiveram uma redução média nacional de 84%. O que poderá justificar esta diminuição?

FF | Naturalmente que o que está na base desta diminuição dos internamentos ou ambulatórios por doenças do aparelho respiratório se deve à alocação e desvio de recursos de saúde (técnicos e humanos) para o combate à pandemia, o que tem resultado numa menor capacidade de resposta, menor acessibilidade e agravamento significativo do atraso na realização de exames complementares de diagnóstico, nomeadamente dos estudos de função respiratória.

JM | Além disso, é importante perceber se esta diminuição dos ambulatórios ou internamentos DAR, além de se refletirem num atraso em diagnósticos vão também refletir um aumento de doenças em estado mais avançado…

FF | Infelizmente, posso dizer que na minha prática clínica já estamos a constatar, sobretudo na área da oncologia pneumológica, essas duas consequências, o atraso no diagnóstico e estadiamentos mais avançados.

 

ESTRATÉGIA, PLANEAMENTO E ENVOLVIMENTO PARA EVITAR FRAGILIDADE DO SISTEMA DE SAÚDE

JM | O Prof. Filipe Froes escreve, no capítulo “Desafio da COVID-19” do Relatório ONDR, que “deparamo-nos com uma outra ameaça, tão ou mais importante que o próprio vírus. A ameaça da fragilidade da nossa capacidade de organização, planeamento e resistência. Uma ameaça agravada pela preocupante situação social e económica do país, pela saturação da população e o desgaste dos profissionais de saúde. E a que não é indiferente um modelo comunicacional nem sempre esclarecedor, coerente e motivador”. Quais as principais medidas para evitar essa fragilidade que nomeia a vários níveis?

FF | A resposta daria, provavelmente, outro capítulo... Mas, a ter de escolher um conjunto mais significativo de medidas para evitar essa ameaça da fragilidade da nossa capacidade de organização, sugeria uma combinação de três: Estratégia, planeamento e envolvimento. Necessitamos de uma visão estratégica, com planeamento e avaliação regular de metas e o indispensável envolvimento dos intervenientes, nomeadamente, dos profissionais de saúde que, depois das provas dadas no combate à pandemia, merecem o devido reconhecimento e valorização.

JM | Disse recentemente à TSF que a condição pós-COVID em Portugal deveria justificar uma aposta num programa "a nível de estruturas oficiais, com um diretor e centros de referência". Apresentou esta proposta ao Ministério da Saúde?

FF | Sempre que surge a oportunidade e independentemente do meu interlocutor, tenho defendido e justificado a proposta de criação de um Programa Nacional para a Condição Pós- COVID-19. Julgo que, muito em breve, vamos confirmar a necessidade deste programa. A verdade é que se estima que, em Portugal, mais de 100 mil pessoas possam precisar de cuidados multidisciplinares, complexos e diferenciados devido à condição pós-COVID, que muitas vezes vai além dos três meses – a denominada “COVID Longa”.

JM | Do “outro lado da moeda”, o relatório do ONDR destaca estaca a existência de 36 mortes diárias em Portugal devido às doenças respiratórias não COVID. A pneumonia continua a matar muito e cada vez mais em Portugal e também o número de mortes por DPOC aumentou 7,9% face a 2017. Estamos a negligenciar as outras doenças respiratórias? O que justifica estes números e que fazer para inverter a situação?

FF | A pandemia que foi declarada pela OMS a 11 de março de 2020 e, passados quase dois anos, sabemos que esta teve um impacto significativo no diagnóstico, controlo e abordagem das outras entidades nosológicas, das quais as doenças respiratórias não foram uma exceção.

Na minha opinião, num Serviço Nacional de Saúde (SNS) que se encontrava sem reservas e no limite não houve capacidade de desviar meios para combater a pandemia e assegurar simultaneamente as outras atividades assistenciais. Como tal, defendo que a inversão desta situação é uma oportunidade de reformular o SNS e o seu papel e integração na resposta nacional em saúde. Como já referi, não haverá uma reformulação do SNS sem estratégia, planeamento e envolvimento.

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro

O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.